Falar de amor e sexo no século XXI implica refletir sobre a "sociedade do espetáculo" descrita pelo polêmico pensador francês Guy Debord.
O autor analisa uma forma de estar no mundo em que a vida real é, inexoravelmente, pobre e fragmentada - e as pessoas são obrigadas a assistir e a consumir passivamente as imagens de tudo que lhes falta em sua existência subjetiva.
Essa perspectiva me remete ao termo "ficar" - rótulo informal para os encontros efêmeros e descartáveis, nos quais ver, ser visto e aparecer reduzem os casais a machos e fêmeas no cio.
Os pares são transitórios, os arranjos duram apenas algumas horas, talvez dias. Ou minutos. É o tempo do desejo saciado.
A disposição para a entrega, para o "outro" e para o amor vive (ou sobrevive) sob o impacto do exagero, da aceleração e da competitividade. A sexualidade é experimentada como mais um produto de consumo, fica disponível num mercado de troca que não vai além da dimensão ilusória.
REFLEXOS DA GLOBALIZAÇÃO: "Ficar" denuncia uma nova ordem das coisas e o inevitável entrelaçamento entre indivíduo e mundo. Uma espécie de voyeurismo, que ao mesmo tempo exibe e excita, restringe o potencial criativo dos verdadeiros encontros à mera satisfação carnal. "Ficar" torna-se o absolutismo literal, comprometendo a fusão com os outros sentidos. Impede a elaboração das fantasias indispensáveis à compreensão do que está por trás da banal conexão entre os pares e do que poderia ser apreciado, sentido e vivido como metáfora para novos e mais criativos estilos de relacionamento.
Não fosse pela aproximação anestesiada entre os pares, devido ao consumo abusivo de álcool e drogas (ou a combinação de ambos), também eu não teria ressalvas a essa fonte de aprendizado para a vida adulta. Mas não são muitos os efeitos positivos do "ficar". Ao contrário: gravidez indesejada, disseminação de DSTs e ausência de auto-reconhecimento por meio do "outro" são conseqüências freqüentes - e às vezes desastrosas.
Sem medo da rejeição, os jovens perdem o sabor da frustração, já que bocas, curvas, seios, músculos e genitais estão sempre disponíveis. Rejeitar, do latim rejectare, significa fazer eco, repercutir, lançar para fora, rebater. E a falta dessa experiência inibe a capacidade de perceber que o "outro" também tem liberdade para escolher.
No cenário distorcido e nas imagens erotizadas da mídia vendem-se falsas necessidades e pseudodesejos inspirados por corpos exuberantes e figuras estereotipadas de homens e mulheres esvaziados de sua interioridade, privados de individualidade e raízes. Nessa exibição indiscriminada - que comercializa amor da mesma forma que produtos para higiene íntima - a alteridade não conta: só importa o que é manifesto e visto.
O afeto é desvalorizado porque o que vale mesmo é o desempenho. Essa constatação nos desafia em outdoors, na televisão, nas revistas e pode ser testemunhada nos consultórios.Que homens e mulheres se constroem a partir desse espetáculo? Tentar uma compreensão na mais pura tradição junguiana me leva a recorrer aos arquétipos do inconsciente coletivo (prefigurações de toda experiência humana que se manifesta em imagens), contrapondo- os às configurações modeladas pela cultura de massa (os estereótipos, ou seja, características que se referem a um determinado padrão generalizado e pouco original).
Se um está diretamente relacionado à multiplicidade de cada ser e, portanto, acessível a partir do cultivo de alma, o outro configura personagens fictícios e pasteurizados - modelos contemporâneos calcados em comportamentos coletivos que determinam personalidade, atitudes e modos de falar de muitos.
Estrutura-se assim um ego contaminado pela projeção dos diversos modelos da cultura de massa: o vazio interior, preenchido por imagens estereotipadas, permeia a aproximação mágica entre os pares. Significa dizer que, por trás dessa magia, escondem-se pessoas quase sempre inconscientes do modo como se comportam em relação aos próprios movimentos psíquicos, e essa inconsciência, além de distanciá-las de seus processos internos, é amplamente permeável às influências dos apelos coletivos vindos de fora.
O "ficar", então, se legitima. Homens e mulheres experimentam, por meio da projeção, aquilo que não são e desenvolvem a fobia da entrega, do compromisso e da rejeição, autorizando a ética do provisório - uma lógica que interpreta um conjunto de valores passageiros e tenta estabelecer entre eles alguma ordem que os justifique.
O não-envolvimento, efeito dessa projeção, funciona como vacina que os imuniza contra prováveis desencontros, que invariavelmente ocorrem quando as exigências de suas verdadeiras imagens anímicas projetadas não são mais atendidas. Inconscientes da própria essência, muitos optam por relacionamentos compulsivos e superficiais, que alternam a necessidade de amar e abandonar.
Em sua não-existência vazia, na qual um pode ser todas as coisas para o outro, vivem como verdadeiros camaleões, que se defendem dos predadores assumindo as características que o meio lhes impõe. E passam a reproduzir infinitamente tal comportamento até que uma pálida e sutil inquietação interna os desarme para um primeiro contato com suas demandas da alma. Buscar na mitologia o pano de fundo que dá sentido às várias formas de estar no mundo é premissa básica da psicologia arquetípica.
Associar histórias pessoais a mitos revela muito de nós, em várias etapas da vida.
O mito de Ísis-Osíris, por exemplo, nos oferece informações e possibilidades de reflexão a respeito do "ficar". Quando Osíris foi assassinado e desmembrado pelo irmão Seth, Ísis saiu à procura dos pedaços desse corpo amado, esquartejado e disperso pelo Egito, juntando todas as partes, exceto o órgão sexual, que foi substituído por um falo de ouro.
Osíris renasceu reconstituído em Amenti - o mundo subterrâneo análogo ao Hades grego, o lugar onde está a psique, a morada da alma.
E com o falo artesanalmente construído gerou Hórus - a possibilidade de germinar o novo não-efêmero, que facilita a cada ser viver de forma inteira uma relação harmoniosa de amor e cumplicidade.
UNIVERSO INCONSCIENTE: Ísis é atribuído o "poder" do renascimento, que psicologicamente significa o reconhecimento de que a possibilidade de discriminação no mundo visível está intimamente relacionada ao contato com os mistérios do universo inconsciente.
Esse mito fala de mulheres que buscam nos encontros provisórios partes do Osíris despedaçado em cada homem com quem se relacionam; e de homens acreditando que o grande mistério de sua vida se restringe à potência do falo de ouro, por meio do qual são estabelecidas relações de poder e submissão.
Quanto maior a anestesia provocada por imagens coletivas estereotipadas e superficiais, menor a possibilidade do contato com o mundo interior e com a realidade multifacetada do "outro". Nos dois últimos versos do "Soneto da fidelidade", Vinicius de Moraes propõe uma saída criativa para o misterioso prazer dos verdadeiros encontros: "que não seja imortal, posto que é chama, mas seja infinito enquanto dure".
sexta-feira, 30 de novembro de 2007
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
The Secret ( resumo final)
- Você precisa preencher o quadro- negro de sua vida com o que deseja.
- Tudo que precisa fazer é sentir-se bem agora.
- Quanto mais usar o poder que tem dentro de si, mais poder irá atrair por seu intermédio.
- O momento de assumir sua magnificência é agora.
- Estamos no meio de uma era gloriosa.Quando pararmos de limitar nossos pensamentos, iremos vivênciar a verdadeira magnificência da humanidade, em cada área da criação.
- Faça o que você ama.Se não souber o que lhe traz satisfação, pergunte:"Qual é minha alegria?"Quando se comprometer com ela, irá atrair uma avalanche de coisas alegres,porque estará irradiando alegria.
- Agora que você aprendeu o conheceu do Segredo, fica a seu critério o que fará com ele.O que escolher será correto.O poder é todo seu.
The Secret ( resumo cap 9)
- Tudo é energia.Você é um imã de energia, portanto energiza eletricamente tudo para você e se energiza eletricamente para tudo o que deseja.
- Você é um ser espiritual.Você é energia, e a energia não pode ser criada nem destruída - ela apenas muda de forma.Portanto, a pura essência de você sempre foi e sempre será.O Universo emerge do pensamento.Somos os criadores não só de nosso destino, mas também do Universo.
- Encontra-se seu dispor um acervo ilimitado de idéias.Todo o conhecimento, todas asa descobertas e invenções estão na mente Universal como possibilidades,à espera de que a mente humana venha buscá-las.Tudo está contido na sua consciência.
- Todos nós estamos conectados e todos somos Um.
- Livre-se das dificuldades de seu passado, dos códigos culturais e das crenças sociais.Só você pode criar a vida que merece.
- Um atalho para a manifestação dos desejos é visualizar como ato absoluto aquilo que se deseja.
- Seu poder está em seus pensamentos, portanto, esteja consciente, ou seja,"lembre-se de lembrar".
The Secret ( resumo cap. 8)
- Voce atrai aquilo a que resiste, por estar intensamente concentrado nele com emoção.Para mudar alguma coisa, volte-se para si mesmo e emita um novo sinal com seus pensamentos e sentimentos.
- Você não pode ajudar o mundo pela concentração nas coisas negativas.Enquanto se concentra nos acontecimentos mundiais negativos, além de reforçá-los, também introduz mais coisas negativas em sua própria vida.
- Em vez de se concentrar nos problemas do mundo, dedique sua atenção e energia à confiança, ao amor,à abundância,à educação, e à paz.
- Nunca ficaremos desabastecidos de coisas boas, porque elas são mais do que suficientes para todos. A vida visa à abundância.
- Por meio de seus pensamentos e sentimentos, você tem a capacidade de explorar o manancial ilimitado e trazê-lo para sua experiência.
- Louve e abençoe tudo no mundo e você dissolverá a negatividade e a desavença, e se alinhará com a mais alta freqüencia - o amor.
The Secret ( resumo cap. 7)
- O efeito placebo é um exemplo da lei de atração em ação.Quando um paciente acredita de fato que o comprimido é uma cura, recebe aquilo em que acredita e acaba curado.
- A concentração na saúde perfeita é algo que podemos fazer dentro de nós, a despeito do que possa estar acontecendo no exterior.
- O riso atrai alegria, elimina a negatividade e leva a cura milagrosas.
- A doença é retida no corpo pelo pensamento, pela observação da doença e pela atenção dada a ela.Se você está se sentindo indisposto, não fale nisso - exceto se quiser intensificar o mal estar.Se ouvir as pessoas falarem sobre suas doenças, irá acrescentar energia a estas.Em vez disso, mude a conversa para coisas boas, e dedique pensamentos poderosos à visão daquelas mesmas pessoas com saúde.
- As crenças sobre envelhecimento estão todas em nossa mente, portanto, afaste estes pensamentos de sua consciência.Concentre-se na saúde e na eterna juventude.
- Não dê ouvidos às mensagens da sociedade sobre doenças e envelhecimento.As mensagens negativas não servem paa você.
The Secret (resumo do cap. 6)
- Quando quiser atrair um relacionamento, tenha a certeza de que seus pensamentos, palavras, ações a ambientes não contradigam seus desejos.
- Sua missão é você.Sem que primeiro alcance a plenitude,você não terá nada para dar a ninguém.
- Trate a si mesmo com amor e respeito, e irá atrair pessoas que demonstram amor e respeito.
- Quando se sente mal consigo mesmo, você bloqueia o amor e atrai mais pessoas e situações que continuarão fazendo com que se sinta mal consigo mesmo.
- Concentre-se nas qualidades que adora em si e a lei da atração irá mostrar mais coisas grandiosas sobre você.
- Pra fazer um relacionamento dar certo, concentre-se naquilo que aprecia no outro, e não em suas queixas.Quando você se concentra nos pontos fortes, consegue mais do mesmo.
The Secret ( resumo cap 5)
- Pra atrair dinheiro se concentre na prosperidade.É impossível atrair mais dinheiro para sua vida quando você se concentra na falta dele.
- É útil soltar sua imaginação e fingir que você já tem o dinheiro que quer.Brinque de ter prosperidade e você se sentirá melhor em relação ao dinheiro; quando se sentir melhor com isso, mais irá fluir para sua vida.
- Sentir-se feliz agora é a forma mais rápida de atrair dinheiro para sua vida.
- Comprometa-se a olhar para tudo de que você gosta e dizer a si mesmo:"Eu dou conta.Eu posso comprar aquilo". Você irá mudar sua forma de pensar e começará a se sentir melhor em relação ao dinheiro.
- Dê dinheiro, de modo a atrair mais para sua vida.Quando você é generoso com o dinheiro e se sente bem em partilhá-lo, está dizendo:"Eu tenho muito".
- Visualize cheques na sua caixa de correio.
- Faça a balança de seus pensamentos pender para a riquea.Pense rico.
The Secret ( resumo cap.4)
- A expectativa é uma força de atração poderosa.Espere asacoisa que você quer, e não espere as coisa que não quer.
- A gratidão é um processo poderoso de transformar sua enegia e conquistar para sua vida mais do que você quer.Agradeça pelo que já tem , e irá atrair ainda mais coisas boas.
- Agradecer antecipadamente por aquilo que quer turbina seus desejos e envia ao Universo um sinal mais poderoso.
- Visualização é o prcesso de criar na mente imagens de você mesmo desfrutando o que quer.Quando você visualiza, gera pensamentos e sensações poderosas de já ter.A lei da atração então devolve essa realidade a você, assim como a viu em sua mente.
- Para usar a lei da atração em seu benefício, transforme-a num modo de vida, não em um acontecimento isolado.
- Ao final de cada dia, antes de dormir, repasse os acontecimentos daquele dia.Se algo não se passou com você queria, repita-o em sua mente da forma como gostaria que tivesse sido.
The Secret( resumo cap.3)
- Como o gênio de Aladim, a lei da atração atende a todos os nossos pedidos.
- O processo Criativo ajuda a criar o que você quer em três passos simples: peça,acredite, receba.
- Pedir ao Universo o que você quer é a oportunidade de ter a clareza quanto ao que quer.Quando ficar claro em sua mente, você terá pedido.
- Acreditar implica em agir,falar e pensar como se já tivesse recebido o que pediu.Quando você emite a frequencia de ter recebido, a lei de atração move pessoas, acontecimentos e situações para que você os receba.
- Receber implica sentir como será assim que seu desejo se manifestar.Sentir-se bem agora o coloca na frequencia do que você quer.
- Para perder peso, não se concentre em "perder peso". Em vez disso, concentre-se em seu peso ideal.Sinta o seu peso ideal, e você o atrairá para si.
- O universo não precisa de tempo para produzir o que você quer.É tão fácil produzir um dólar quanto um milhão de dólares.
- Começar com algo pequeno,como uma ícara de café ou uma vaga de estacionamento, é uma forma simples de experimentar a leide atração em ação.Projete poderosamente atrair algo pequeno.Ao experimentar o poder que tem de atrair, voce irá passar a criar as coisas muito maiores.
- Crie seu dia com antecdência pensando no modo como você quer que ele seja, e estará criando sua vida intencionamente.
The Secret ( resumo cap.2)
- A lei da atração é a lei da natureza.Ela é tão imparcial quantoa lei da gravidade.
- Nada se pode introduzir na sua experiência a menos que você o peça por meio de pensamentos duradouros.
- A fim de saber o que você está pensando, pergunte a si mesmo como está se sentindo.As emoções são ferramentas valiosas que nos dizem instataneamente o que estamos pensando.
- É impossível sentir-se mal e ao mesmo tempo ter bons pensamentos.
- Seus pensamentos determinam a frequencia, e seus sentimentos lhe dizem de imediato em que frequencia você está.Quando se sente mal, você está na frequencia em qe atrai mais coisas ruins.Quando se sente bem, você está poderosamente atraindo para si coisas boas.
- Modifcadores do Segredo, tais como lembranças agradáveis, a natureza ou sua música predileta, podem mudar seus sentimentos e sua frequencia num instante.
- O sentimento de amor é a frequencia mais alta que você pode emitir.Quanto maior o amor que você sente e emite, maior o poder que você utiliza.
The Secret ( resumo cap.1)
- O Grande segredo da Vida é a lei da Atração
- A lei da Atração diz que semehante atrai semelhante; portanto, quando você tem um pensamento, você também está atraindo pensamentos semelhantes para si.
- Os pensamentos são magnéticos e tem uma frequencia.Quando você pensa, os pensamentos são emitidos para o Universo e magneticamente atraem todas asa coisas semelhantes que estão na mesma frequencia.Tudo o que é emitido volta para a fonte -você.
- Você é como uma torre de transmissão humana, transmitindo uma freequencia com os seus pensamentos.Se quiser mudar qualquer coisa em sa vida, mude a frequencia mudando seus pensamentos.
- Seus pensamentos atuais estão criando sua vida futura.Aquilo em que você mais pensa ou se concentra se manifestará como a sua vida.
- Seus pensamentos se transformam em coisas.
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
Atitudes que drenam energia
1. Pensamentos obsessivos - Pensar gasta energia,
e todos nós sabemos disso. Ficar remoendo um
problema cansa mais do que um dia inteiro de
trabalho físico. Quem não tem domínio sobre seus
pensamentos - mal comum ao homem ocidental,
torna-se escravo da mente e acaba gastando a
energia que poderia ser convertida em atitudes
concretas, além de alimentar ainda mais os
conflitos. Não basta estar atento ao volume de
pensamentos, é preciso prestar atenção à
qualidade deles. Pensamentos positivos, éticos e
elevados podem recarregar as energias, enquanto o
pessimismo consome energia e atrai mais negatividade para nossas
vidas.
2. Sentimentos tóxicos - Choques emocionais e
raiva intensa também esgotam as energias, assim
como ressentimentos e mágoas nutridos durante
anos seguidos. Não é à toa que muitas pessoas
ficam estagnadas e não são prósperas. Isso
acontece quando a energia que alimenta o prazer,
o sucesso e a felicidade é gasta na manutenção de
sentimentos negativos. Medo e culpa também gastam
energia, e a ansiedade descompassa a vida. Por
outro lado, os sentimentos positivos, como a
amizade, o amor, a confiança, o desprendimento, a
solidariedade, a auto-estima, a alegria e o
bom-humor recarregam as energia e dão força para
empreender nossos projetos e superar os obstáculos.
3. Maus hábitos, falta de cuidado com o corpo -
Descanso, boa alimentação, hábitos saudáveis,
exercícios físicos e o lazer são sempre colocados
em segundo plano. A rotina corrida e a
competitividade fazem com que haja negligência em
relação a aspectos básicos para a manutenção da saúde energética.
4. Fugir do presente - As energias são colocadas
onde a atenção é focada. O homem tem a tendência
de achar que no passado as coisas eram mais
fáceis: "bons tempos aqueles!", costumam dizer.
Tanto os saudosistas, que se apegam às lembranças
do passado, quanto aqueles que não conseguem
esquecer os traumas, colocam suas energias no
passado. Por outro lado, os sonhadores ou as
pessoas que vivem esperando pelo futuro,
depositando nele sua felicidade e realização,
deixam pouca ou nenhuma energia no presente. E é
apenas no presente que podemos construir nossas vidas.
5. Falta de perdão - Perdoar significa soltar
ressentimentos, mágoas e culpas. Libertar o que
aconteceu e olhar para frente. Quanto mais
perdoamos, menos bagagem interior carregamos,
gastando menos energia ao alimentar as feridas do
passado. Mais do que uma regra religiosa, o
perdão é uma atitude inteligente daquele que
busca viver bem e quer seus caminhos livres,
abertos para a felicidade. Quem não sabe perdoar
os outros e a si mesmo, fica "energeticamente
obeso", carregando fardos passados.
6. Mentira pessoal - Todos mentem ao longo da
vida, mas para sustentar as mentiras muita
energia é gasta. Somos educados para desempenhar
papéis e não para sermos nós mesmos: a mocinha
boazinha, o machão, a vítima, a mãe extremosa, o
corajoso, o pai enérgico, o mártir e o
intelectual. Quando somos nós mesmos, a vida flui
e tudo acontece com pouquíssimo esforço.
7. Viver a vida do outro - Ninguém vive só e, por
meio dos relacionamentos interpessoais, evoluímos
e nos realizamos, mas é preciso ter noção de
limites e saber amadurecer também nossa
individualidade. Esse equilíbrio nos resguarda
energeticamente e nos recarrega. Quem cuida da
vida do outro, sofrendo seus problemas e
interferindo mais do que é recomendável, acaba
não tendo energia para construir sua própria
vida. O único prêmio, nesse caso, é a frustração.
8. Bagunça e projetos inacabados - A bagunça
afeta muito as pessoas, causando confusão mental
e emocional. Um truque legal quando a vida anda
confusa é arrumar a casa, os armários, gavetas, a
bolsa e os documentos, além de fazer uma faxina
no que está sujo. À medida em que ordenamos e
limpamos os objetos, também colocamos em ordem
nossa mente e coração. Pode não resolver o
problema, mas dá alívio. Não terminar as tarefas
é outro "escape" de energia. Todas as vezes que
você vê, por exemplo, aquele trabalho que não
concluiu, ele lhe "diz" inconscientemente: "você
não me terminou! Você não me terminou!" Isso
gasta uma energia tremenda. Ou você a termina ou
livre-se dela e assuma que não vai concluir o
trabalho. O importante é tomar uma atitude. O
desenvolvimento do auto-conhecimento, da
disciplina e da determinação farão com que você
não invista em projetos que não serão concluídos
e que apenas consumirão seu tempo e energia.
9. Afastamento da natureza - A natureza, nossa
maior fonte de alimento energético, também nos
limpa das energias estáticas e desarmoniosas. O
homem moderno, que habita e trabalha em locais
muitas vezes doentios e desequilibrados, vê-se
privado dessa fonte maravilhosa de energia. A
competitividade, o individualismo e o estresse
das grandes cidades agravam esse quadro e
favorecem o vampirismo energético, onde todos
sugam e são sugados em suas energias vitais.
Novamente - posicionar os móveis de maneira
correta, usar espelhos para proteger a entrada da
casa, colocar sinos de vento para elevar a
energia ou ter fontes d'água para acalmar o
ambiente são medidas que se tornarão ineficientes
se quem vive neste espaço não cuidar da própria
energia. Portanto, os efeitos positivos da
aplicação do Feng Shui nos ambientes estão
diretamente relacionados à contenção da perda de
energia das pessoas que moram ou trabalham no
local. O ambiente faz a pessoa, e vice-versa.
e todos nós sabemos disso. Ficar remoendo um
problema cansa mais do que um dia inteiro de
trabalho físico. Quem não tem domínio sobre seus
pensamentos - mal comum ao homem ocidental,
torna-se escravo da mente e acaba gastando a
energia que poderia ser convertida em atitudes
concretas, além de alimentar ainda mais os
conflitos. Não basta estar atento ao volume de
pensamentos, é preciso prestar atenção à
qualidade deles. Pensamentos positivos, éticos e
elevados podem recarregar as energias, enquanto o
pessimismo consome energia e atrai mais negatividade para nossas
vidas.
2. Sentimentos tóxicos - Choques emocionais e
raiva intensa também esgotam as energias, assim
como ressentimentos e mágoas nutridos durante
anos seguidos. Não é à toa que muitas pessoas
ficam estagnadas e não são prósperas. Isso
acontece quando a energia que alimenta o prazer,
o sucesso e a felicidade é gasta na manutenção de
sentimentos negativos. Medo e culpa também gastam
energia, e a ansiedade descompassa a vida. Por
outro lado, os sentimentos positivos, como a
amizade, o amor, a confiança, o desprendimento, a
solidariedade, a auto-estima, a alegria e o
bom-humor recarregam as energia e dão força para
empreender nossos projetos e superar os obstáculos.
3. Maus hábitos, falta de cuidado com o corpo -
Descanso, boa alimentação, hábitos saudáveis,
exercícios físicos e o lazer são sempre colocados
em segundo plano. A rotina corrida e a
competitividade fazem com que haja negligência em
relação a aspectos básicos para a manutenção da saúde energética.
4. Fugir do presente - As energias são colocadas
onde a atenção é focada. O homem tem a tendência
de achar que no passado as coisas eram mais
fáceis: "bons tempos aqueles!", costumam dizer.
Tanto os saudosistas, que se apegam às lembranças
do passado, quanto aqueles que não conseguem
esquecer os traumas, colocam suas energias no
passado. Por outro lado, os sonhadores ou as
pessoas que vivem esperando pelo futuro,
depositando nele sua felicidade e realização,
deixam pouca ou nenhuma energia no presente. E é
apenas no presente que podemos construir nossas vidas.
5. Falta de perdão - Perdoar significa soltar
ressentimentos, mágoas e culpas. Libertar o que
aconteceu e olhar para frente. Quanto mais
perdoamos, menos bagagem interior carregamos,
gastando menos energia ao alimentar as feridas do
passado. Mais do que uma regra religiosa, o
perdão é uma atitude inteligente daquele que
busca viver bem e quer seus caminhos livres,
abertos para a felicidade. Quem não sabe perdoar
os outros e a si mesmo, fica "energeticamente
obeso", carregando fardos passados.
6. Mentira pessoal - Todos mentem ao longo da
vida, mas para sustentar as mentiras muita
energia é gasta. Somos educados para desempenhar
papéis e não para sermos nós mesmos: a mocinha
boazinha, o machão, a vítima, a mãe extremosa, o
corajoso, o pai enérgico, o mártir e o
intelectual. Quando somos nós mesmos, a vida flui
e tudo acontece com pouquíssimo esforço.
7. Viver a vida do outro - Ninguém vive só e, por
meio dos relacionamentos interpessoais, evoluímos
e nos realizamos, mas é preciso ter noção de
limites e saber amadurecer também nossa
individualidade. Esse equilíbrio nos resguarda
energeticamente e nos recarrega. Quem cuida da
vida do outro, sofrendo seus problemas e
interferindo mais do que é recomendável, acaba
não tendo energia para construir sua própria
vida. O único prêmio, nesse caso, é a frustração.
8. Bagunça e projetos inacabados - A bagunça
afeta muito as pessoas, causando confusão mental
e emocional. Um truque legal quando a vida anda
confusa é arrumar a casa, os armários, gavetas, a
bolsa e os documentos, além de fazer uma faxina
no que está sujo. À medida em que ordenamos e
limpamos os objetos, também colocamos em ordem
nossa mente e coração. Pode não resolver o
problema, mas dá alívio. Não terminar as tarefas
é outro "escape" de energia. Todas as vezes que
você vê, por exemplo, aquele trabalho que não
concluiu, ele lhe "diz" inconscientemente: "você
não me terminou! Você não me terminou!" Isso
gasta uma energia tremenda. Ou você a termina ou
livre-se dela e assuma que não vai concluir o
trabalho. O importante é tomar uma atitude. O
desenvolvimento do auto-conhecimento, da
disciplina e da determinação farão com que você
não invista em projetos que não serão concluídos
e que apenas consumirão seu tempo e energia.
9. Afastamento da natureza - A natureza, nossa
maior fonte de alimento energético, também nos
limpa das energias estáticas e desarmoniosas. O
homem moderno, que habita e trabalha em locais
muitas vezes doentios e desequilibrados, vê-se
privado dessa fonte maravilhosa de energia. A
competitividade, o individualismo e o estresse
das grandes cidades agravam esse quadro e
favorecem o vampirismo energético, onde todos
sugam e são sugados em suas energias vitais.
Novamente - posicionar os móveis de maneira
correta, usar espelhos para proteger a entrada da
casa, colocar sinos de vento para elevar a
energia ou ter fontes d'água para acalmar o
ambiente são medidas que se tornarão ineficientes
se quem vive neste espaço não cuidar da própria
energia. Portanto, os efeitos positivos da
aplicação do Feng Shui nos ambientes estão
diretamente relacionados à contenção da perda de
energia das pessoas que moram ou trabalham no
local. O ambiente faz a pessoa, e vice-versa.
Aprendi e Decidi - Walt Disney
E assim, depois de muito esperar,
Num dia como outro qualquer, decidi triunfar.
Decidi não esperar as oportunidades e sim,
Eu mesmo buscá-Las.
Decidi ver cada problema como uma
Oportunidade de encontrar uma solução.
Decidi ver cada deserto como uma possibilidade
De encontrar um oásis.
Decidi ver cada noite como um mistério a resolver.
Decidi ver cada dia
Como uma nova oportunidade de ser feliz.
Naquele dia, descobri que meu único rival
não era mais que minhas próprias limitações
e que enfrentá-Las era a única
e melhor forma de superá-Las.
Naquele dia, descobri que eu não era o melhor
e que talvez eu nunca tenha sido.
Deixei de me importar com quem ganha ou perde,
Agora, me importa simplesmente
Saber melhor o que fazer.
Aprendi que o difícil não é chegar lá em cima,
e sim deixar de subir.
Aprendi que o melhor triunfo que posso ter,
é ter o direito de chamar a alguém de "Amigo"
Descobri que o amor é mais que um simples
Estado de enamoramento ...
"o amor é uma filosofia de vida"
Naquele dia, deixei de ser um reflexo
Dos meus escassos triunfos passados e passei a
Ser a minha própria tênue, luz deste presente.
Aprendi que de nada serve ser luz
Se não vai iluminar o caminho dos demais.
Naquele dia, decidi trocar tantas coisas...
Naquele dia, aprendi que os sonhos
são somente para fazer-se realidade.
E desde aquele dia já não durmo para descansar.
Agora simplesmente durmo para sonhar.
Num dia como outro qualquer, decidi triunfar.
Decidi não esperar as oportunidades e sim,
Eu mesmo buscá-Las.
Decidi ver cada problema como uma
Oportunidade de encontrar uma solução.
Decidi ver cada deserto como uma possibilidade
De encontrar um oásis.
Decidi ver cada noite como um mistério a resolver.
Decidi ver cada dia
Como uma nova oportunidade de ser feliz.
Naquele dia, descobri que meu único rival
não era mais que minhas próprias limitações
e que enfrentá-Las era a única
e melhor forma de superá-Las.
Naquele dia, descobri que eu não era o melhor
e que talvez eu nunca tenha sido.
Deixei de me importar com quem ganha ou perde,
Agora, me importa simplesmente
Saber melhor o que fazer.
Aprendi que o difícil não é chegar lá em cima,
e sim deixar de subir.
Aprendi que o melhor triunfo que posso ter,
é ter o direito de chamar a alguém de "Amigo"
Descobri que o amor é mais que um simples
Estado de enamoramento ...
"o amor é uma filosofia de vida"
Naquele dia, deixei de ser um reflexo
Dos meus escassos triunfos passados e passei a
Ser a minha própria tênue, luz deste presente.
Aprendi que de nada serve ser luz
Se não vai iluminar o caminho dos demais.
Naquele dia, decidi trocar tantas coisas...
Naquele dia, aprendi que os sonhos
são somente para fazer-se realidade.
E desde aquele dia já não durmo para descansar.
Agora simplesmente durmo para sonhar.
Brasileiro - Arnaldo Jabour
- Brasileiro é um povo solidário. Mentira. - Brasileiro é babaca.
Eleger para o cargo mais importante do Estado um sujeito que não tem escolaridade e preparo nem para ser gari, só porque tem uma história de vida sofrida;
Pagar 40% de sua renda em tributos e ainda dar esmola para pobre na rua ao invés de cobrar do governo uma solução para pobreza;
Aceitar que ONG's de direitos humanos fiquem dando pitaco na forma como tratamos nossa criminalidade. ..
Não protestar cada vez que o governo compra colchões para presidiários que queimaram os deles de propósito, não é coisa de gente solidária. É coisa de gente otária.
-Brasileiro é um povo alegre. Mentira. Brasileiro é bobalhão.
-Fazer piadinha com as imundices que acompanhamos todo dia é o mesmo que tomar bofetada na cara e dar risada.
Depois de um massacre que durou quatro dias em São Paulo, ouvir o José Simão fazer piadinha a respeito e achar graça, é o mesmo que contar piada no enterro do pai. Brasileiro tem um sério problema. Quando surge um escândalo, ao invés de protestar e tomar providências como cidadão, ri feito bobo.
-Brasileiro é um povo trabalhador. Mentira. Brasileiro é vagabundo por excelência. - O brasileiro tenta se enganar, fingindo que os políticos que ocupam cargos públicos no país, surgiram de Marte e pousaram em seus cargos, quando na verdade, são oriundos do povo.
O brasileiro, ao mesmo tempo em que fica indignado ao ver um deputado receber 20 mil por mês, para trabalhar 3 dias e coçar o saco o resto da semana, também sente inveja e sabe lá no fundo que se estivesse no lugar dele faria o mesmo.
Um povo que se conforma em receber uma esmola do governo de 90 reais mensais para não fazer nada e não aproveita isso para alavancar sua vida (realidade da brutal maioria dos beneficiários do bolsa família) não pode ser adjetivado de outra coisa que não de vagabundo.
Brasileiro é um povo honesto. Mentira. - Já foi; hoje é uma qualidade em baixa. - Se você oferecer 50 Euros a um policial europeu para ele não te autuar, provavelmente irá preso. Não por medo de ser pego, mas porque ele sabe ser errado aceitar propinas.
O brasileiro, ao mesmo tempo em que fica indignado com o mensalão, pensa intimamente o que faria se arrumasse uma boquinha dessas, quando na realidade isso sequer deveria passar por sua cabeça.
90% de quem vive na favela é gente honesta e trabalhadora. Mentira. - Já foi. Historicamente, as favelas se iniciaram nos morros cariocas quando os negros e mulatos retornando da Guerra do Paraguai ali se instalaram. Naquela época quem morava lá era gente honesta, que não tinha outra alternativa e não concordava com o crime.
Hoje a realidade é diferente. Muito pai de família sonha que o filho seja aceito como "aviãozinho" do tráfico para ganhar uma grana legal. Se a maioria da favela fosse honesta, já teriam existido condições de se tocar os bandidos de lá para fora, porque podem matar 2 ou 3 mas não milhares de pessoas.
Além disso, cooperariam com a polícia na identificação de criminosos, inibindo-os de montar suas bases de operação nas favelas. O Brasil é um pais democrático.. Mentira. Num país democrático a vontade da maioria é Lei. A maioria do povo acha que bandido bom é bandido morto, mas sucumbe a uma minoria barulhenta que se apressa em dizer que um bandido que foi morto numa troca de tiros, foi executado friamente.
Num país onde todos têm direitos mas ninguém tem obrigações, não existe democracia e sim, anarquia. Num país em que a maioria sucumbe bovinamente ante uma minoria barulhenta, não existe democracia, mas um simulacro hipócrita. Se tirarmos o pano do politicamente correto, veremos que vivemos numa sociedade feudal: um rei que detém o poder central (presidente e suas MPs), seguido de duques, condes, arquiduques e senhores feudais (ministros, senadores, deputados, prefeitos, vereadores). Todos sustentados pelo povo que paga tributos que têm como único fim, o pagamento dos privilégios do poder. E ainda somos obrigados a votar.
Democracia isso? Pense !
O famoso jeitinho brasileiro.
Na minha opinião um dos maiores responsáveis pelo caos que se tornou a política brasileira. Brasileiro se acha malandro, muito esperto. Faz um "gato" puxando a TV a cabo do vizinho e acha que está botando pra quebrar.
No outro dia o caixa da padaria erra no troco e devolve 6 reais a mais, caramba, silenciosamente ele sai de lá com a felicidade de ter ganhado na loto...malandrõ es, esquecem que pagam a maior taxa de juros do planeta e o retorno é zero. Zero saúde, zero emprego, zero educação, mas e daí? Afinal somos penta campeões do mundo né? Grande coisa...
O Brasil é o país do futuro. Caramba , meu avô dizia isso em 1950. Muitas vezes cheguei a imaginar em como seria a indignação e revolta dos meus avôs se ainda estivessem vivos. Dessa vergonha eles se safaram... Brasil, o país do futuro!? Hoje o futuro chegou e tivemos uma das piores taxas de crescimento do mundo.
Deus é brasileiro. Puxa, essa eu não vou nem comentar....
O que me deixa mais triste e inconformado é ver todos os dias nos jornais a manchete da vitória do governo mais sujo já visto em toda a história brasileira.
Para finalizar tiro minha conclusão:
O brasileiro merece! Como diz o ditado popular, é igual mulher de malandro, gosta de apanhar.
Se você não é como o exemplo de brasileiro citado nesse e-mail, meus sentimentos amigo, continue fazendo sua parte, e que um dia pessoas de bem assumam o controle do país novamente. Aí sim, teremos todas as chances de ser a maior potência do planeta. Afinal aqui não tem terremoto, tsunami nem furacão.Temos petróleo, álcool, bio-diesel, e sem dúvida nenhuma o mais importante: Água doce!
Só falta boa vontade, será que é tão difícil assim?
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Adoção e Arquetipo Fraterno (Wenth)
O tema e as reflexões de nosso encontro[1], O Arquétipo Fraterno, por serem tão fortes, tão essenciais e tão pouco explorados vêm ocupando desde então um es-paço considerável em nossas reflexões.
Ao sair para caminhar e brincar com minhas reflexões ou ao contar estó-rias para minha filha, estava ele lá, fazendo-se presente. Comecei a juntá-lo com outro tema próximo: a Adoção. Tema este que me envolve há alguns anos, pessoal e teóricamente.
O irmão: estamos falando de um tema que envolve algum tipo de proximi-dade, porém não se restringe à intimidade familiar. Tornou-se também evidente o quanto o arquétipo fraterno relaciona-se com questões, por assim dizer, sociais. Sim, estamos falando de irmãos, de irmandade, de comunidade – onde, apesar das diferenças, somos iguais. Onde buscamos pelas igualdades e sentimos dificuldades ou criamos com as diferenças.
O fraterno revela-se nas relações entre os irmãos de “sangue”, mas também entre os irmãos de “espécie” : somos todos humanos . Entre aqueles que se tornam irmãos por pertencerem a um mesmo grupo: ideológico, de classe ou condição so-cial. Temos associações de bancários, associações junguianas, partidos políticos , grupos terroristas, os cristãos, os judeus, enfim, os “iguais se buscam” – e neste encontro um caldeirão de emoções características às relações entre irmãos surgem: alegria pelas aventuras em conjunto,proteção mútua,competições, brigas, ciúmes e inveja.
Em nosso encontro falamos dos órfãos, dos abandonados e então proponho refletirmos sobre os adotivos, ou em sentido mais amplo, as adoções que em nos-sas vidas fazemos, inclusive a adoção de um partido, de uma pátria , novamente, a busca por uma irmandade.
Podemos refletir sobre a adoção em dois sentidos, misturando um ao outro:
A adoção em um sentido amplo, arquetípico: os seres humanos se adotam, ou não. Um marido adota a mulher; adotamos amigos, filhos ( mesmo os biológicos),ou não. Adotamos idéias, direções políticas, novas posturas de vida. Adotamos uma pátria.
Estou aqui pensando na etimologia da palavra adoção = ad +optare. Ad= aproximação no tempo e no espaço e optare= opção. Daí ser a adoção uma opção por aproximação.Portanto, quando optamos por estar próximos de alguém ou de algo , a adoção entra em jogo.
Uma outra forma de olharmos para a adoção seria em sentido mais concreto,
como uma das formas de se ter filhos, de sermos ou termos pais. Onde a opção está ou torna-se evidente, onde opta-se por deixar de lado laços sanguíneos e outros laços entram em cena.
Na adoção de um filho, por exemplo, a função fraternal faz-se evidente . So-mos “forçados” a uma conscientização da singularidade do outro – a “falácia pa-rental” como diz Hillman[2], o acreditar que nossos filhos apenas nos reproduzem,o acreditar que aquilo que eles são é devido aos pais, cai por terra. Sabe-se de ante-mão que este filho terá suas características, no mínimo,físicas. O respeito por suas especificidades é tácito : somos diferentes,com histórias singulares mas iremos ficar juntos para sempre, traçaremos uma história comum à nós.
Quando estamos em grupo, juntos por uma causa comum, também as diferen-ças ficam suspensas em função daquilo que nos une e é comum. Assim como, em grupo, às vezes as diferenças se revelam, são as brigas, as competições e também oportunidades criativas, de com o outro aprendermos. Pais e filhos biológicos também possuem as suas diferenças, na adoção estas se tornam mais evidentes e a aceitação destas torna-se condição sine qua non para que o processo “dê certo”.
Separei duas “citações” que gostaria de compartilhar: a primeira, de um livro infantil e a segunda, de um livro sobre adoção.
É o conto de Stellaluna[3], uma morceguinha que, ao perder-se da mãe quan-
do esta lutava com outro pássaro, cai em um ninho de passarinhos(Flipe, Flape e Flope) e passa a conviver com eles. Eles a “adotam” e assim ,apesar de grandes diferenças (ela passa a comer insetos, dormir de cabeça para cima, não voar à noite), vivem juntos. Até ela reencontrar a mãe e levá-los para conhecer a vida dos morcegos. O que diz respeito ao nosso tema é o seguinte diálogo entre Stellaluna e os passarinhos:
“- Como podemos ser tão diferentes e nos sentirmos tão iguais? – perguntou Flipe,pensativo.
- E como podemos ser tão diferentes e sermos tão iguais? – espantou-se Flope.
- Acho que isso é um grande mistério. – piou Flape.
- Concordo – respondeu Stellaluna – mas somos amigos e isso é um fato.”
A outra citação vem de um livro sobre adoção[4], dois volumes com vários textos e o que cito é sobre adoção e fraternidade:
“No mergulho do homem em suas águas mais silenciadas, o que vêm à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o espírito humano atenta mais facilmente nas diferenças que nas semelhanças, esquecendo-se que o particular e o universal coincidem.[...][5]”
Nas adoções somos envolvidos com a “causa” da fraternidade, com o mistério de “sermos tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo”, como diz o passarinho do livro infantil. Com a vontade de juntos estarmos e sermos diferentes. Temos históri-
as e raízes diferentes mas sentimos que “fomos feitos um para o outro”- o amor en-
trou em cena, mistérios da vida.
A palavra “mistério”, nos reporta à segunda citação, onde chegamos à conclu-são de que a direção horizontal,a da singularidade, a da diferença, do respeito pelo outro como o outro é, nos encaminha para a direção vertical, a da pluralidade, a da semelhança,onde somos todos um, todos irmãos. Aos mistérios de nossa existência,
aos mistérios do amor, das uniões ou separações entre as pessoas; às fantasias sobre nossas origens não mais em um sentido pessoal. Somos mais objetos que sujeitos, de alguma forma não traçamos completamente nossos destinos, nossos encontros.
Pois, quando temos um filho adotivo, temos a certeza de que ele foi feito para nós; não importando a diferença, seja “genética” e todas os seus possíveis desdo-bramentos , seja seu nascimento à partir de outra pessoa . Aliás, a genética é cons-tantemente levantada como fator supostamente impeditivo , mas sempre digo: quem diz que a sua genética é melhor que a do outro? Por que a semelhança precisa ser física?
Portanto, para adotarmos, faz-se necessário uma abertura tanto para a horizon-talidade quanto a verticalidade de nossas relações.A horizontalidade pede um res-peito à diferença. E, a verticalidade, um olhar que não olvide a igualdade, como diz a citação. Afinal, os pais que adotam também já sentiram-se abandonados, também serão adotados.
Nas singularidades, na difícil e extremamente apaixonante e criativa convivên-cia entre as diferenças está, ou podemos encontrar, a grande igualdade humana.
Penso a esse respeito em todas as adoções em nossas vidas. Todas as vezes que
“optamos por uma aproximação” seja de nossos companheiros, filhos, amigos, pais,
teorias, países, as diferenças estão urgindo por aceitação, por espaço e, então, a se-melhança, o fato de sermos todos irmãos começa a aparecer. Isso é fato , como diz Stellaluna no conto. Fato é que somos colocados perante algumas pessoas em nos-
sas vidas, de algumas nos aproximamos e outras abandonamos, ou somos abandona
dos.
Obviamente, na adoção de um filho, os arquétipos materno e paterno são cen-
trais, tal qual uma relação biológica de pais e filhos. Porém, o arquétipo fraterno pode proporcionar um olhar de aceitação e admiração para com as diferenças/sin-
gularidades e uma abertura para os mistérios de nossos destinos de irmãos : somos
todos iguais e subordinados a algo maior , em nossos encontros ou desencontros
vivemos a experiência de sermos juntos colocados ou não.
Podemos estar em relação fraterna com : nossos filhos, nossos pais, nossos irmãos, nossos pacientes ; ou não. Até porque, não é e nem poderia ser este ,o único padrão arquetípico; outros entram em cena, outros a este se misturam.
[1] Primeiro Encontro dos Amigos da Psicologia Arquetípica. Sítio Pedra Grande, São Francisco Xavier, SP. Junho 2001.
[2] em “O Código do Ser”.
[3] CANNON,Janelle. Stellaluna.
[4] FREIRE,Fernando. org. Abandono e Adoção, contribuições para uma cultura da adoção.
[5] ANDRADE,E. Fraternidade e Afeto.
Ao sair para caminhar e brincar com minhas reflexões ou ao contar estó-rias para minha filha, estava ele lá, fazendo-se presente. Comecei a juntá-lo com outro tema próximo: a Adoção. Tema este que me envolve há alguns anos, pessoal e teóricamente.
O irmão: estamos falando de um tema que envolve algum tipo de proximi-dade, porém não se restringe à intimidade familiar. Tornou-se também evidente o quanto o arquétipo fraterno relaciona-se com questões, por assim dizer, sociais. Sim, estamos falando de irmãos, de irmandade, de comunidade – onde, apesar das diferenças, somos iguais. Onde buscamos pelas igualdades e sentimos dificuldades ou criamos com as diferenças.
O fraterno revela-se nas relações entre os irmãos de “sangue”, mas também entre os irmãos de “espécie” : somos todos humanos . Entre aqueles que se tornam irmãos por pertencerem a um mesmo grupo: ideológico, de classe ou condição so-cial. Temos associações de bancários, associações junguianas, partidos políticos , grupos terroristas, os cristãos, os judeus, enfim, os “iguais se buscam” – e neste encontro um caldeirão de emoções características às relações entre irmãos surgem: alegria pelas aventuras em conjunto,proteção mútua,competições, brigas, ciúmes e inveja.
Em nosso encontro falamos dos órfãos, dos abandonados e então proponho refletirmos sobre os adotivos, ou em sentido mais amplo, as adoções que em nos-sas vidas fazemos, inclusive a adoção de um partido, de uma pátria , novamente, a busca por uma irmandade.
Podemos refletir sobre a adoção em dois sentidos, misturando um ao outro:
A adoção em um sentido amplo, arquetípico: os seres humanos se adotam, ou não. Um marido adota a mulher; adotamos amigos, filhos ( mesmo os biológicos),ou não. Adotamos idéias, direções políticas, novas posturas de vida. Adotamos uma pátria.
Estou aqui pensando na etimologia da palavra adoção = ad +optare. Ad= aproximação no tempo e no espaço e optare= opção. Daí ser a adoção uma opção por aproximação.Portanto, quando optamos por estar próximos de alguém ou de algo , a adoção entra em jogo.
Uma outra forma de olharmos para a adoção seria em sentido mais concreto,
como uma das formas de se ter filhos, de sermos ou termos pais. Onde a opção está ou torna-se evidente, onde opta-se por deixar de lado laços sanguíneos e outros laços entram em cena.
Na adoção de um filho, por exemplo, a função fraternal faz-se evidente . So-mos “forçados” a uma conscientização da singularidade do outro – a “falácia pa-rental” como diz Hillman[2], o acreditar que nossos filhos apenas nos reproduzem,o acreditar que aquilo que eles são é devido aos pais, cai por terra. Sabe-se de ante-mão que este filho terá suas características, no mínimo,físicas. O respeito por suas especificidades é tácito : somos diferentes,com histórias singulares mas iremos ficar juntos para sempre, traçaremos uma história comum à nós.
Quando estamos em grupo, juntos por uma causa comum, também as diferen-ças ficam suspensas em função daquilo que nos une e é comum. Assim como, em grupo, às vezes as diferenças se revelam, são as brigas, as competições e também oportunidades criativas, de com o outro aprendermos. Pais e filhos biológicos também possuem as suas diferenças, na adoção estas se tornam mais evidentes e a aceitação destas torna-se condição sine qua non para que o processo “dê certo”.
Separei duas “citações” que gostaria de compartilhar: a primeira, de um livro infantil e a segunda, de um livro sobre adoção.
É o conto de Stellaluna[3], uma morceguinha que, ao perder-se da mãe quan-
do esta lutava com outro pássaro, cai em um ninho de passarinhos(Flipe, Flape e Flope) e passa a conviver com eles. Eles a “adotam” e assim ,apesar de grandes diferenças (ela passa a comer insetos, dormir de cabeça para cima, não voar à noite), vivem juntos. Até ela reencontrar a mãe e levá-los para conhecer a vida dos morcegos. O que diz respeito ao nosso tema é o seguinte diálogo entre Stellaluna e os passarinhos:
“- Como podemos ser tão diferentes e nos sentirmos tão iguais? – perguntou Flipe,pensativo.
- E como podemos ser tão diferentes e sermos tão iguais? – espantou-se Flope.
- Acho que isso é um grande mistério. – piou Flape.
- Concordo – respondeu Stellaluna – mas somos amigos e isso é um fato.”
A outra citação vem de um livro sobre adoção[4], dois volumes com vários textos e o que cito é sobre adoção e fraternidade:
“No mergulho do homem em suas águas mais silenciadas, o que vêm à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o espírito humano atenta mais facilmente nas diferenças que nas semelhanças, esquecendo-se que o particular e o universal coincidem.[...][5]”
Nas adoções somos envolvidos com a “causa” da fraternidade, com o mistério de “sermos tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo”, como diz o passarinho do livro infantil. Com a vontade de juntos estarmos e sermos diferentes. Temos históri-
as e raízes diferentes mas sentimos que “fomos feitos um para o outro”- o amor en-
trou em cena, mistérios da vida.
A palavra “mistério”, nos reporta à segunda citação, onde chegamos à conclu-são de que a direção horizontal,a da singularidade, a da diferença, do respeito pelo outro como o outro é, nos encaminha para a direção vertical, a da pluralidade, a da semelhança,onde somos todos um, todos irmãos. Aos mistérios de nossa existência,
aos mistérios do amor, das uniões ou separações entre as pessoas; às fantasias sobre nossas origens não mais em um sentido pessoal. Somos mais objetos que sujeitos, de alguma forma não traçamos completamente nossos destinos, nossos encontros.
Pois, quando temos um filho adotivo, temos a certeza de que ele foi feito para nós; não importando a diferença, seja “genética” e todas os seus possíveis desdo-bramentos , seja seu nascimento à partir de outra pessoa . Aliás, a genética é cons-tantemente levantada como fator supostamente impeditivo , mas sempre digo: quem diz que a sua genética é melhor que a do outro? Por que a semelhança precisa ser física?
Portanto, para adotarmos, faz-se necessário uma abertura tanto para a horizon-talidade quanto a verticalidade de nossas relações.A horizontalidade pede um res-peito à diferença. E, a verticalidade, um olhar que não olvide a igualdade, como diz a citação. Afinal, os pais que adotam também já sentiram-se abandonados, também serão adotados.
Nas singularidades, na difícil e extremamente apaixonante e criativa convivên-cia entre as diferenças está, ou podemos encontrar, a grande igualdade humana.
Penso a esse respeito em todas as adoções em nossas vidas. Todas as vezes que
“optamos por uma aproximação” seja de nossos companheiros, filhos, amigos, pais,
teorias, países, as diferenças estão urgindo por aceitação, por espaço e, então, a se-melhança, o fato de sermos todos irmãos começa a aparecer. Isso é fato , como diz Stellaluna no conto. Fato é que somos colocados perante algumas pessoas em nos-
sas vidas, de algumas nos aproximamos e outras abandonamos, ou somos abandona
dos.
Obviamente, na adoção de um filho, os arquétipos materno e paterno são cen-
trais, tal qual uma relação biológica de pais e filhos. Porém, o arquétipo fraterno pode proporcionar um olhar de aceitação e admiração para com as diferenças/sin-
gularidades e uma abertura para os mistérios de nossos destinos de irmãos : somos
todos iguais e subordinados a algo maior , em nossos encontros ou desencontros
vivemos a experiência de sermos juntos colocados ou não.
Podemos estar em relação fraterna com : nossos filhos, nossos pais, nossos irmãos, nossos pacientes ; ou não. Até porque, não é e nem poderia ser este ,o único padrão arquetípico; outros entram em cena, outros a este se misturam.
[1] Primeiro Encontro dos Amigos da Psicologia Arquetípica. Sítio Pedra Grande, São Francisco Xavier, SP. Junho 2001.
[2] em “O Código do Ser”.
[3] CANNON,Janelle. Stellaluna.
[4] FREIRE,Fernando. org. Abandono e Adoção, contribuições para uma cultura da adoção.
[5] ANDRADE,E. Fraternidade e Afeto.
As Implicações geradas da expectativa de um casamento feliz
O casamento, apesar das várias transformações culturais e psicológicas da sociedade contemporânea, é um momento desejado por muitos... As mulheres em especial, costumam nutrir a fantasia de um encontro com um “príncipe encantado” que as desposará para viverem uma vida de contos de fada, em que serão “felizes para sempre”.
Essa idéia de que os casamentos constituem-se principalmente de felicidade é bastante complexa e gera expectativas que têm um forte peso no relacionamento do casal e no desenvolvimento psicológico dos cônjuges após as núpcias.
O que pode estar na base social e psicológica desse desejo e entusiasmo feminino por casar? Por que há uma idealização do casamento como um tempo de alegria e satisfação total de anseios? Objetivamos fazer algumas considerações acerca dessas questões, abordando possíveis implicações para a mulher que vivencia essa expectativa em seu caminho de individuação.
A sociedade patriarcal e as mulheres.Observamos em nossa sociedade patriarcal um movimento que prima pelo desenvolvimento exagerado de aspectos masculinos em detrimento dos femininos.
Assim, a objetividade, a percepção, o pensamento, a iniciativa e a luta heróica são extremamente valorizados.
Já a intuição, o sentimento, a sensibilidade, a criatividade, a receptividade e o esforço paciente são aspectos geralmente relegados a um segundo plano, sendo mal compreendidos e utilizados de modo inadequado ou tendencioso.
Com a negação de algumas facetas do feminino, as mulheres acumularam um prejuízo na percepção de “seu próprio núcleo pessoal de identidade, do valor e de um ponto de vista femininos” (Perera, 1985, p.21). Elas assumiram o papel que lhes foi dado, ou seja, adaptaram-se ao mundo dos homens, assimilando e desenvolvendo valores tipicamente masculinos.
Perera (1985, p.21) as chamou de ‘filhas do patriarcado’ e explicou que,“Isto se dá por se terem valorizado, em relação às mulheres ocidentais, virtudes que freqüentemente apenas se definem por sua relação com o masculino: a mãe e esposa fecunda e bondosa; a filha agradável, dócil e delicada; a companheira diligente, discretamente encorajadora ou brilhante”.Através da bandeira do Cristianismo, o patriarcado encontrou um meio de estigmatizar o feminino e encaixá-lo em padrões específicos.
A mulher cristã deve possuir as virtudes de Maria, a mãe de Jesus. E quais são esses atributos? Maria é obediente, pura e virginal, ou seja, é tão casta que concebeu sem o intercurso sexual, de modo imaculado.A mulher cristã, seguindo como pode o exemplo de Maria, só é autorizada à relação sexual com fins de reprodução da espécie, isto é, “o sexo é santificado se estiver a serviço da procriação, livre de desejos da carne e dentro de um clima de castidade” (Cavalcante, 1993, p.105).
A maternidade, nessas condições, também é valorizada pelo patriarcado. A “mulher-Maria” é incapaz de lidar com aspectos do mundo prático e lógico, mostrando-se inábil para a competição do mundo masculino. Cavalcante (1993, p.106) alerta para o perigo das mulheres incorporarem totalmente essas características cultuadas por essa sociedade patriarcal:“Assumindo a identidade de um ser puro, frágil, desprotegido, incapaz de auto-suficiência, que precisa que o homem a ampare, a mulher cria para si mesma uma castração psíquica, que a alienará do mundo e a tornará realmente frágil e dependente, escondendo o seu real potencial”.
O valor da mulher é dado por sua submissão, ou não, a essa imagem fabricada de acordo com os desejos de controle patriarcal do feminino (Idem, 1993).
O casamento na sociedade patriarcalAssociado ao modelo cristão de mulher, está o modelo cristão da família feliz, composto por Maria, José e Jesus, sempre retratados sob uma áurea de harmonia, paz e amor mútuo (Guggenbhül-Craig, 1980).Constituir, através do casamento, essa família cristã feliz, é uma das missões que a mulher herdou do patriarcado. É seu dever sustentar seu casamento a qualquer preço, negando, se for necessário, o que lhe é importante. Muitas mulheres querem corresponder a essas expectativas da sociedade patriarcal em nome de uma ilusória e passageira sensação de bem-estar, segurança e aprovação. Por conta disso, vários casais aparentam ter um bom casamento, mas de fato, vivem uma paralisação do crescimento de um dos parceiros (ou de ambos) que se sacrifica, negligenciando seu próprio desenvolvimento em detrimento da demanda do outro (Idem, 1980).
Vargas (1989, p. 104), fala do quanto o vínculo conjugal pode estagnar a vida dos cônjuges quando mal conduzido:“Quando um cônjuge só se expressa em função do outro, se “explica” como reação ao outro, é sinal que o vínculo se distorceu para o lado da definição em função do outro e se tornou sufocante e paralisante e o casamento uma ‘não-vida’”.Todo ser humano caminha naturalmente em direção a uma individuação, processo de “manifestação, na vida, do potencial inato e congênito da pessoa” (Hall, 1992, p.62).
Esse movimento se dá através da busca de um indivíduo para achar seu próprio sentido e seu destino de vida. Essa busca é variada, mas sempre cheia de confrontos com sofrimentos e mortes simbólicas.
A idéia (re)produzida culturalmente de que o casamento é uma instituição feliz entra em choque com esses caminhos, pois não levam em consideração as necessidades de amadurecimento psíquico dos cônjuges (Guggenbhül-Craig, 1980).
O casamento tradicional, estruturado pelo patriarcado, que atribui papéis aos cônjuges sem considerar suas individualidades, deve ser criativamente renovado ou haverá “um risco de regressão caótica nos relacionamentos conjugais” (Vargas, 1986, p. 118). Um bom casamento não deve existir em função da manutenção do bem-estar, podendo ser entendido como um meio para a individuação.
No entanto, esse é só um dos meios para individuar, não sendo para todos. Segundo Guggenbhül-Craig (1980, p. 72),“Um casamento não é confortável e harmonioso; antes é um lugar de individuação onde uma pessoa entre em atrito consigo mesma e com um parceiro, choca-se com ele no amor e na rejeição e desta forma aprende a conhecer a si próprio, o mundo, bem e mal, as alturas e as profundezas”.
No casamento, a confrontação, regada de sofrimento, ódio, frustração, etc., é natural e saudável. A falta de oposições paralisa o desenvolvimento psicológico de cada um dos cônjuges e “pode reduzir a relação conjugal ao seu componente de amizade e solidariedade” (Vargas, 1989, p.106). Muitos casamentos não dão certo porque os casais, apegando-se à idéia de “bem-estar” conjugal como última ordem, reprimem e excluem suas características mais importantes e essenciais sem perceber que quanto mais conflitos existirem, mais interessante e fecundo se torna o caminho para o encontro consigo mesmo (Guggenbhül-Craig, 1980).
No anseio de cumprir o dever que lhes foi dado pela sociedade patriarcal, muitas mulheres se casam, sem que esse seja o seu real desejo. Por que não, em nome de seu próprio sentido, buscar outras possibilidades para individuar, de buscar a “salvação” que não no casamento?A mulher precisa ir ao encontro da sua identidade, buscando assim, separar os seus desejos da expectativa da sociedade.
Se quiser individuar através do casamento, precisa desfazer-se de suas fantasias de que depois da lua-de-mel, sua vida será maravilhosa e confrontar-se com a realidade de que ela é responsável pelo seu próprio caminhar e que encontrará muitos confrontos nesse percurso. Um aprofundamento da questão.
Ao tratar da questão do casamento, Jung (1981, p.195) lembra que, “Sempre que tratamos do relacionamento psíquico, pressupomos a consciência. Não existe nenhum relacionamento psíquico entre dois seres humanos se ambos se encontrarem em estado inconsciente”.Ele admite, no entanto, que há uma certa inconsciência parcial que não pode ser desconsiderada, pois é impossível se conhecer todo o inconsciente.
É certo que a quantidade de inconsciência de uma relação é inversamente proporcional ao relacionamento psíquico. É preciso ser consciente de si mesmo para poder distinguir-se do outro e, assim, relacionar-se com ele. Quanto maior for a extensão da inconsciência, mais a escolha do parceiro é influenciada pelas imagens arquetípicas internas do animus e da anima. Essas imagens são inconscientemente projetadas no parceiro por quem se apaixona de modo encantado, o que faz com que ele seja supervalorizado e sua realidade humana por detrás da projeção fique obscurecida (Sanford, 1987).
Esse “não é um sentimento maduro de respeito e de admiração pelo outro; pelo contrário, ama-se um aspecto de si mesmo” (Qualls-Corbett, 1990, p.93).Quando uma mulher projeta em um homem seu animus, ocorre a paixão pelo parceiro ideal. Esse homem tem aparência de um Deus e a mulher, encantada, vai sendo seduzida por suas próprias fantasias românticas de que encontrou uma pessoa que vai realizar seus desejos, preencher seus anseios, proporcionar-lhe a verdadeira e infinita felicidade (Benedito, 1996).
No momento da paixão, tudo é felicidade e se espera que ela seja eterna (‘... e foram felizes para sempre’ dos contos de fada).Até quando uma pessoa puder corresponder a uma imagem projetada, não haverá propriamente um conflito. No entanto, esse estado idealizado e “lindo” precisa ser confrontado com a realidade e há que se realizar “a diferenciação entre a imagem interna e a pessoa externa” (Jung, 2003, p.25).
Ninguém pode concorrer com a magnitude dos deuses e, ver o parceiro como ele realmente é pode ser desinteressante e decepcionante (Sanford, 1987). Jung (2003, p.24) explica porque esse movimento ocorre:“Um arquétipo, tal como o é o animus, nunca coincide com uma pessoa individual, tanto menos quanto mais individual for a pessoa. Na verdade a individualidade é o contrário do arquétipo, pois o individual é exatamente aquilo que de alguma forma não é típico, e sim talvez a mistura única e original de traços típicos”.
Há uma dificuldade de renunciar à retirada da projeção da imagem arquetípica devido ao enorme tamanho do fascínio por ela proporcionado.
É por isso que as primeiras tentativas de resolver a questão são, geralmente, através de um esforço por enganar a si mesmo e fingir não ver o que está acontecendo (Jung, 2003), porém, para um casamento como caminho de individuação, é preciso maturidade para realizar o sacrifício da ilusão projetiva e, assim, tentar integrar seu animus à consciência. A partir de uma integração do animus é atenuado o controle do mesmo sobre a identidade feminina, havendo maior liberdade pessoal e uma empatia mais profunda com os outros (Young-Eisendrath, 1995). Quanto mais prática a mulher se tornar em uma relação ativa com seu animus, “mais efetivamente receptiva será a um homem verdadeiro quando assim o desejar” (Whitmont, 2002, p. 190).
Segundo Benedito (1996, p.24):“O desenvolvimento do vínculo conjugal dependerá da capacidade dos indivíduos de lidar com a frustração com que se deparam quando a imagem idealizada não corresponde mais ao comportamento do outro; e também dependerá da condição psicológica dos parceiros para reestruturarem o vínculo em bases mais reais”.
Em um casamento, findadas as expectativas inconscientes dos cônjuges, o animus pode funcionar criativamente, propiciando o desenvolvimento psicológico das personalidades do casal. Segundo Qualls-Corbett (1990, p.108), um matrimônio sagrado, a nível interpessoal ocorre quando:“Projeções da anima ou do animus não se manifestam; o outro é mais claramente visto e querido por aquilo que verdadeiramente é.
Experimenta-se a sensação de liberdade ao se explorar a profundidade do próprio e verdadeiro ser quando se está ligado a alguém a quem se ama, o que estimula o desenvolvimento e a criatividade”. A mulher que deseja viver um bom casamento deve desvencilhar-se da expectativa do casamento de contos de fada e vivê-lo como um meio de individuação. Para tanto, precisa se libertar externa e internamente.
Ela deve procurar outras possibilidades de vida que não a previamente dada pela sociedade patriarcal. Deve também, reconhecer e integrar aspectos de seu inconsciente, o que só será possível através de dolorosas renúncias das suas fantasias infantis. Esse movimento não acontecerá de uma única vez, mas permeará todo o período do matrimônio, pois o caminho de auto-conhecimento é infinito; é uma constante busca...
Essa idéia de que os casamentos constituem-se principalmente de felicidade é bastante complexa e gera expectativas que têm um forte peso no relacionamento do casal e no desenvolvimento psicológico dos cônjuges após as núpcias.
O que pode estar na base social e psicológica desse desejo e entusiasmo feminino por casar? Por que há uma idealização do casamento como um tempo de alegria e satisfação total de anseios? Objetivamos fazer algumas considerações acerca dessas questões, abordando possíveis implicações para a mulher que vivencia essa expectativa em seu caminho de individuação.
A sociedade patriarcal e as mulheres.Observamos em nossa sociedade patriarcal um movimento que prima pelo desenvolvimento exagerado de aspectos masculinos em detrimento dos femininos.
Assim, a objetividade, a percepção, o pensamento, a iniciativa e a luta heróica são extremamente valorizados.
Já a intuição, o sentimento, a sensibilidade, a criatividade, a receptividade e o esforço paciente são aspectos geralmente relegados a um segundo plano, sendo mal compreendidos e utilizados de modo inadequado ou tendencioso.
Com a negação de algumas facetas do feminino, as mulheres acumularam um prejuízo na percepção de “seu próprio núcleo pessoal de identidade, do valor e de um ponto de vista femininos” (Perera, 1985, p.21). Elas assumiram o papel que lhes foi dado, ou seja, adaptaram-se ao mundo dos homens, assimilando e desenvolvendo valores tipicamente masculinos.
Perera (1985, p.21) as chamou de ‘filhas do patriarcado’ e explicou que,“Isto se dá por se terem valorizado, em relação às mulheres ocidentais, virtudes que freqüentemente apenas se definem por sua relação com o masculino: a mãe e esposa fecunda e bondosa; a filha agradável, dócil e delicada; a companheira diligente, discretamente encorajadora ou brilhante”.Através da bandeira do Cristianismo, o patriarcado encontrou um meio de estigmatizar o feminino e encaixá-lo em padrões específicos.
A mulher cristã deve possuir as virtudes de Maria, a mãe de Jesus. E quais são esses atributos? Maria é obediente, pura e virginal, ou seja, é tão casta que concebeu sem o intercurso sexual, de modo imaculado.A mulher cristã, seguindo como pode o exemplo de Maria, só é autorizada à relação sexual com fins de reprodução da espécie, isto é, “o sexo é santificado se estiver a serviço da procriação, livre de desejos da carne e dentro de um clima de castidade” (Cavalcante, 1993, p.105).
A maternidade, nessas condições, também é valorizada pelo patriarcado. A “mulher-Maria” é incapaz de lidar com aspectos do mundo prático e lógico, mostrando-se inábil para a competição do mundo masculino. Cavalcante (1993, p.106) alerta para o perigo das mulheres incorporarem totalmente essas características cultuadas por essa sociedade patriarcal:“Assumindo a identidade de um ser puro, frágil, desprotegido, incapaz de auto-suficiência, que precisa que o homem a ampare, a mulher cria para si mesma uma castração psíquica, que a alienará do mundo e a tornará realmente frágil e dependente, escondendo o seu real potencial”.
O valor da mulher é dado por sua submissão, ou não, a essa imagem fabricada de acordo com os desejos de controle patriarcal do feminino (Idem, 1993).
O casamento na sociedade patriarcalAssociado ao modelo cristão de mulher, está o modelo cristão da família feliz, composto por Maria, José e Jesus, sempre retratados sob uma áurea de harmonia, paz e amor mútuo (Guggenbhül-Craig, 1980).Constituir, através do casamento, essa família cristã feliz, é uma das missões que a mulher herdou do patriarcado. É seu dever sustentar seu casamento a qualquer preço, negando, se for necessário, o que lhe é importante. Muitas mulheres querem corresponder a essas expectativas da sociedade patriarcal em nome de uma ilusória e passageira sensação de bem-estar, segurança e aprovação. Por conta disso, vários casais aparentam ter um bom casamento, mas de fato, vivem uma paralisação do crescimento de um dos parceiros (ou de ambos) que se sacrifica, negligenciando seu próprio desenvolvimento em detrimento da demanda do outro (Idem, 1980).
Vargas (1989, p. 104), fala do quanto o vínculo conjugal pode estagnar a vida dos cônjuges quando mal conduzido:“Quando um cônjuge só se expressa em função do outro, se “explica” como reação ao outro, é sinal que o vínculo se distorceu para o lado da definição em função do outro e se tornou sufocante e paralisante e o casamento uma ‘não-vida’”.Todo ser humano caminha naturalmente em direção a uma individuação, processo de “manifestação, na vida, do potencial inato e congênito da pessoa” (Hall, 1992, p.62).
Esse movimento se dá através da busca de um indivíduo para achar seu próprio sentido e seu destino de vida. Essa busca é variada, mas sempre cheia de confrontos com sofrimentos e mortes simbólicas.
A idéia (re)produzida culturalmente de que o casamento é uma instituição feliz entra em choque com esses caminhos, pois não levam em consideração as necessidades de amadurecimento psíquico dos cônjuges (Guggenbhül-Craig, 1980).
O casamento tradicional, estruturado pelo patriarcado, que atribui papéis aos cônjuges sem considerar suas individualidades, deve ser criativamente renovado ou haverá “um risco de regressão caótica nos relacionamentos conjugais” (Vargas, 1986, p. 118). Um bom casamento não deve existir em função da manutenção do bem-estar, podendo ser entendido como um meio para a individuação.
No entanto, esse é só um dos meios para individuar, não sendo para todos. Segundo Guggenbhül-Craig (1980, p. 72),“Um casamento não é confortável e harmonioso; antes é um lugar de individuação onde uma pessoa entre em atrito consigo mesma e com um parceiro, choca-se com ele no amor e na rejeição e desta forma aprende a conhecer a si próprio, o mundo, bem e mal, as alturas e as profundezas”.
No casamento, a confrontação, regada de sofrimento, ódio, frustração, etc., é natural e saudável. A falta de oposições paralisa o desenvolvimento psicológico de cada um dos cônjuges e “pode reduzir a relação conjugal ao seu componente de amizade e solidariedade” (Vargas, 1989, p.106). Muitos casamentos não dão certo porque os casais, apegando-se à idéia de “bem-estar” conjugal como última ordem, reprimem e excluem suas características mais importantes e essenciais sem perceber que quanto mais conflitos existirem, mais interessante e fecundo se torna o caminho para o encontro consigo mesmo (Guggenbhül-Craig, 1980).
No anseio de cumprir o dever que lhes foi dado pela sociedade patriarcal, muitas mulheres se casam, sem que esse seja o seu real desejo. Por que não, em nome de seu próprio sentido, buscar outras possibilidades para individuar, de buscar a “salvação” que não no casamento?A mulher precisa ir ao encontro da sua identidade, buscando assim, separar os seus desejos da expectativa da sociedade.
Se quiser individuar através do casamento, precisa desfazer-se de suas fantasias de que depois da lua-de-mel, sua vida será maravilhosa e confrontar-se com a realidade de que ela é responsável pelo seu próprio caminhar e que encontrará muitos confrontos nesse percurso. Um aprofundamento da questão.
Ao tratar da questão do casamento, Jung (1981, p.195) lembra que, “Sempre que tratamos do relacionamento psíquico, pressupomos a consciência. Não existe nenhum relacionamento psíquico entre dois seres humanos se ambos se encontrarem em estado inconsciente”.Ele admite, no entanto, que há uma certa inconsciência parcial que não pode ser desconsiderada, pois é impossível se conhecer todo o inconsciente.
É certo que a quantidade de inconsciência de uma relação é inversamente proporcional ao relacionamento psíquico. É preciso ser consciente de si mesmo para poder distinguir-se do outro e, assim, relacionar-se com ele. Quanto maior for a extensão da inconsciência, mais a escolha do parceiro é influenciada pelas imagens arquetípicas internas do animus e da anima. Essas imagens são inconscientemente projetadas no parceiro por quem se apaixona de modo encantado, o que faz com que ele seja supervalorizado e sua realidade humana por detrás da projeção fique obscurecida (Sanford, 1987).
Esse “não é um sentimento maduro de respeito e de admiração pelo outro; pelo contrário, ama-se um aspecto de si mesmo” (Qualls-Corbett, 1990, p.93).Quando uma mulher projeta em um homem seu animus, ocorre a paixão pelo parceiro ideal. Esse homem tem aparência de um Deus e a mulher, encantada, vai sendo seduzida por suas próprias fantasias românticas de que encontrou uma pessoa que vai realizar seus desejos, preencher seus anseios, proporcionar-lhe a verdadeira e infinita felicidade (Benedito, 1996).
No momento da paixão, tudo é felicidade e se espera que ela seja eterna (‘... e foram felizes para sempre’ dos contos de fada).Até quando uma pessoa puder corresponder a uma imagem projetada, não haverá propriamente um conflito. No entanto, esse estado idealizado e “lindo” precisa ser confrontado com a realidade e há que se realizar “a diferenciação entre a imagem interna e a pessoa externa” (Jung, 2003, p.25).
Ninguém pode concorrer com a magnitude dos deuses e, ver o parceiro como ele realmente é pode ser desinteressante e decepcionante (Sanford, 1987). Jung (2003, p.24) explica porque esse movimento ocorre:“Um arquétipo, tal como o é o animus, nunca coincide com uma pessoa individual, tanto menos quanto mais individual for a pessoa. Na verdade a individualidade é o contrário do arquétipo, pois o individual é exatamente aquilo que de alguma forma não é típico, e sim talvez a mistura única e original de traços típicos”.
Há uma dificuldade de renunciar à retirada da projeção da imagem arquetípica devido ao enorme tamanho do fascínio por ela proporcionado.
É por isso que as primeiras tentativas de resolver a questão são, geralmente, através de um esforço por enganar a si mesmo e fingir não ver o que está acontecendo (Jung, 2003), porém, para um casamento como caminho de individuação, é preciso maturidade para realizar o sacrifício da ilusão projetiva e, assim, tentar integrar seu animus à consciência. A partir de uma integração do animus é atenuado o controle do mesmo sobre a identidade feminina, havendo maior liberdade pessoal e uma empatia mais profunda com os outros (Young-Eisendrath, 1995). Quanto mais prática a mulher se tornar em uma relação ativa com seu animus, “mais efetivamente receptiva será a um homem verdadeiro quando assim o desejar” (Whitmont, 2002, p. 190).
Segundo Benedito (1996, p.24):“O desenvolvimento do vínculo conjugal dependerá da capacidade dos indivíduos de lidar com a frustração com que se deparam quando a imagem idealizada não corresponde mais ao comportamento do outro; e também dependerá da condição psicológica dos parceiros para reestruturarem o vínculo em bases mais reais”.
Em um casamento, findadas as expectativas inconscientes dos cônjuges, o animus pode funcionar criativamente, propiciando o desenvolvimento psicológico das personalidades do casal. Segundo Qualls-Corbett (1990, p.108), um matrimônio sagrado, a nível interpessoal ocorre quando:“Projeções da anima ou do animus não se manifestam; o outro é mais claramente visto e querido por aquilo que verdadeiramente é.
Experimenta-se a sensação de liberdade ao se explorar a profundidade do próprio e verdadeiro ser quando se está ligado a alguém a quem se ama, o que estimula o desenvolvimento e a criatividade”. A mulher que deseja viver um bom casamento deve desvencilhar-se da expectativa do casamento de contos de fada e vivê-lo como um meio de individuação. Para tanto, precisa se libertar externa e internamente.
Ela deve procurar outras possibilidades de vida que não a previamente dada pela sociedade patriarcal. Deve também, reconhecer e integrar aspectos de seu inconsciente, o que só será possível através de dolorosas renúncias das suas fantasias infantis. Esse movimento não acontecerá de uma única vez, mas permeará todo o período do matrimônio, pois o caminho de auto-conhecimento é infinito; é uma constante busca...
O Chamado
Quem nunca se deparou com aquela “vozinha interior” ou sensação que parece mostrar um caminho ou nos pôr diante de uma situação de escolha, seja ela decisiva para nossa vida ou algo simples e sem grandes conseqüências.
Em diferentes momentos da vida nos deparamos com desejos, anseios e necessidades pessoais ou coletivas que nos questionam e nos colocam frente a tomadas de decisão.
Algumas vezes nem sabemos explicar o porquê de querermos ou cedermos a tais impulsos que se apresentam a nós. Podemos responder conscientemente ou mesmo só nos darmos conta depois de já termos iniciado um caminho, como quem “tropeça” em algo e acaba sendo levado por uma nova ou transformada trajetória.
O que instigou a reflexão acerca deste tema foram questionamentos que envolviam um chamado (“atendido”) a uma vocação religiosa e a recorrente sensação de não estar em conexão consigo mesmo, ou dúvidas quanto a isto.
Esta inquietação me foi manifestada por pessoas com as quais tive convivência e que estavam inseridas em comunidades cristãs. Segundo elas, escutaram um chamado divino para a vocação a qual abraçaram, com a convicção de seguir o plano de Deus para suas vidas.
No entanto, psicologicamente, ainda clamava dentro de suas almas o desejo de plenitude e de identidade (como busca e descoberta de si mesmo).
Na verdade, em algum momento (ou talvez em mais de um), a dúvida faz parte do caminho vocacional.
“A missão individual está sempre abalada por incertezas, o seu caminho se faz às escuras e a recompensa não aparece tão cedo” (HILLMAN, 2004, p.48).
Não obstante, aqueles que temem a Deus vêem momentos como este como também fazendo parte dos desígnios divinos e que em seguida virá a bonança.
Sabem que, como nos diz o teólogo Oliveira, “todo autêntico caminho vocacional deve necessariamente passar pela experiência da cruz, a fim de desabrochar na grande manhã da ressurreição” (2006, p.54).
O problema seria permanecer neste estágio de perturbação e simplesmente aguardar o dia da reviravolta, a qual poderia ou não acontecer conforme o esperado. O anseio manifestado pela inquietação em relação ao caminho que está sendo seguido, revela algo que precisa ser feito ou refletido.
Mesmo que esta providência seja “apenas” entrar em contato com Deus, como um pedido de revelação ou de livramento – “Na tribulação invoquei o Senhor; ouviu-me o Senhor e me livrou” (Sl 117,5).
E é justamente acerca deste contato com o divino que, nesta oportunidade, o chamado parece aludir. Mas antes, pensemos nalgumas considerações sobre o que seria este chamado e a que ele se propõe.Partindo do conceito mais básico, o termo chamado, particípio de chamar, designa aquilo que (ou a quem) se chamou; convocado, invocado.
É o mesmo que chamada, chamamento, convite, convocação (WEISZFLOG et al., 1975). Mitologicamente, considerando o chamado da aventura pelo qual em sua jornada o herói é atraído, Campbell (1994, p.61) define que “pequeno ou grande, e pouco importando o estágio ou grau da vida, o chamado sempre descerra as cortinas de um mistério de transfiguração – um ritual, ou momento de passagem espiritual que, quando completo, equivale a uma morte seguida de um nascimento”.
Portanto, assim como todo momento de separação e renascimento, a percepção de um chamado, um limiar a ser atravessado, gera ansiedade. Podemos supor a equivalência disto a quando nos encontramos diante da necessidade de uma escolha, que supõe abandonar/sacrificar uma alternativa e seguir pela opção feita.
Campbell (1994, p.60) relata que a aventura, o chamado para esta, pode começar a partir de um erro, mero acaso que na verdade tem nascente inesperada e profunda, na alma, e que isto “pode equivaler ao ato inicial de um destino”.
Ele ilustra esta idéia com um trecho da história O Rei Sapo (dos irmãos Grimm), no qual a princesinha que brincava com sua bola dourada a deixou escapulir, acabando por rolar para dentro da água.
Foi daí que surgiu um sapo que, após um acordo de troca de interesses, concordou em buscar a bola para a princesinha. Em seguida a isto, o sapo passou a cobrar sua parte do acordo e a fazer parte da vida da princesa (CAMPBELL, 1994, p.59-60).
Da mesma forma, podemos ter o olhar atraído a algo que, de súbito, passa por nós durante um momento de “distração” e desperta nossa atenção, assim como o que ocorreu com Alice, aquela que se aventurou no País das Maravilhas.
Entediada e perto da irmã que lia um livro desinteressante, Alice avistou um coelho com olhos cor-de-rosa que passou correndo perto dela. Quando ele “tirou um relógio do bolso do colete, e olhou para ele, apressando-se a seguir, Alice pôs-se em pé e lhe passou a idéia pela mente como um relâmpago, que ela nunca vira antes um coelho com um bolso no colete e menos ainda com um relógio para tirar dele. Ardendo de curiosidade, ela correu pelo campo atrás dele, a tempo de vê-lo saltar para dentro de uma grande toca de coelho embaixo da cerca. No mesmo instante, Alice entrou atrás dele, sem pensar como faria para sair dali” (CARROLL, 2002).
Uma outra possibilidade de se ter um chamado revelado, para iniciar um novo caminho, é a aparição de um “anjo”, enviado por Deus. Como aconteceu com Maria (Lc 1,26-38) que foi visitada pelo Anjo Gabriel, o mesmo que aparecera meses antes a Zacarias, esposo de Isabel, e que se revelou: “Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado para te falar e te trazer esta feliz nova” (Lc 1,19).
Por esta mesma experiência, passou Moisés, ao ser convocado por Deus a, em missão, libertar o povo do Egito. Ele apascentava o rebanho de seu sogro e conduzira os animais para além do deserto, “até a montanha de Deus, Horeb. O anjo do Senhor apareceu-lhe numa chama (que saía) do meio duma sarça. Moisés olhava: a sarça ardia, mas não se consumia. ‘Vou voltar, disse ele consigo, para contemplar esse extraordinário espetáculo, e saber porque a sarça não se consome’. Vendo o Senhor que ele se voltou para ver, chamou-o do meio da sarça: ‘Moisés, Moisés!’ – ‘Eis-me aqui!’ respondeu ele. E Deus: ‘Não te aproximes daqui. Tira as sandálias dos teus pés, porque o lugar em que te encontras é uma terra santa’ (Ex 3,1-5).
Independente de como somos atraídos para o “chamado”, o mensageiro nos anuncia um despertar, uma possibilidade, um caminho a ser seguido, algo com o qual precisamos nos conectar. Como mencionado acima, trata-se aqui de um chamamento divino para algo que está sob os domínios ou desígnios de Deus. “Deus chama para um encontro com Ele” (OLIVEIRA, 2006, p. 63). É importante, pois, entendermos a representação deste divino para a psicologia analítica.
Em sua obra Resposta a Jó, Jung (1986, p.106) afirma que considera a psique como uma realidade e que é “só por meio da psique que podemos constatar que a divindade age em nós; dessa forma somos incapazes de distinguir se essas atuações provêm de Deus ou do inconsciente (...). A imagem de Deus não coincide propriamente com o inconsciente em si, mas com um conteúdo particular deste último, com o arquétipo do si-mesmo.
Este último já não podemos separar, empiricamente, da imagem de Deus. (...) A fé tem razão, quando faz o homem ver e sentir no mais profundo de si mesmo a imensidão e inacessibilidade de Deus; mas ela também nos ensina a proximidade, e mesmo a imediata presença de Deus. (...) Só posso conhecer como verdadeiro aquilo que atua em mim” (idem, 1986, p.111).
Nosso contato pessoal com Deus se dá em nosso interior através da imagem de Deus construída por nós, independente de acreditarmos num Deus transcendente ou de crermos num dogma específico.
É esse Deus-imagem de cada um que existe psicologicamente, uma “imagem de Deus enquanto coisa conhecida, experimentada, sentida, intuída, representada ou formulada por uma pessoa. Esse Deus é inicialmente uma experiência, e só a seguir um conceito.
Essa imagem ou experiência não é única, e nem sempre a mesma. Ela sofre transformações ao longo da vida de qualquer indivíduo, diferindo ainda largamente de uma pessoa para outra” (HILLMAN, 2004, p.39).Dyer (2003, p.53) afirma que Jung “escreveu que Deus é um nome apropriado dado a todas as emoções dominantes em seu próprio sistema psíquico, subjugando sua vontade consciente e usurpando seu autocontrole”.
Portanto, diante de um chamado divino, podemos ser tomados por tal força que nos arrebata. Ainda Dyer (2003, p.53-54), relata uma carta de Jung endereçada a um ministro protestante suíço em 1952 na qual afirma que “o homem vive inteiramente quando, e apenas quando, ele se relaciona com Deus, com aquele que dirige seus passos e determina seu destino”. Deus sabe o que nós precisamos e a que somos destinados.
Logo, “o apelo divino não cai em terreno neutro. Por isso é indispensável entender o chamado divino como proposta de um desenvolvimento integral da pessoa humana” (OLIVEIRA, 2006, p.68).Assim, sendo Deus uma realidade psíquica de cada um de nós e o chamado que nos é feito um apelo divino, podemos presumir que se trata de um chamado provindo de nosso próprio interior, das profundezas de nossa alma.
Se ouvimos tais “chamados”, a partir deles fazemos as escolhas que determinam nossas vidas. No entanto, a recusa de um chamado, o que pode ser uma afronta, lança-nos a um infortúnio e falta de sentido. Além disso, pode nos fazer ver a ira de Deus, “pois os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis” (Rm 11,29).“Uma vez que recusastes o meu chamado e ninguém prestou atenção quando estendi a mão, uma vez que negligenciastes todos os meus conselhos e não destes ouvidos às minhas admoestações, também eu me rirei do vosso infortúnio e zombarei, quando vos sobrevier um terror, quando vier sobre vós um pânico, como furacão, quando se abater sobre vós a calamidade, como a tempestade, e quando caírem sobre vós tribulação e angústia.
Então me chamarão, mas não responderei, procurar-me-ão, mas não atenderei. Aquele que me escuta, porém, habitará com segurança, viverá tranqüilo, sem recear dano algum” (Pr 1,24-28,33).Quanto à negação do chamado, Campbell (1994, p.67) comenta que “os mitos e contos de fada deixam claro que a recusa é essencialmente uma recusa a renunciar àquilo que a pessoa considera interesse próprio”.
No entanto, “nem todos os que hesitam se perdem. A psique reserva muitos segredos, que só são revelados quando necessário. E assim, às vezes, o castigo que se segue a uma recusa obstinada ao chamado mostra ser a ocasião da providencial revelação de um princípio insuspeitado de liberação” (idem, 1994, p. 70).Dentre os chamados os quais nos são feitos, escutamos também a voz interior que nos propõe uma vocação. A palavra vocação, do latim vocatione, significa ato ou efeito de chamar.
Da teologia, extrai-se que é chamamento, eleição, escolha, predestinação. Também pode ser dita como uma inclinação para o sacerdócio ou para a vida religiosa. Por outro parâmetro, é inclinação, propensão, tendência para qualquer estado, ofício, profissão. Talento. É uma disposição natural do espírito; índole (WEISZFLOG et al., 1975). Decidimos nossa vocação, seja por talento, predestinação, opção ou busca pela totalidade e salvação divina, a partir do chamado que ouvimos.Comentando sobre necessidade e vocação, e fazendo sua distinção, Hillman (2004, p.13) afirma que “o chamado ou vocação tende muito mais a ser experimentado como coisa vinda de fora da personalidade, enquanto as necessidades são mais encaradas como coisas minhas e vindas de dentro”.
De onde, então, vem o chamado à vocação, já que o experimentamos como vindo de fora?“Levantai os olhos para o céu e olhai. Quem criou todos esses astros? Aquele que faz marchar o exército completo, e a todos chama pelo nome, o qual é tão rico de força e dotado de poder, que ninguém falta ao seu chamado. Por que dizer-te então, ó Jacó, por que repetir, ó Israel: ‘Escapa meu destino ao Senhor, passa meu direito despercebido a meu Deus?’” (Is 40,26-27).Somos destinados a algo.
E destino, de destinar, significa o encadeamento de fatos supostamente fatais; fatalidade. Circunstância de ser favorável ou adversa às pessoas ou coisas, esta suposta maneira de ocorrerem os fatos. Fado, sorte. Objetivo, fim para que se reserva ou destina alguma coisa. Entidade misteriosa que determina as vicissitudes da vida. (WEISZFLOG et al., 1975). Um sentido de destino é “o sentido de que, de alguma forma, estaríamos predestinados. Estar predestinado implica a existência de uma força transcendente que chama, escolhe ou expressa alguma coisa através de nós, uma força que dá significação” (HILLMAN, 2004, p.69).
Pensar em vocação como algo que nos foi predestinado, pode nos soar como aspecto fora de nosso controle e como se não fossemos responsáveis por nossas vidas. Entrevistando James Hillman, Elisa Byington (1999) o indagou acerca disto, ao que ele respondeu: “Acho que a distinção entre fado (sina, destino) e fatalismo pode ajudar a compreender. Fatalismo é acreditar no fado. (...) O fado é a percepção de que há algo a mais no mundo que afeta a minha vida. Fatalismo é, como todos os "ismos", uma coisa mais fácil: ‘Não posso fazer de outro modo.
O destino assim quis’. São sentimentos muito diferentes, ainda que sejam próximos.
O fado faz você refletir sobre a sua vida. O fatalismo diz que você não tem nenhum controle sobre ela”.Não estamos, pois, submetidos a um fatalismo: “sistema dos que consideram todos os acontecimentos como irrevogavelmente fixados de antemão por uma causa única e sobrenatural” (WEISZFLOG et al., 1975).
Estamos, sim diante da “providência”, da “ordem das coisas”, característica do fado (idem, 1975).Citando Platão, quanto ao mito de Er exposto no final da República, Hillman (BYINGTON, 1999) comenta que ele “diz que a alma de cada um de nós escolhe uma imagem ou desenho que depois será vivido aqui na Terra.
Nossa ligação com aquele desenho original é um companheiro chamado daimon, o nosso destino”.Nosso daimon, portanto, “é um guia único, diferente de todos os outros”, ele quer que nós façamos alguma coisa, que nos definamos enquanto pessoa. Ele “dá um sentido para estarmos vivos”, assim diz Hillman (BYINGTON, 1999).
Além disso, o daimon nos “é dado, mas não de um modo absoluto. É sempre você. É o daimon, mas é você. A vida é essa relação.
A forma como você vive define esse algo que está em você” (idem, 1999). Nosso daimon é interior e nos orienta, mas nós é que definimos a ele mesmo, que está dentro de nós.A vocação, desse modo, é a essência de uma vida. E ela nos leva a um determinado destino.
Sendo assim, “negar uma vocação seria negar a essência de uma pessoa” (HILLMAN, 2004 p.13). Desde o nosso nascimento somos marcados pelo que há de se desenvolver em nossas vidas. Podemos entender “vocação ou chamado para ser o que eu sou, constituindo parte da realização da minha própria personalidade” (idem, 2004, p. 25).
Sendo assim, “todo ser humano é vocacionado, em primeiro lugar, para aquela vocação natural: o chamado à existência. (...) Mas essa vocação só se realiza plenamente quando o homem e a mulher (...) entram em comunhão com Deus” (OLIVEIRA, 2006, p.12).
Portanto, “a vocação passa a ser entendida como relacionamento pessoal com Deus” (idem, 2006, p.63).Se nossa vocação, a essência de nossa vida, só se realiza inteiramente em comunhão com Deus e o chamado divino nos lança justamente a buscá-la, temos então, um caminho de mão dupla, ou circular, e, fundamentalmente, de encontro.
Encontro consigo mesmo, descoberta de quem somos, uma experiência religiosa, de conexão interior. “A palavra vocação está relacionada com algo ainda mais profundo e essencial – a ligação com Deus ou com os deuses, ou seja, com as forças que se manifestam dentro da psique” (VON FRANZ, 1999, p.298); a ligação com o nosso Si-mesmo, nossa imagem de Deus.“A vocação é, pois, uma sedução (Jr 20,7), uma ‘conquista do coração’ (Os 2,16) por parte de Deus, para uma vida de intimidade, de comunhão com Ele.
É um convite para ficar com Ele, para participar da sua vida” (OLIVEIRA, 2006, p.63).É um ponto interessante para pararmos e refletirmos: estará a vocação que “escolhemos”, ou que definimos dentro de nós, em conexão interior e viva em nossa psique? Aqui pensamos inclusive em missão, como atuação no mundo, ou até na profissão que exercemos porque a ela fomos atraídos por algum motivo.
Também podemos incluir na reflexão as vocações religiosas que, na perspectiva cristã, trata-se de assemelhar-se e seguir a Cristo, algo pessoal e, ao mesmo tempo, comunitário, porque a comunidade “é o lugar concreto da manifestação do chamamento divino” (OLIVEIRA, 2006, p.59).Segundo o teólogo Oliveira (2006, p.78), “missão” é o centro dos relatos bíblicos acerca de vocação.
Ele define missão como “a tarefa que Deus quer realizar através da pessoa que ele chamou e escolheu. Por essa razão, a missão determina a vocação, com todas as conseqüências que dela decorrem”. Para ele, então, a missão “é a essência de toda vocação, uma vez que é a concretização histórica de todo chamamento” (idem, 2006, p.77).
Se, como foi visto acima, a vocação é a essência de uma vida, e aqui, a missão é a essência da vocação, assim a dimensão missionária é inerente à nossa vida. “Toda vocação é para a missão” (OLIVEIRA, 2006, p.77), então, o que nos está predestinado e a forma como definimos isto em nossas vidas, requer também de nós a sua expressão e atuação no mundo.
É a nossa incumbência e, ainda, a delegação divina conferida num intuito religioso (WEISZFLOG et al., 1975). Para o teólogo (OLIVEIRA, 2006, p.63), “não pode haver encontro com Deus sem encontro com os irmãos e irmãs (...). Responder ao chamado é inserir-se na comunidade”.
“A Igreja é a assembléia dos chamados” (OLIVEIRA, 2006, p.5) e seu serviço de Animação Vocacional, aquele que faz uma “mediação do chamamento divino” (idem, p.9-10).Quanto a este ponto, pode-se desenvolver um problema. Se não pode haver encontro com Deus sem encontro com o outro (as pessoas), podemos cair no erro de buscar a Deus através destes outros.
Ou então, se para fazer parte da comunidade nos identificamos com a vocação desenvolvida por ela e seus membros, podemos assumir para nós “pseudovocações, geradas artificialmente, sem consistência, sem paixão, sem amor pelo povo, preocupadas apenas com o status quo e com os benefícios que a ‘profissão’ poderá trazer” (OLIVEIRA, 2006, p.74-75).
A vocação pode parecer sem sentido quando buscamos fora de nós o que deveríamos buscar nas profundezas de nossa alma. Se acontecer de buscarmos fora, não realizaremos uma conexão interior com nossa intimidade e tudo nos parecerá vazio de sentido. Se na vivência comunitária não conseguimos nos interiorizar, nos faltará algo.
Quando, em comunidades cristãs, por exemplo, uma pessoa busca Deus “fora”, ou seja, nas atividades desenvolvidas, nos contatos com as pessoas ou nos papéis que deve desempenhar, ela não terá a experiência religiosa, que é fundamentalmente interior.
A vida em comunidade não deve deixar de lado a intimidade. “Pela intimidade torno-me íntimo de mim mesmo em primeiro lugar, permitindo-me sentir o que realmente sinto, fantasiando o que de fato é a minha fantasia e ouvindo minha voz com fidelidade” (HILLMAN, 2004, p.37).
Na verdade, não é a comunidade que exige a uma pessoa a se adequar. A forma como a vivência comunitária é experienciada é que gera isto, pois pode não estar de acordo com os reais anseios da alma.
“Não se trata de um puro e simples assentimento a verdades abstratas, mas de um encontro pessoal” (OLIVEIRA, 2006, p.69).O trabalho de Oliveira (2006) é baseado no Concílio Vaticano II (1962-1965), a partir do qual “o tema da vocação passou a fazer parte da reflexão e da ação dos cristãos” (idem, 2006, p.5).
Assim, pelo que o autor delineia, há a compreensão, em relação à vivência vocacional comunitária, de que “cada pessoa viverá esse chamado de forma única, segundo os dons recebidos do Espírito de Deus” (idem, 2006, p.33).
E mais: “É totalmente legitimo que alguém viva o chamado à santidade de forma única, sem precisar copiar nada de uma outra, sem ser a fotocópia de um outro santo ou santa” (idem, 2006, p.32). E, aqui para a compreensão desejada, ser santo é, sumariamente, “responder ao apelo divino” (idem, 2006, p.27). Justamente porque “a pertença à Igreja não é garantia de santidade” (idem, 2006, p.41), precisamos estabelecer nosso contato interior e escutar nosso chamado, que é único.
“Portanto, todo itinerário vocacional é um olhar e uma reflexão sobre a experiência de vida e sobre o seu sentido último” (idem, 2006,81).Hillman (2004, p.41) comenta “um atributo qualificativo de alma: ela confere sentido, transforma acontecimentos em experiências, comunica-se pelo amor e tem uma implicação religiosa”. Se a alma “torna possível a existência de um sentido” (idem, 2004, p.66), o que podemos supor, portanto, se o que enxergamos é uma falta de sentido em nossa vida, em nossa vocação (que é essência da vida) e em nossa missão (que é essência de vocação e sua expressão no mundo)?“Os antropólogos descrevem uma condição que é denominada ‘perda da alma’ pelos povos primitivos. Quando isso acontece, a pessoa fica fora de si, incapaz de encontrar tanto a conexão interior consigo própria quanto a exterior com a humanidade. (...) Creio, juntamente com Jung, que cada um de nós é ‘o homem moderno em busca da sua alma’” (HILLMAN, 2004, p. 41-42).
Estamos constantemente em busca de nossa alma, de, com ela, darmos significado e sentido às nossas experiências e, conseqüentemente, estarmos em contato com o divino.Ainda Hillman (2004, p.45), afirma que “na verdade, hoje em dia, o problema de muitos religiosos é encontrar a conexão interior com a vocação, e depois mantê-la viva.
A ligação profunda e vertical, em nível interior da raiz arquetípica, parece estar truncada ou torcida e, naturalmente, o ministro busca fora daí a solução”. Precisamos viver plenitude de nosso próprio destino e permanecer fiel à vida (idem, 2004, p.45).
A ligação profunda e vertical é o que nos dará sentido, o caminho da alma para um encontro daquilo que é sagrado. Mas “não conseguiremos chegar à alma e à experiência de Deus a não ser que o façamos via inconsciente, o que significa, nada mais nada menos, que nos defrontarmos com pecados e males, e com todo o turbilhão de possibilidades que foram mantidas fora do alcance da civilização” (HILLMAN, 2004, p.50).
Não é um caminho fácil, mas somos chamados a enfrentá-lo.“O inconsciente é, portanto, a porta através da qual nós passamos para encontrar a alma. (...) Mas se formos procurar a alma no inconsciente, primeiro será preciso encontrar o inconsciente. (...) Não devemos estabelecer sua existência, nem tampouco a da alma, através de discussões, leituras ou qualquer outra prova direta.
Nós tropeçamos em sua realidade; quando menos se espera, tropeça-se na psique inconsciente” (HILLMAN, 2004, p.50).
Assim, tanto o é que nos damos, inesperadamente, de cara com aquele “mensageiro” enviado para chamar nossa atenção, como comentamos anteriormente, para nos fazer olhar a um caminho, para nos convidar a mergulhar em nossas profundezas.O chamado divino nos mostra algo com o qual precisamos nos conectar.
Nossa alma quer se dar a conhecer, nosso inconsciente quer ser explorado, algo que está sob os desígnios de Deus, de nosso Si-mesmo, quer se mostrar, por isso nos é feito o apelo ao chamado, para que possamos encontrar o sentido.
Quando nosso chamado ou nossa vocação parece sem sentido, pode ser que o caminho ao qual fomos chamados a seguir seja justamente aquele em busca de nossa alma, do sentido de nossas vidas, mas podemos não estar procurando no lugar certo. Em nossa sociedade, da falta de tempo, dos negócios, do consumo, etc., nos resta pouco espaço para nossa busca interior.
Falta-nos o espaço para o Sagrado, para que possamos nos sentir parte do todo.
Falta-nos o “tempo” para encontrar a alma.Reconhecer nosso chamado é essencial para atingir a realização. “A necessidade religiosa reclama a totalidade” (Jung, 1986, p. 112).
Seguir nosso chamado interior, dotá-lo de sentido através da alma nos lança ao sentido da presença oculta e numinosa do divino. É Deus que chama, e o faz para termos um encontro com Ele.
Esta deve ser uma experiência de plenitude e talvez inexplicável em palavras.Imagino que a famosa exclamação de Santa Teresa de Jesus (Teresa de Ávila) possa expressar a experiência desse encontro, no qual se percebe a força divina.
Ela diz: “Só Deus basta!”.Também como expressão disso, segue abaixo o trecho de uma música, que me parece também uma tentativa, ou desejo, de proclamar a grandiosidade deste encontro, do atendimento ao chamado.
Em diferentes momentos da vida nos deparamos com desejos, anseios e necessidades pessoais ou coletivas que nos questionam e nos colocam frente a tomadas de decisão.
Algumas vezes nem sabemos explicar o porquê de querermos ou cedermos a tais impulsos que se apresentam a nós. Podemos responder conscientemente ou mesmo só nos darmos conta depois de já termos iniciado um caminho, como quem “tropeça” em algo e acaba sendo levado por uma nova ou transformada trajetória.
O que instigou a reflexão acerca deste tema foram questionamentos que envolviam um chamado (“atendido”) a uma vocação religiosa e a recorrente sensação de não estar em conexão consigo mesmo, ou dúvidas quanto a isto.
Esta inquietação me foi manifestada por pessoas com as quais tive convivência e que estavam inseridas em comunidades cristãs. Segundo elas, escutaram um chamado divino para a vocação a qual abraçaram, com a convicção de seguir o plano de Deus para suas vidas.
No entanto, psicologicamente, ainda clamava dentro de suas almas o desejo de plenitude e de identidade (como busca e descoberta de si mesmo).
Na verdade, em algum momento (ou talvez em mais de um), a dúvida faz parte do caminho vocacional.
“A missão individual está sempre abalada por incertezas, o seu caminho se faz às escuras e a recompensa não aparece tão cedo” (HILLMAN, 2004, p.48).
Não obstante, aqueles que temem a Deus vêem momentos como este como também fazendo parte dos desígnios divinos e que em seguida virá a bonança.
Sabem que, como nos diz o teólogo Oliveira, “todo autêntico caminho vocacional deve necessariamente passar pela experiência da cruz, a fim de desabrochar na grande manhã da ressurreição” (2006, p.54).
O problema seria permanecer neste estágio de perturbação e simplesmente aguardar o dia da reviravolta, a qual poderia ou não acontecer conforme o esperado. O anseio manifestado pela inquietação em relação ao caminho que está sendo seguido, revela algo que precisa ser feito ou refletido.
Mesmo que esta providência seja “apenas” entrar em contato com Deus, como um pedido de revelação ou de livramento – “Na tribulação invoquei o Senhor; ouviu-me o Senhor e me livrou” (Sl 117,5).
E é justamente acerca deste contato com o divino que, nesta oportunidade, o chamado parece aludir. Mas antes, pensemos nalgumas considerações sobre o que seria este chamado e a que ele se propõe.Partindo do conceito mais básico, o termo chamado, particípio de chamar, designa aquilo que (ou a quem) se chamou; convocado, invocado.
É o mesmo que chamada, chamamento, convite, convocação (WEISZFLOG et al., 1975). Mitologicamente, considerando o chamado da aventura pelo qual em sua jornada o herói é atraído, Campbell (1994, p.61) define que “pequeno ou grande, e pouco importando o estágio ou grau da vida, o chamado sempre descerra as cortinas de um mistério de transfiguração – um ritual, ou momento de passagem espiritual que, quando completo, equivale a uma morte seguida de um nascimento”.
Portanto, assim como todo momento de separação e renascimento, a percepção de um chamado, um limiar a ser atravessado, gera ansiedade. Podemos supor a equivalência disto a quando nos encontramos diante da necessidade de uma escolha, que supõe abandonar/sacrificar uma alternativa e seguir pela opção feita.
Campbell (1994, p.60) relata que a aventura, o chamado para esta, pode começar a partir de um erro, mero acaso que na verdade tem nascente inesperada e profunda, na alma, e que isto “pode equivaler ao ato inicial de um destino”.
Ele ilustra esta idéia com um trecho da história O Rei Sapo (dos irmãos Grimm), no qual a princesinha que brincava com sua bola dourada a deixou escapulir, acabando por rolar para dentro da água.
Foi daí que surgiu um sapo que, após um acordo de troca de interesses, concordou em buscar a bola para a princesinha. Em seguida a isto, o sapo passou a cobrar sua parte do acordo e a fazer parte da vida da princesa (CAMPBELL, 1994, p.59-60).
Da mesma forma, podemos ter o olhar atraído a algo que, de súbito, passa por nós durante um momento de “distração” e desperta nossa atenção, assim como o que ocorreu com Alice, aquela que se aventurou no País das Maravilhas.
Entediada e perto da irmã que lia um livro desinteressante, Alice avistou um coelho com olhos cor-de-rosa que passou correndo perto dela. Quando ele “tirou um relógio do bolso do colete, e olhou para ele, apressando-se a seguir, Alice pôs-se em pé e lhe passou a idéia pela mente como um relâmpago, que ela nunca vira antes um coelho com um bolso no colete e menos ainda com um relógio para tirar dele. Ardendo de curiosidade, ela correu pelo campo atrás dele, a tempo de vê-lo saltar para dentro de uma grande toca de coelho embaixo da cerca. No mesmo instante, Alice entrou atrás dele, sem pensar como faria para sair dali” (CARROLL, 2002).
Uma outra possibilidade de se ter um chamado revelado, para iniciar um novo caminho, é a aparição de um “anjo”, enviado por Deus. Como aconteceu com Maria (Lc 1,26-38) que foi visitada pelo Anjo Gabriel, o mesmo que aparecera meses antes a Zacarias, esposo de Isabel, e que se revelou: “Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado para te falar e te trazer esta feliz nova” (Lc 1,19).
Por esta mesma experiência, passou Moisés, ao ser convocado por Deus a, em missão, libertar o povo do Egito. Ele apascentava o rebanho de seu sogro e conduzira os animais para além do deserto, “até a montanha de Deus, Horeb. O anjo do Senhor apareceu-lhe numa chama (que saía) do meio duma sarça. Moisés olhava: a sarça ardia, mas não se consumia. ‘Vou voltar, disse ele consigo, para contemplar esse extraordinário espetáculo, e saber porque a sarça não se consome’. Vendo o Senhor que ele se voltou para ver, chamou-o do meio da sarça: ‘Moisés, Moisés!’ – ‘Eis-me aqui!’ respondeu ele. E Deus: ‘Não te aproximes daqui. Tira as sandálias dos teus pés, porque o lugar em que te encontras é uma terra santa’ (Ex 3,1-5).
Independente de como somos atraídos para o “chamado”, o mensageiro nos anuncia um despertar, uma possibilidade, um caminho a ser seguido, algo com o qual precisamos nos conectar. Como mencionado acima, trata-se aqui de um chamamento divino para algo que está sob os domínios ou desígnios de Deus. “Deus chama para um encontro com Ele” (OLIVEIRA, 2006, p. 63). É importante, pois, entendermos a representação deste divino para a psicologia analítica.
Em sua obra Resposta a Jó, Jung (1986, p.106) afirma que considera a psique como uma realidade e que é “só por meio da psique que podemos constatar que a divindade age em nós; dessa forma somos incapazes de distinguir se essas atuações provêm de Deus ou do inconsciente (...). A imagem de Deus não coincide propriamente com o inconsciente em si, mas com um conteúdo particular deste último, com o arquétipo do si-mesmo.
Este último já não podemos separar, empiricamente, da imagem de Deus. (...) A fé tem razão, quando faz o homem ver e sentir no mais profundo de si mesmo a imensidão e inacessibilidade de Deus; mas ela também nos ensina a proximidade, e mesmo a imediata presença de Deus. (...) Só posso conhecer como verdadeiro aquilo que atua em mim” (idem, 1986, p.111).
Nosso contato pessoal com Deus se dá em nosso interior através da imagem de Deus construída por nós, independente de acreditarmos num Deus transcendente ou de crermos num dogma específico.
É esse Deus-imagem de cada um que existe psicologicamente, uma “imagem de Deus enquanto coisa conhecida, experimentada, sentida, intuída, representada ou formulada por uma pessoa. Esse Deus é inicialmente uma experiência, e só a seguir um conceito.
Essa imagem ou experiência não é única, e nem sempre a mesma. Ela sofre transformações ao longo da vida de qualquer indivíduo, diferindo ainda largamente de uma pessoa para outra” (HILLMAN, 2004, p.39).Dyer (2003, p.53) afirma que Jung “escreveu que Deus é um nome apropriado dado a todas as emoções dominantes em seu próprio sistema psíquico, subjugando sua vontade consciente e usurpando seu autocontrole”.
Portanto, diante de um chamado divino, podemos ser tomados por tal força que nos arrebata. Ainda Dyer (2003, p.53-54), relata uma carta de Jung endereçada a um ministro protestante suíço em 1952 na qual afirma que “o homem vive inteiramente quando, e apenas quando, ele se relaciona com Deus, com aquele que dirige seus passos e determina seu destino”. Deus sabe o que nós precisamos e a que somos destinados.
Logo, “o apelo divino não cai em terreno neutro. Por isso é indispensável entender o chamado divino como proposta de um desenvolvimento integral da pessoa humana” (OLIVEIRA, 2006, p.68).Assim, sendo Deus uma realidade psíquica de cada um de nós e o chamado que nos é feito um apelo divino, podemos presumir que se trata de um chamado provindo de nosso próprio interior, das profundezas de nossa alma.
Se ouvimos tais “chamados”, a partir deles fazemos as escolhas que determinam nossas vidas. No entanto, a recusa de um chamado, o que pode ser uma afronta, lança-nos a um infortúnio e falta de sentido. Além disso, pode nos fazer ver a ira de Deus, “pois os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis” (Rm 11,29).“Uma vez que recusastes o meu chamado e ninguém prestou atenção quando estendi a mão, uma vez que negligenciastes todos os meus conselhos e não destes ouvidos às minhas admoestações, também eu me rirei do vosso infortúnio e zombarei, quando vos sobrevier um terror, quando vier sobre vós um pânico, como furacão, quando se abater sobre vós a calamidade, como a tempestade, e quando caírem sobre vós tribulação e angústia.
Então me chamarão, mas não responderei, procurar-me-ão, mas não atenderei. Aquele que me escuta, porém, habitará com segurança, viverá tranqüilo, sem recear dano algum” (Pr 1,24-28,33).Quanto à negação do chamado, Campbell (1994, p.67) comenta que “os mitos e contos de fada deixam claro que a recusa é essencialmente uma recusa a renunciar àquilo que a pessoa considera interesse próprio”.
No entanto, “nem todos os que hesitam se perdem. A psique reserva muitos segredos, que só são revelados quando necessário. E assim, às vezes, o castigo que se segue a uma recusa obstinada ao chamado mostra ser a ocasião da providencial revelação de um princípio insuspeitado de liberação” (idem, 1994, p. 70).Dentre os chamados os quais nos são feitos, escutamos também a voz interior que nos propõe uma vocação. A palavra vocação, do latim vocatione, significa ato ou efeito de chamar.
Da teologia, extrai-se que é chamamento, eleição, escolha, predestinação. Também pode ser dita como uma inclinação para o sacerdócio ou para a vida religiosa. Por outro parâmetro, é inclinação, propensão, tendência para qualquer estado, ofício, profissão. Talento. É uma disposição natural do espírito; índole (WEISZFLOG et al., 1975). Decidimos nossa vocação, seja por talento, predestinação, opção ou busca pela totalidade e salvação divina, a partir do chamado que ouvimos.Comentando sobre necessidade e vocação, e fazendo sua distinção, Hillman (2004, p.13) afirma que “o chamado ou vocação tende muito mais a ser experimentado como coisa vinda de fora da personalidade, enquanto as necessidades são mais encaradas como coisas minhas e vindas de dentro”.
De onde, então, vem o chamado à vocação, já que o experimentamos como vindo de fora?“Levantai os olhos para o céu e olhai. Quem criou todos esses astros? Aquele que faz marchar o exército completo, e a todos chama pelo nome, o qual é tão rico de força e dotado de poder, que ninguém falta ao seu chamado. Por que dizer-te então, ó Jacó, por que repetir, ó Israel: ‘Escapa meu destino ao Senhor, passa meu direito despercebido a meu Deus?’” (Is 40,26-27).Somos destinados a algo.
E destino, de destinar, significa o encadeamento de fatos supostamente fatais; fatalidade. Circunstância de ser favorável ou adversa às pessoas ou coisas, esta suposta maneira de ocorrerem os fatos. Fado, sorte. Objetivo, fim para que se reserva ou destina alguma coisa. Entidade misteriosa que determina as vicissitudes da vida. (WEISZFLOG et al., 1975). Um sentido de destino é “o sentido de que, de alguma forma, estaríamos predestinados. Estar predestinado implica a existência de uma força transcendente que chama, escolhe ou expressa alguma coisa através de nós, uma força que dá significação” (HILLMAN, 2004, p.69).
Pensar em vocação como algo que nos foi predestinado, pode nos soar como aspecto fora de nosso controle e como se não fossemos responsáveis por nossas vidas. Entrevistando James Hillman, Elisa Byington (1999) o indagou acerca disto, ao que ele respondeu: “Acho que a distinção entre fado (sina, destino) e fatalismo pode ajudar a compreender. Fatalismo é acreditar no fado. (...) O fado é a percepção de que há algo a mais no mundo que afeta a minha vida. Fatalismo é, como todos os "ismos", uma coisa mais fácil: ‘Não posso fazer de outro modo.
O destino assim quis’. São sentimentos muito diferentes, ainda que sejam próximos.
O fado faz você refletir sobre a sua vida. O fatalismo diz que você não tem nenhum controle sobre ela”.Não estamos, pois, submetidos a um fatalismo: “sistema dos que consideram todos os acontecimentos como irrevogavelmente fixados de antemão por uma causa única e sobrenatural” (WEISZFLOG et al., 1975).
Estamos, sim diante da “providência”, da “ordem das coisas”, característica do fado (idem, 1975).Citando Platão, quanto ao mito de Er exposto no final da República, Hillman (BYINGTON, 1999) comenta que ele “diz que a alma de cada um de nós escolhe uma imagem ou desenho que depois será vivido aqui na Terra.
Nossa ligação com aquele desenho original é um companheiro chamado daimon, o nosso destino”.Nosso daimon, portanto, “é um guia único, diferente de todos os outros”, ele quer que nós façamos alguma coisa, que nos definamos enquanto pessoa. Ele “dá um sentido para estarmos vivos”, assim diz Hillman (BYINGTON, 1999).
Além disso, o daimon nos “é dado, mas não de um modo absoluto. É sempre você. É o daimon, mas é você. A vida é essa relação.
A forma como você vive define esse algo que está em você” (idem, 1999). Nosso daimon é interior e nos orienta, mas nós é que definimos a ele mesmo, que está dentro de nós.A vocação, desse modo, é a essência de uma vida. E ela nos leva a um determinado destino.
Sendo assim, “negar uma vocação seria negar a essência de uma pessoa” (HILLMAN, 2004 p.13). Desde o nosso nascimento somos marcados pelo que há de se desenvolver em nossas vidas. Podemos entender “vocação ou chamado para ser o que eu sou, constituindo parte da realização da minha própria personalidade” (idem, 2004, p. 25).
Sendo assim, “todo ser humano é vocacionado, em primeiro lugar, para aquela vocação natural: o chamado à existência. (...) Mas essa vocação só se realiza plenamente quando o homem e a mulher (...) entram em comunhão com Deus” (OLIVEIRA, 2006, p.12).
Portanto, “a vocação passa a ser entendida como relacionamento pessoal com Deus” (idem, 2006, p.63).Se nossa vocação, a essência de nossa vida, só se realiza inteiramente em comunhão com Deus e o chamado divino nos lança justamente a buscá-la, temos então, um caminho de mão dupla, ou circular, e, fundamentalmente, de encontro.
Encontro consigo mesmo, descoberta de quem somos, uma experiência religiosa, de conexão interior. “A palavra vocação está relacionada com algo ainda mais profundo e essencial – a ligação com Deus ou com os deuses, ou seja, com as forças que se manifestam dentro da psique” (VON FRANZ, 1999, p.298); a ligação com o nosso Si-mesmo, nossa imagem de Deus.“A vocação é, pois, uma sedução (Jr 20,7), uma ‘conquista do coração’ (Os 2,16) por parte de Deus, para uma vida de intimidade, de comunhão com Ele.
É um convite para ficar com Ele, para participar da sua vida” (OLIVEIRA, 2006, p.63).É um ponto interessante para pararmos e refletirmos: estará a vocação que “escolhemos”, ou que definimos dentro de nós, em conexão interior e viva em nossa psique? Aqui pensamos inclusive em missão, como atuação no mundo, ou até na profissão que exercemos porque a ela fomos atraídos por algum motivo.
Também podemos incluir na reflexão as vocações religiosas que, na perspectiva cristã, trata-se de assemelhar-se e seguir a Cristo, algo pessoal e, ao mesmo tempo, comunitário, porque a comunidade “é o lugar concreto da manifestação do chamamento divino” (OLIVEIRA, 2006, p.59).Segundo o teólogo Oliveira (2006, p.78), “missão” é o centro dos relatos bíblicos acerca de vocação.
Ele define missão como “a tarefa que Deus quer realizar através da pessoa que ele chamou e escolheu. Por essa razão, a missão determina a vocação, com todas as conseqüências que dela decorrem”. Para ele, então, a missão “é a essência de toda vocação, uma vez que é a concretização histórica de todo chamamento” (idem, 2006, p.77).
Se, como foi visto acima, a vocação é a essência de uma vida, e aqui, a missão é a essência da vocação, assim a dimensão missionária é inerente à nossa vida. “Toda vocação é para a missão” (OLIVEIRA, 2006, p.77), então, o que nos está predestinado e a forma como definimos isto em nossas vidas, requer também de nós a sua expressão e atuação no mundo.
É a nossa incumbência e, ainda, a delegação divina conferida num intuito religioso (WEISZFLOG et al., 1975). Para o teólogo (OLIVEIRA, 2006, p.63), “não pode haver encontro com Deus sem encontro com os irmãos e irmãs (...). Responder ao chamado é inserir-se na comunidade”.
“A Igreja é a assembléia dos chamados” (OLIVEIRA, 2006, p.5) e seu serviço de Animação Vocacional, aquele que faz uma “mediação do chamamento divino” (idem, p.9-10).Quanto a este ponto, pode-se desenvolver um problema. Se não pode haver encontro com Deus sem encontro com o outro (as pessoas), podemos cair no erro de buscar a Deus através destes outros.
Ou então, se para fazer parte da comunidade nos identificamos com a vocação desenvolvida por ela e seus membros, podemos assumir para nós “pseudovocações, geradas artificialmente, sem consistência, sem paixão, sem amor pelo povo, preocupadas apenas com o status quo e com os benefícios que a ‘profissão’ poderá trazer” (OLIVEIRA, 2006, p.74-75).
A vocação pode parecer sem sentido quando buscamos fora de nós o que deveríamos buscar nas profundezas de nossa alma. Se acontecer de buscarmos fora, não realizaremos uma conexão interior com nossa intimidade e tudo nos parecerá vazio de sentido. Se na vivência comunitária não conseguimos nos interiorizar, nos faltará algo.
Quando, em comunidades cristãs, por exemplo, uma pessoa busca Deus “fora”, ou seja, nas atividades desenvolvidas, nos contatos com as pessoas ou nos papéis que deve desempenhar, ela não terá a experiência religiosa, que é fundamentalmente interior.
A vida em comunidade não deve deixar de lado a intimidade. “Pela intimidade torno-me íntimo de mim mesmo em primeiro lugar, permitindo-me sentir o que realmente sinto, fantasiando o que de fato é a minha fantasia e ouvindo minha voz com fidelidade” (HILLMAN, 2004, p.37).
Na verdade, não é a comunidade que exige a uma pessoa a se adequar. A forma como a vivência comunitária é experienciada é que gera isto, pois pode não estar de acordo com os reais anseios da alma.
“Não se trata de um puro e simples assentimento a verdades abstratas, mas de um encontro pessoal” (OLIVEIRA, 2006, p.69).O trabalho de Oliveira (2006) é baseado no Concílio Vaticano II (1962-1965), a partir do qual “o tema da vocação passou a fazer parte da reflexão e da ação dos cristãos” (idem, 2006, p.5).
Assim, pelo que o autor delineia, há a compreensão, em relação à vivência vocacional comunitária, de que “cada pessoa viverá esse chamado de forma única, segundo os dons recebidos do Espírito de Deus” (idem, 2006, p.33).
E mais: “É totalmente legitimo que alguém viva o chamado à santidade de forma única, sem precisar copiar nada de uma outra, sem ser a fotocópia de um outro santo ou santa” (idem, 2006, p.32). E, aqui para a compreensão desejada, ser santo é, sumariamente, “responder ao apelo divino” (idem, 2006, p.27). Justamente porque “a pertença à Igreja não é garantia de santidade” (idem, 2006, p.41), precisamos estabelecer nosso contato interior e escutar nosso chamado, que é único.
“Portanto, todo itinerário vocacional é um olhar e uma reflexão sobre a experiência de vida e sobre o seu sentido último” (idem, 2006,81).Hillman (2004, p.41) comenta “um atributo qualificativo de alma: ela confere sentido, transforma acontecimentos em experiências, comunica-se pelo amor e tem uma implicação religiosa”. Se a alma “torna possível a existência de um sentido” (idem, 2004, p.66), o que podemos supor, portanto, se o que enxergamos é uma falta de sentido em nossa vida, em nossa vocação (que é essência da vida) e em nossa missão (que é essência de vocação e sua expressão no mundo)?“Os antropólogos descrevem uma condição que é denominada ‘perda da alma’ pelos povos primitivos. Quando isso acontece, a pessoa fica fora de si, incapaz de encontrar tanto a conexão interior consigo própria quanto a exterior com a humanidade. (...) Creio, juntamente com Jung, que cada um de nós é ‘o homem moderno em busca da sua alma’” (HILLMAN, 2004, p. 41-42).
Estamos constantemente em busca de nossa alma, de, com ela, darmos significado e sentido às nossas experiências e, conseqüentemente, estarmos em contato com o divino.Ainda Hillman (2004, p.45), afirma que “na verdade, hoje em dia, o problema de muitos religiosos é encontrar a conexão interior com a vocação, e depois mantê-la viva.
A ligação profunda e vertical, em nível interior da raiz arquetípica, parece estar truncada ou torcida e, naturalmente, o ministro busca fora daí a solução”. Precisamos viver plenitude de nosso próprio destino e permanecer fiel à vida (idem, 2004, p.45).
A ligação profunda e vertical é o que nos dará sentido, o caminho da alma para um encontro daquilo que é sagrado. Mas “não conseguiremos chegar à alma e à experiência de Deus a não ser que o façamos via inconsciente, o que significa, nada mais nada menos, que nos defrontarmos com pecados e males, e com todo o turbilhão de possibilidades que foram mantidas fora do alcance da civilização” (HILLMAN, 2004, p.50).
Não é um caminho fácil, mas somos chamados a enfrentá-lo.“O inconsciente é, portanto, a porta através da qual nós passamos para encontrar a alma. (...) Mas se formos procurar a alma no inconsciente, primeiro será preciso encontrar o inconsciente. (...) Não devemos estabelecer sua existência, nem tampouco a da alma, através de discussões, leituras ou qualquer outra prova direta.
Nós tropeçamos em sua realidade; quando menos se espera, tropeça-se na psique inconsciente” (HILLMAN, 2004, p.50).
Assim, tanto o é que nos damos, inesperadamente, de cara com aquele “mensageiro” enviado para chamar nossa atenção, como comentamos anteriormente, para nos fazer olhar a um caminho, para nos convidar a mergulhar em nossas profundezas.O chamado divino nos mostra algo com o qual precisamos nos conectar.
Nossa alma quer se dar a conhecer, nosso inconsciente quer ser explorado, algo que está sob os desígnios de Deus, de nosso Si-mesmo, quer se mostrar, por isso nos é feito o apelo ao chamado, para que possamos encontrar o sentido.
Quando nosso chamado ou nossa vocação parece sem sentido, pode ser que o caminho ao qual fomos chamados a seguir seja justamente aquele em busca de nossa alma, do sentido de nossas vidas, mas podemos não estar procurando no lugar certo. Em nossa sociedade, da falta de tempo, dos negócios, do consumo, etc., nos resta pouco espaço para nossa busca interior.
Falta-nos o espaço para o Sagrado, para que possamos nos sentir parte do todo.
Falta-nos o “tempo” para encontrar a alma.Reconhecer nosso chamado é essencial para atingir a realização. “A necessidade religiosa reclama a totalidade” (Jung, 1986, p. 112).
Seguir nosso chamado interior, dotá-lo de sentido através da alma nos lança ao sentido da presença oculta e numinosa do divino. É Deus que chama, e o faz para termos um encontro com Ele.
Esta deve ser uma experiência de plenitude e talvez inexplicável em palavras.Imagino que a famosa exclamação de Santa Teresa de Jesus (Teresa de Ávila) possa expressar a experiência desse encontro, no qual se percebe a força divina.
Ela diz: “Só Deus basta!”.Também como expressão disso, segue abaixo o trecho de uma música, que me parece também uma tentativa, ou desejo, de proclamar a grandiosidade deste encontro, do atendimento ao chamado.
Resenha: Sobre o Amor (Jung)
Marianne Schiess, a partir de citações, textos pequenos, relatos de casos clínicos, delineia o pensamento de Jung sobre o amor, em diferentes períodos de sua vida.
Apesar de ser um pequeno livro é de uma grandiosidade em conteúdo, que prende, instiga o leitor a reflexões na medida que aborda o tema do amor interligado no cotidiano intrínseco ao ser humano; suas relações no campo do casamento, sociedade e ainda o processo do relacionamento que cura, entre outros.
Destaca que, para Jung, o amor representa uma grande problemática para a evolução do homem, onde este, para dar-se conta desse processo necessita da relação com o outro, com o coletivo, mesmo sentindo que esse processo é algo do individual, quando não consegue perceber que “é muito da incapacidade de amar que rouba das pessoas as oportunidades” .
A concepção, a força e o desenvolvimento do amor na psique quando ficam bloqueados, não permitindo o fluir da libido em direção aos relacionamentos, não percebendo a complexidade e a beleza de ouvir, nos torna vazio.
Quando o homem não lida com o “sofrimento da alma” é atrofiado no processo de “criação e progresso espiritual”, gerando a incapacidade da alma agir.
De acordo com Jung, “a base do casamento é sempre essencialmente coletiva” e, historicamente, a ênfase era no contrato social, não propriamente no amor.
A nossa sociedade atual, contudo, não aceita isto, uma vez que o encontro da relação está centrado no amor. Na medida que nos aproximamos e nos assemelhamos ao ser amado, lidamos com a “participation mystique” e, posteriormente, quando nos defrontamos com as diferenças do outro, torna-se um desafio, na nossa individualidade, a manutenção do casamento.
No capítulo sobre a sociedade, Jung expressa que os relacionamentos estão “minados pela desconfiança” em função de uma sociedade cada vez mais competitiva, gerando uma individualização que é favorável aos que controlam o poder, ficando os afetos suscetíveis e o amor comprometido em razão dessas projeções de insegurança diante da sociedade. “Onde terminam o amor começam o poder, a violentação e o terror”.
Faz uma reflexão de que devemos lidar com as projeções e suportarmos as diferenças e percebermos que também podemos e devemos aceitar os erros dos outros, que isso sim é humano.
Mostra-nos que, nos dias atuais, é cada vez mais pertinente a importância da psicologia nos relacionamentos e, ressalta a dialética terapeuta – cliente no sentido do auto-conhecimento para perceber o que é meu e o que do outro.É um livro que resgata o pensamento de Jung sobre o amor, com o discurso dentro de uma atualidade.
É para leitores que sentem a necessidade e o interesse nos diversos temas ligados ao amor.
Apesar de ser um pequeno livro é de uma grandiosidade em conteúdo, que prende, instiga o leitor a reflexões na medida que aborda o tema do amor interligado no cotidiano intrínseco ao ser humano; suas relações no campo do casamento, sociedade e ainda o processo do relacionamento que cura, entre outros.
Destaca que, para Jung, o amor representa uma grande problemática para a evolução do homem, onde este, para dar-se conta desse processo necessita da relação com o outro, com o coletivo, mesmo sentindo que esse processo é algo do individual, quando não consegue perceber que “é muito da incapacidade de amar que rouba das pessoas as oportunidades” .
A concepção, a força e o desenvolvimento do amor na psique quando ficam bloqueados, não permitindo o fluir da libido em direção aos relacionamentos, não percebendo a complexidade e a beleza de ouvir, nos torna vazio.
Quando o homem não lida com o “sofrimento da alma” é atrofiado no processo de “criação e progresso espiritual”, gerando a incapacidade da alma agir.
De acordo com Jung, “a base do casamento é sempre essencialmente coletiva” e, historicamente, a ênfase era no contrato social, não propriamente no amor.
A nossa sociedade atual, contudo, não aceita isto, uma vez que o encontro da relação está centrado no amor. Na medida que nos aproximamos e nos assemelhamos ao ser amado, lidamos com a “participation mystique” e, posteriormente, quando nos defrontamos com as diferenças do outro, torna-se um desafio, na nossa individualidade, a manutenção do casamento.
No capítulo sobre a sociedade, Jung expressa que os relacionamentos estão “minados pela desconfiança” em função de uma sociedade cada vez mais competitiva, gerando uma individualização que é favorável aos que controlam o poder, ficando os afetos suscetíveis e o amor comprometido em razão dessas projeções de insegurança diante da sociedade. “Onde terminam o amor começam o poder, a violentação e o terror”.
Faz uma reflexão de que devemos lidar com as projeções e suportarmos as diferenças e percebermos que também podemos e devemos aceitar os erros dos outros, que isso sim é humano.
Mostra-nos que, nos dias atuais, é cada vez mais pertinente a importância da psicologia nos relacionamentos e, ressalta a dialética terapeuta – cliente no sentido do auto-conhecimento para perceber o que é meu e o que do outro.É um livro que resgata o pensamento de Jung sobre o amor, com o discurso dentro de uma atualidade.
É para leitores que sentem a necessidade e o interesse nos diversos temas ligados ao amor.
Persona, Perda de Identidade e as Sociedades de Consumo
Como pode ser facilmente observado, cada sociedade é regida por normas, convenções, códigos éticos, legais ou morais, que tornam possível a convivência entre seus membros.
Em cada grupo ao qual pertencemos, seja a família, o trabalho, a escola, a igreja ou qualquer outro, somos chamados a assumir determinados papéis que são moldados segundo as regras que constituem cada um destes.
A esse fato psicológico que marca a interação e a influência do social na formação da personalidade, a Psicologia Analítica dará o nome de Persona.
A Persona é, portanto, uma máscara, uma possibilidade de nos relacionarmos socialmente, um compromisso com o restante do grupo, pelo qual, ao assumir-mos, nos reconhecemos como membros de um grupo, nos submetemos à valores que passam a perpassar nossas relações, tornando-as possíveis.
Contudo, como cada um de nós representa em si uma individualidade impossível de ser completamente reduzida ao coletivo, não é difícil perceber que o indivíduo consciente de si mesmo e que, portanto, advoga para si o domínio e a autoria de suas idéias, valores, sentimentos, em suma, de sua forma de ser, sentirá, mais cedo ou mais tarde, essa exigência social como algo arbitrário.
Daí que ao fazermos parte de um grupo e envergarmos essa máscara, damos origem também a uma tensão que surgirá do embate desses dois pólos opostos que devem conviver em nós daí por diante: o individual e o coletivo.
Nossa maior ou menor capacidade de interagirmos socialmente dependerá de quão bem desempenhamos nossa Persona, nossos papéis sociais.
A Persona trará gravada em si a marca dessa anuência do Eu, do Indivíduo que torna-se Sujeito, subjugado pelo Outro enquanto social, que ao mesmo tempo que o acolhe, o molda e o forma.
O social é, portanto, uma das faces daquilo que podemos chamar de Outro e que no contato com a personalidade individual podará suas arestas para que ela possa, mais tarde, frutificar em todas as suas potencialidades.
Normalmente, a Persona deveria reduzir-se a justamente isso, um compromisso com o social; contudo, algumas vezes, ela se torna tão forte que oprime e toma o lugar que deveria estar reservado ao Eu individual, reduzindo-o a coadjuvante. Podemos ver isso de maneira muito clara na forma como muitas vezes o papel social extrapola seu devido lugar e passa a ser exercido como um traço da própria personalidade individual.
Fato muito comum que acontece quando se utiliza, por exemplo, de vantagens ou poderes de um cargo, que deveriam restringir-se ao seu próprio exercício, como forma de obter vantagens pessoais.
Principalmente ao envolver a questão do poder, que confere maior status social a quem o possui, algumas pessoas tendem a como que incorporar características e direitos de uma função social a qual venham a exercer como algo que lhes seja próprio, como se essa máscara tivesse se grudado ao rosto, tornando-se não mais o que é, mas a própria face.
Esse traço da realidade social pode ver-se consolidado numa frase que passou a fazer parte do nosso imaginário: “ Você sabe com quem está falando ? ”Situações como esta, mostram um processo de identificação com a Persona através do qual incorporamos, em detrimento do Eu, características pertencentes a um papel social.
No conto “O espelho” , de Machado de Assis, temos um belo exemplo de como a identificação com a persona pode conduzir a uma perda da própria individualidade.Nele, um jovem e pobre rapaz, para júbilo da família e de alguns amigos, mas não de todos, já que o sucesso de uns nunca agrada a todos, é conduzido ao posto de Alferes.
Seguem-se à sua nomeação agrados e bajulações sem fim, de sorte que antes alguém comum, o jovem alcança tal notoriedade que deixa-se seduzir pelas vantagens de sua nova posição social.
Tanto foi o efeito da lisonja sobre sua alma que por fim sua identidade pessoal deu lugar unicamente ao alferes.
Onde antes havia um homem que, entre outras coisas, exercia uma patente, agora existia unicamente o exercício desta. A outra parte de sua própria natureza “ dispersou-se no ar e no passado ” .
No início, ainda receoso, desejava ser tratado sem cerimônias; contudo, os mimos e adulações dos quais era objeto terminaram por tocar-lhe a alma, fazendo com que o jovem deixasse de lado suas hesitações e usufruísse plenamente de sua nova e vantajosa condição.
De tal forma foi sua mudança que um velho espelho de sua tia não mais refletia sua figura. Tornara-se “sombra de sombra” .
Somente vestido com seu uniforme conseguia-se ver-se plenamente. Sua individualidade fora aniquilada por sua patente e tal verdade saltava-lhe aos olhos cada vez que mirava-se no espelho, e este, com sua límpida e sincera honestidade, de quem não possui nenhum traquejo para as suavizações que marcam os contatos sociais, recusava-se a mostra-lhe sua própria fisionomia quando despida de seus trajes oficiais.
Como se tragicamente dissesse: “ Sem eles, tu não és nada !”Vê-se como, por esse processo de identificação, a Persona deixa seu lugar característico de propiciadora de um bom relacionamento social, tornando-se a própria razão de uma existência social, enquanto o Eu torna-se sombra.
Seus trajes de Alferes tornaram-se mais do que o emblema de uma função social, não mais um mediador, mas sua possibilidade de existência dentro desse social. Ressalto aqui esse ponto por que deve-se entender que a exacerbação da Persona nem sempre é sentida como algo patológico pelo indivíduo.
Tornado mais importante, mais reconhecido, o sujeito ganha mais visibilidade social, novas formas de contato e de relações com o restante do grupo onde antes poderiam ser inexistentes.
No caso do alferes, sua patente atribuiu-lhe uma importância e influência onde antes lhe seria impossível.
A importância dessa mediação social, desses papéis que desempenhamos socialmente e que permitem nossa convivência e integração a um todo social, que Jung denominará de Persona, fica clara à medida que percebemos a cultura e os valores sociais como estruturadores da personalidade do indivíduo.
A cultura de uma sociedade, que se expressa em seus valores éticos, morais, nos seus códigos, leis, etc., molda desde cedo a personalidade de cada um de nós. Como viemos ao mundo em meio a um grupo social que nos antecedeu, somos criados segundo o molde desse grupo, passando a viver desde cedo segundo suas leis e costumes.
Mesmo que no futuro venhamos a assumir outros valores mediante o contato com grupos diferentes, nunca deixamos de levar conosco a marca de nossa cultura inicial, seja para segui-la, transforma-la ou renegá-la.Assim, é que construímos a nós mesmos mediante algo que nos antecede, que nos referencia como sujeitos.
É a partir do Outro e não de nós mesmos que nos tornamos sujeitos. Seja o Outro na forma da família, da escola, do grupo de amigos, ou de qualquer outro grupo social, é ao nos confrontarmos com ele, ao vivermos experiências junto a outros indivíduos, que construímos nossa própria personalidade.
Desta forma poderíamos nos perguntar voltando um pouco ao conto aludido acima. Se nos olhássemos hoje no espelho, se nossa cultura, nossa sociedade se olhasse hoje no espelho, o que veria?
Nossa sociedade capitalista e de consumo nos leva em busca de um ideal ao qual não conseguimos nunca corresponder, mas que perseguimos a todo custo, buscando adequar-nos à ele. Nossa melhor existência social depende de quanto mais parecermos adequados a esse modelo criado pelo mercado. Buscamos corresponder a um ideal de poder, beleza, de corpos perfeitos, de liberdade, de ausência de limites.
Queremos sempre mais, mesmo que esse mais não tenha nenhum sentido e quando conseguido seja descartado em nome de algo que agora se encontra mais a frente.
Impulsionados por um desejo de consumo que afeta até mesmo nossa linguagem – vejam a expressão “ Sonho de Consumo ” usada para designar algo que se deseja muito – somos conduzidos a uma forma de relação com o mundo marcada pelo imediatismo, pelo anseio pelo novo e pela despersonalização do Eu.Aqui, reencontramos nossa questão principal: a Persona.
Nessa busca constante por corresponder a esse ideal social alimentado continuamente pela mídia publicitária somos conduzidos a uma despersonalização, passando a nos importar-mos mais como parecemos ser do que com o que realmente somos.
O mercado passa a nos dizer como devemos ser, que atitudes devemos tomar, que idéias e valores devemos ostentar. No jogo de tensão entre individual e coletivo, o ideal passa a ser dado pelo coletivo, desvalorizando os traços individuais.
Passamos, assim, a cultuar a superficialidade das aparências, daquilo que parece ser em detrimento do que é.Contudo, o culto à aparência leva a um outro culto, o da imagem, que irá transmitir aos nossos olhos as facetas de um mundo de sonho e fantasia.
Aqui, nos encontramos embalados pelo avanço da tecnologia que nos legou os grande meios publicitários como a televisão e o cinema, capazes de atingir um grande número de pessoas, e de transmitir a todos o poder das imagens, de tudo aquilo que se dá ao nosso olhar.
Somos uma sociedade que prima pelo olhar, seja este olhar o olhar desejante que se dirige aos objetos, doravante potencializados em si por toda uma série de fantasias que se agregam à sua posse, transformando-os em representações concretas de valores e atitudes, seja o olhar que se dirige a nós mesmos numa cobrança incessante pela correspondência àquilo que tornou-se desejável pelo social.
De todas as formas nosso olhar é marcado pelo excesso. Vivemos uma exacerbação do visual.
Façamos aqui uma breve digressão para lançarmos um breve olhar sobre uma questão que durante muito tempo fez parte do imaginário ocidental: os Sete Pecados Capitais. Ira, Gula, Inveja, Preguiça, Avareza, Luxúria e Vaidade. Todos marcados pelo signo do excesso. Cada qual ligado a um demônio e a um castigo em particular.
Contudo, um deles parece possuir uma característica singular frente aos demais: a Vaidade.
Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Soberba, Orgulho ou, simplesmente, Vaidade, o mais pernicioso, posto que público, dos grandes pecados.
Em si mesmo, os pecados capitais são total ou pelo menos parcialmente pessoais, ou seja, podem desenvolver-se no íntimo de cada um, muitas vezes sem manifestar-se externamente, até mesmo ignorados daqueles que cercam o pecador.
A Ira, mesmo que no calor do sangue clame pela ação não seria mais bem vivida no remoer dia após dia daquela raiva que nos consome internamente?
A Inveja, vivida secretamente, sem ser percebida, perto do objeto invejado.
A Luxúria, que toma tantas formas, mas que também pode bem ser saboreada nas fantasias antecipatórias de sua realização; do masturbador compulsivo ela é a força motriz das fantasias, bem como pode ser encontrada na solidão oculta de um voyeur.
O que dizer do prazer solitário do glutão que pede para que não haja mais ninguém para que sobre mais e mais comida para ele próprio.
O avarento e seu dinheiro, completos em sua solidão, cuja grande imagem não seria outro senão o velho e pão duro Tio Patinhas, nadando sozinho entre suas moedas, trancado em sua caixa forte. E quanto à Preguiça? Solitária em sua falta de ação, em sua passividade estéril, a decompor-se lentamente; a grande imagem da esterilidade.
Por fim, a Vaidade. Aqui não se admite a solidão, o meramente pessoal; ela existe e é vivida ao ser mostrada. É preciso que o outro veja, admire, até mesmo, quem sabe, que inveje.
Num dito de São João Crisóstomo: “ Dá muito trabalho guardar o que todos querem, mas não vale à pena guardar o que ninguém quer”. Hoje poderíamos até mesmo dizer: “ não vale à pena ter o que ninguém quer ver ”.
Da mesma forma, a Vaidade pode deixar seu próprio posto onde é soberana, para assumir um papel de coadjuvante entre seus asseclas. Ou será que não poderíamos dizer que o avarento se envaidece de suas posses, ou que o preguiçoso faz o mesmo ao ver muitos trabalharem enquanto ele descansa? A chave de tudo é o prazer.
Cada pecado, cada vício, mesmo tendo caminhando a seu lado a dor e a culpa, nos oferece sempre um prazer, um prazer íntimo, não comunicável totalmente, que nos faz sentir, mesmo que por breves momentos, até que sua tênue ilusão se desfaça, que somos únicos.
Não encontramos aqui também expresso um desejo amplamente cultuado: o desejo de ser único, especial ? Não é a posse de determinados objetos o grande diferenciador entre o valor social dos indivíduos? Aqui, mais do que nunca somos tocados pelas mãos da Vaidade. Doce Pecado.Eis, então, que a Vaidade é um pecado do olhar, que se dirige ao olhar, não meramente ao olhar do vaidoso, mas sim ao olhar do outro, daquele que contempla a beleza, a ostentação exibida por aquele que busca atrair-lhe o olhar.
Enquanto alguns pecados ferem nosso contato com o outro, nos isolam para que melhor possamos desfrutar de seus prazeres, a Vaidade exige o contato, o olhar de um outro que contempla. A Vaidade é, acima de tudo e dos demais pecados, um pecado social.
Talvez possamos retornar à pergunta feita anteriormente. Se nossa cultura, ou nós mesmos nos olhássemos no espelho hoje, o que ele nos mostraria?Será que nossa imagem refletida na limpidez do espelho se mostraria manchada, disforme? Será que desprovidos de todas as imagens e adereços ainda teríamos alguma individualidade a ser encarada no espelho?Nossos olhos tão ávidos pelo novo, percorrem todos os recantos.
Entregamo-nos a modismos que mudam a cada estação, como forma de corresponder melhor a um ideal social, ao olhar do Outro, num anseio incerto de ser notado, de nos destacarmos em meio à multidão.
Através da posse dos mais variados objetos, ganhamos uma visibilidade social, uma existência individual.
Estranhamente passamos a querer comprar aquilo que nos deveria ser mais natural: nossa própria existência individual.Paradoxalmente, quanto mais perseguimos esse ideal cambiável, mais nos despersonalizamos, nos entregamos a superficialidade, buscando preencher esse vazio que nos é legado pela cultura do consumo com a posse desses sedutores produtos que nos prometem uma completude que só fantasiosamente os acompanha.
A perda de nossa individualidade nos faz ansiar por essa realidade perdida que parece agora possível de ser encontrada em nossos “ sonhos de consumo ” para os quais nos dirigimos com renovada ansiedade, vivendo uma secreta frustração à cada posse, que irá tanto nos esvaziar quanto nos servir de combustível para o renascer da esperança de encontrar esse sentido de vida em algo que parece reluzir mais à frente.Em nome da vaidade das aparências, nos entregamos à superficialidade dos valores, abrindo mão da profundidade de nossa individualidade.
Renegado a um segundo plano, o Eu cede seu lugar à Persona, uma máscara, que por ser mais cambiável e flexível, melhor corresponde à nova ética social marcada pela inconstância, passando aos domínios da sombra.Nessa moderna forma de ser nos construímos como indivíduos desprovidos de uma real capacidade de consciência crítica. Se a inserção social se dá mediante a capacidade de consumo do indivíduo, poderíamos dizer que é ela que torna possível o ser tratado como cidadão. Podemos então imaginar toda a massa de excluídos sociais, que por razões econômicas se encontram afastados dessa possibilidade de existir socialmente.
O problema é que dessa forma criamos não somente a inexistência social, mas também a humana. Não somos capazes de enxergar o Outro primeiro por que sua existência estará ligada a sua capacidade de consumir, depois por que mesmo imerso nessa sociedade de consumo ele estará desprovido de substancialidade, será meramente uma sombra, coberta com um sem número de adereços que podem lhe ser dados, ou melhor vendidos, nos grandes centros de aquisição de existência, os Shoppings Centers.
Quem poderá negar que estilos de vida e formas de ser, mesmo aqueles pretensamente contrários a isso tudo, como a rebeldia, podem ser oferecidos como produtos, ou associados a estes, e divulgados com o uso da tecnologia, que os tornará amplamente desejáveis, senão necessários a cada um de nós?Contudo, desprovidos de nossa interioridade, como encarar a nós mesmos em nossa individualidade, e, acima de tudo, como realmente encarar o outro como indivíduo e não como uma imagem?
Aqui se insere também a própria possibilidade de construção de uma sociedade mais justa, já que tal anseio tão discutido atualmente não pode ser atingido sem que os indivíduos que compõem esse social possam enxergar a si mesmos e aos outros como iguais entre si.
Com discutir a idéia de direitos e deveres, que regula o funcionamento do social, se em nossa sociedade o poder financeiro é que determina até onde vai nosso direito e se realmente temos algum dever.
O conceito de individuação, presente na Psicologia Analítica, refere-se a um processo psíquico mediante o qual cada um de nós dar-se conta da própria interioridade, tornado a nós mesmos aquilo que realmente somos. No confronto com nossas projeções inconscientes, com nossa sombra, com o aspecto criativo do Inconsciente nos tornamos conscientes daquilo que realmente somos, o que nos torna também capazes de uma relação mais real com o outro, que agora não surgirá aos nossos olhos coberto de nossos próprios conteúdos projetados.
Capazes de encarar nossos desejos, sentimentos, intenções, passamos a poder encarar aqueles que nos cercam nesse todo social como indivíduos também portadores de desejos, sentimentos e intenções, em suma, portadores de uma existência, que deve ser respeitada em sua realidade.
A inconsciência desses fatos, de nossas disposições inconscientes é o que torna tão difícil o relacionamento entre as pessoas, e por que não dizer, entre as culturas.Esse confronto ético e moral é necessário para nossa construção como indivíduos e para a construção de uma sociedade também mais ética e justa.
Talvez conhecendo um pouco mais sobre nós mesmos possamos fugir a essa realidade despersonalizante e finalmente nos olharmos no espelho para contemplar algo mais que uma imagem distorcida.
Em cada grupo ao qual pertencemos, seja a família, o trabalho, a escola, a igreja ou qualquer outro, somos chamados a assumir determinados papéis que são moldados segundo as regras que constituem cada um destes.
A esse fato psicológico que marca a interação e a influência do social na formação da personalidade, a Psicologia Analítica dará o nome de Persona.
A Persona é, portanto, uma máscara, uma possibilidade de nos relacionarmos socialmente, um compromisso com o restante do grupo, pelo qual, ao assumir-mos, nos reconhecemos como membros de um grupo, nos submetemos à valores que passam a perpassar nossas relações, tornando-as possíveis.
Contudo, como cada um de nós representa em si uma individualidade impossível de ser completamente reduzida ao coletivo, não é difícil perceber que o indivíduo consciente de si mesmo e que, portanto, advoga para si o domínio e a autoria de suas idéias, valores, sentimentos, em suma, de sua forma de ser, sentirá, mais cedo ou mais tarde, essa exigência social como algo arbitrário.
Daí que ao fazermos parte de um grupo e envergarmos essa máscara, damos origem também a uma tensão que surgirá do embate desses dois pólos opostos que devem conviver em nós daí por diante: o individual e o coletivo.
Nossa maior ou menor capacidade de interagirmos socialmente dependerá de quão bem desempenhamos nossa Persona, nossos papéis sociais.
A Persona trará gravada em si a marca dessa anuência do Eu, do Indivíduo que torna-se Sujeito, subjugado pelo Outro enquanto social, que ao mesmo tempo que o acolhe, o molda e o forma.
O social é, portanto, uma das faces daquilo que podemos chamar de Outro e que no contato com a personalidade individual podará suas arestas para que ela possa, mais tarde, frutificar em todas as suas potencialidades.
Normalmente, a Persona deveria reduzir-se a justamente isso, um compromisso com o social; contudo, algumas vezes, ela se torna tão forte que oprime e toma o lugar que deveria estar reservado ao Eu individual, reduzindo-o a coadjuvante. Podemos ver isso de maneira muito clara na forma como muitas vezes o papel social extrapola seu devido lugar e passa a ser exercido como um traço da própria personalidade individual.
Fato muito comum que acontece quando se utiliza, por exemplo, de vantagens ou poderes de um cargo, que deveriam restringir-se ao seu próprio exercício, como forma de obter vantagens pessoais.
Principalmente ao envolver a questão do poder, que confere maior status social a quem o possui, algumas pessoas tendem a como que incorporar características e direitos de uma função social a qual venham a exercer como algo que lhes seja próprio, como se essa máscara tivesse se grudado ao rosto, tornando-se não mais o que é, mas a própria face.
Esse traço da realidade social pode ver-se consolidado numa frase que passou a fazer parte do nosso imaginário: “ Você sabe com quem está falando ? ”Situações como esta, mostram um processo de identificação com a Persona através do qual incorporamos, em detrimento do Eu, características pertencentes a um papel social.
No conto “O espelho” , de Machado de Assis, temos um belo exemplo de como a identificação com a persona pode conduzir a uma perda da própria individualidade.Nele, um jovem e pobre rapaz, para júbilo da família e de alguns amigos, mas não de todos, já que o sucesso de uns nunca agrada a todos, é conduzido ao posto de Alferes.
Seguem-se à sua nomeação agrados e bajulações sem fim, de sorte que antes alguém comum, o jovem alcança tal notoriedade que deixa-se seduzir pelas vantagens de sua nova posição social.
Tanto foi o efeito da lisonja sobre sua alma que por fim sua identidade pessoal deu lugar unicamente ao alferes.
Onde antes havia um homem que, entre outras coisas, exercia uma patente, agora existia unicamente o exercício desta. A outra parte de sua própria natureza “ dispersou-se no ar e no passado ” .
No início, ainda receoso, desejava ser tratado sem cerimônias; contudo, os mimos e adulações dos quais era objeto terminaram por tocar-lhe a alma, fazendo com que o jovem deixasse de lado suas hesitações e usufruísse plenamente de sua nova e vantajosa condição.
De tal forma foi sua mudança que um velho espelho de sua tia não mais refletia sua figura. Tornara-se “sombra de sombra” .
Somente vestido com seu uniforme conseguia-se ver-se plenamente. Sua individualidade fora aniquilada por sua patente e tal verdade saltava-lhe aos olhos cada vez que mirava-se no espelho, e este, com sua límpida e sincera honestidade, de quem não possui nenhum traquejo para as suavizações que marcam os contatos sociais, recusava-se a mostra-lhe sua própria fisionomia quando despida de seus trajes oficiais.
Como se tragicamente dissesse: “ Sem eles, tu não és nada !”Vê-se como, por esse processo de identificação, a Persona deixa seu lugar característico de propiciadora de um bom relacionamento social, tornando-se a própria razão de uma existência social, enquanto o Eu torna-se sombra.
Seus trajes de Alferes tornaram-se mais do que o emblema de uma função social, não mais um mediador, mas sua possibilidade de existência dentro desse social. Ressalto aqui esse ponto por que deve-se entender que a exacerbação da Persona nem sempre é sentida como algo patológico pelo indivíduo.
Tornado mais importante, mais reconhecido, o sujeito ganha mais visibilidade social, novas formas de contato e de relações com o restante do grupo onde antes poderiam ser inexistentes.
No caso do alferes, sua patente atribuiu-lhe uma importância e influência onde antes lhe seria impossível.
A importância dessa mediação social, desses papéis que desempenhamos socialmente e que permitem nossa convivência e integração a um todo social, que Jung denominará de Persona, fica clara à medida que percebemos a cultura e os valores sociais como estruturadores da personalidade do indivíduo.
A cultura de uma sociedade, que se expressa em seus valores éticos, morais, nos seus códigos, leis, etc., molda desde cedo a personalidade de cada um de nós. Como viemos ao mundo em meio a um grupo social que nos antecedeu, somos criados segundo o molde desse grupo, passando a viver desde cedo segundo suas leis e costumes.
Mesmo que no futuro venhamos a assumir outros valores mediante o contato com grupos diferentes, nunca deixamos de levar conosco a marca de nossa cultura inicial, seja para segui-la, transforma-la ou renegá-la.Assim, é que construímos a nós mesmos mediante algo que nos antecede, que nos referencia como sujeitos.
É a partir do Outro e não de nós mesmos que nos tornamos sujeitos. Seja o Outro na forma da família, da escola, do grupo de amigos, ou de qualquer outro grupo social, é ao nos confrontarmos com ele, ao vivermos experiências junto a outros indivíduos, que construímos nossa própria personalidade.
Desta forma poderíamos nos perguntar voltando um pouco ao conto aludido acima. Se nos olhássemos hoje no espelho, se nossa cultura, nossa sociedade se olhasse hoje no espelho, o que veria?
Nossa sociedade capitalista e de consumo nos leva em busca de um ideal ao qual não conseguimos nunca corresponder, mas que perseguimos a todo custo, buscando adequar-nos à ele. Nossa melhor existência social depende de quanto mais parecermos adequados a esse modelo criado pelo mercado. Buscamos corresponder a um ideal de poder, beleza, de corpos perfeitos, de liberdade, de ausência de limites.
Queremos sempre mais, mesmo que esse mais não tenha nenhum sentido e quando conseguido seja descartado em nome de algo que agora se encontra mais a frente.
Impulsionados por um desejo de consumo que afeta até mesmo nossa linguagem – vejam a expressão “ Sonho de Consumo ” usada para designar algo que se deseja muito – somos conduzidos a uma forma de relação com o mundo marcada pelo imediatismo, pelo anseio pelo novo e pela despersonalização do Eu.Aqui, reencontramos nossa questão principal: a Persona.
Nessa busca constante por corresponder a esse ideal social alimentado continuamente pela mídia publicitária somos conduzidos a uma despersonalização, passando a nos importar-mos mais como parecemos ser do que com o que realmente somos.
O mercado passa a nos dizer como devemos ser, que atitudes devemos tomar, que idéias e valores devemos ostentar. No jogo de tensão entre individual e coletivo, o ideal passa a ser dado pelo coletivo, desvalorizando os traços individuais.
Passamos, assim, a cultuar a superficialidade das aparências, daquilo que parece ser em detrimento do que é.Contudo, o culto à aparência leva a um outro culto, o da imagem, que irá transmitir aos nossos olhos as facetas de um mundo de sonho e fantasia.
Aqui, nos encontramos embalados pelo avanço da tecnologia que nos legou os grande meios publicitários como a televisão e o cinema, capazes de atingir um grande número de pessoas, e de transmitir a todos o poder das imagens, de tudo aquilo que se dá ao nosso olhar.
Somos uma sociedade que prima pelo olhar, seja este olhar o olhar desejante que se dirige aos objetos, doravante potencializados em si por toda uma série de fantasias que se agregam à sua posse, transformando-os em representações concretas de valores e atitudes, seja o olhar que se dirige a nós mesmos numa cobrança incessante pela correspondência àquilo que tornou-se desejável pelo social.
De todas as formas nosso olhar é marcado pelo excesso. Vivemos uma exacerbação do visual.
Façamos aqui uma breve digressão para lançarmos um breve olhar sobre uma questão que durante muito tempo fez parte do imaginário ocidental: os Sete Pecados Capitais. Ira, Gula, Inveja, Preguiça, Avareza, Luxúria e Vaidade. Todos marcados pelo signo do excesso. Cada qual ligado a um demônio e a um castigo em particular.
Contudo, um deles parece possuir uma característica singular frente aos demais: a Vaidade.
Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Soberba, Orgulho ou, simplesmente, Vaidade, o mais pernicioso, posto que público, dos grandes pecados.
Em si mesmo, os pecados capitais são total ou pelo menos parcialmente pessoais, ou seja, podem desenvolver-se no íntimo de cada um, muitas vezes sem manifestar-se externamente, até mesmo ignorados daqueles que cercam o pecador.
A Ira, mesmo que no calor do sangue clame pela ação não seria mais bem vivida no remoer dia após dia daquela raiva que nos consome internamente?
A Inveja, vivida secretamente, sem ser percebida, perto do objeto invejado.
A Luxúria, que toma tantas formas, mas que também pode bem ser saboreada nas fantasias antecipatórias de sua realização; do masturbador compulsivo ela é a força motriz das fantasias, bem como pode ser encontrada na solidão oculta de um voyeur.
O que dizer do prazer solitário do glutão que pede para que não haja mais ninguém para que sobre mais e mais comida para ele próprio.
O avarento e seu dinheiro, completos em sua solidão, cuja grande imagem não seria outro senão o velho e pão duro Tio Patinhas, nadando sozinho entre suas moedas, trancado em sua caixa forte. E quanto à Preguiça? Solitária em sua falta de ação, em sua passividade estéril, a decompor-se lentamente; a grande imagem da esterilidade.
Por fim, a Vaidade. Aqui não se admite a solidão, o meramente pessoal; ela existe e é vivida ao ser mostrada. É preciso que o outro veja, admire, até mesmo, quem sabe, que inveje.
Num dito de São João Crisóstomo: “ Dá muito trabalho guardar o que todos querem, mas não vale à pena guardar o que ninguém quer”. Hoje poderíamos até mesmo dizer: “ não vale à pena ter o que ninguém quer ver ”.
Da mesma forma, a Vaidade pode deixar seu próprio posto onde é soberana, para assumir um papel de coadjuvante entre seus asseclas. Ou será que não poderíamos dizer que o avarento se envaidece de suas posses, ou que o preguiçoso faz o mesmo ao ver muitos trabalharem enquanto ele descansa? A chave de tudo é o prazer.
Cada pecado, cada vício, mesmo tendo caminhando a seu lado a dor e a culpa, nos oferece sempre um prazer, um prazer íntimo, não comunicável totalmente, que nos faz sentir, mesmo que por breves momentos, até que sua tênue ilusão se desfaça, que somos únicos.
Não encontramos aqui também expresso um desejo amplamente cultuado: o desejo de ser único, especial ? Não é a posse de determinados objetos o grande diferenciador entre o valor social dos indivíduos? Aqui, mais do que nunca somos tocados pelas mãos da Vaidade. Doce Pecado.Eis, então, que a Vaidade é um pecado do olhar, que se dirige ao olhar, não meramente ao olhar do vaidoso, mas sim ao olhar do outro, daquele que contempla a beleza, a ostentação exibida por aquele que busca atrair-lhe o olhar.
Enquanto alguns pecados ferem nosso contato com o outro, nos isolam para que melhor possamos desfrutar de seus prazeres, a Vaidade exige o contato, o olhar de um outro que contempla. A Vaidade é, acima de tudo e dos demais pecados, um pecado social.
Talvez possamos retornar à pergunta feita anteriormente. Se nossa cultura, ou nós mesmos nos olhássemos no espelho hoje, o que ele nos mostraria?Será que nossa imagem refletida na limpidez do espelho se mostraria manchada, disforme? Será que desprovidos de todas as imagens e adereços ainda teríamos alguma individualidade a ser encarada no espelho?Nossos olhos tão ávidos pelo novo, percorrem todos os recantos.
Entregamo-nos a modismos que mudam a cada estação, como forma de corresponder melhor a um ideal social, ao olhar do Outro, num anseio incerto de ser notado, de nos destacarmos em meio à multidão.
Através da posse dos mais variados objetos, ganhamos uma visibilidade social, uma existência individual.
Estranhamente passamos a querer comprar aquilo que nos deveria ser mais natural: nossa própria existência individual.Paradoxalmente, quanto mais perseguimos esse ideal cambiável, mais nos despersonalizamos, nos entregamos a superficialidade, buscando preencher esse vazio que nos é legado pela cultura do consumo com a posse desses sedutores produtos que nos prometem uma completude que só fantasiosamente os acompanha.
A perda de nossa individualidade nos faz ansiar por essa realidade perdida que parece agora possível de ser encontrada em nossos “ sonhos de consumo ” para os quais nos dirigimos com renovada ansiedade, vivendo uma secreta frustração à cada posse, que irá tanto nos esvaziar quanto nos servir de combustível para o renascer da esperança de encontrar esse sentido de vida em algo que parece reluzir mais à frente.Em nome da vaidade das aparências, nos entregamos à superficialidade dos valores, abrindo mão da profundidade de nossa individualidade.
Renegado a um segundo plano, o Eu cede seu lugar à Persona, uma máscara, que por ser mais cambiável e flexível, melhor corresponde à nova ética social marcada pela inconstância, passando aos domínios da sombra.Nessa moderna forma de ser nos construímos como indivíduos desprovidos de uma real capacidade de consciência crítica. Se a inserção social se dá mediante a capacidade de consumo do indivíduo, poderíamos dizer que é ela que torna possível o ser tratado como cidadão. Podemos então imaginar toda a massa de excluídos sociais, que por razões econômicas se encontram afastados dessa possibilidade de existir socialmente.
O problema é que dessa forma criamos não somente a inexistência social, mas também a humana. Não somos capazes de enxergar o Outro primeiro por que sua existência estará ligada a sua capacidade de consumir, depois por que mesmo imerso nessa sociedade de consumo ele estará desprovido de substancialidade, será meramente uma sombra, coberta com um sem número de adereços que podem lhe ser dados, ou melhor vendidos, nos grandes centros de aquisição de existência, os Shoppings Centers.
Quem poderá negar que estilos de vida e formas de ser, mesmo aqueles pretensamente contrários a isso tudo, como a rebeldia, podem ser oferecidos como produtos, ou associados a estes, e divulgados com o uso da tecnologia, que os tornará amplamente desejáveis, senão necessários a cada um de nós?Contudo, desprovidos de nossa interioridade, como encarar a nós mesmos em nossa individualidade, e, acima de tudo, como realmente encarar o outro como indivíduo e não como uma imagem?
Aqui se insere também a própria possibilidade de construção de uma sociedade mais justa, já que tal anseio tão discutido atualmente não pode ser atingido sem que os indivíduos que compõem esse social possam enxergar a si mesmos e aos outros como iguais entre si.
Com discutir a idéia de direitos e deveres, que regula o funcionamento do social, se em nossa sociedade o poder financeiro é que determina até onde vai nosso direito e se realmente temos algum dever.
O conceito de individuação, presente na Psicologia Analítica, refere-se a um processo psíquico mediante o qual cada um de nós dar-se conta da própria interioridade, tornado a nós mesmos aquilo que realmente somos. No confronto com nossas projeções inconscientes, com nossa sombra, com o aspecto criativo do Inconsciente nos tornamos conscientes daquilo que realmente somos, o que nos torna também capazes de uma relação mais real com o outro, que agora não surgirá aos nossos olhos coberto de nossos próprios conteúdos projetados.
Capazes de encarar nossos desejos, sentimentos, intenções, passamos a poder encarar aqueles que nos cercam nesse todo social como indivíduos também portadores de desejos, sentimentos e intenções, em suma, portadores de uma existência, que deve ser respeitada em sua realidade.
A inconsciência desses fatos, de nossas disposições inconscientes é o que torna tão difícil o relacionamento entre as pessoas, e por que não dizer, entre as culturas.Esse confronto ético e moral é necessário para nossa construção como indivíduos e para a construção de uma sociedade também mais ética e justa.
Talvez conhecendo um pouco mais sobre nós mesmos possamos fugir a essa realidade despersonalizante e finalmente nos olharmos no espelho para contemplar algo mais que uma imagem distorcida.
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