sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Encontros Descartáveis

Será que a vida real é,pobre e fragmentada, e as pessoas são obrigadas a assistir e a consumir passivamente as imagens de tudo que lhes falta em sua existência subjetiva.
Essa perspectiva me remete ao termo "ficar" - rótulo informal para os encontros efêmeros e descartáveis, nos quais ver, ser visto e aparecer reduzem os casais a machos e fêmeas no cio.
Os pares são transitórios, os arranjos duram apenas algumas horas, talvez dias. Ou minutos. É o tempo do desejo saciado.
A disposição para a entrega, para o "outro" e para o amor vive (ou sobrevive) sob o impacto do exagero, da aceleração e da competitividade. A sexualidade é experimentada como mais um produto de consumo, fica disponível num mercado de troca que não vai além da dimensão ilusória.
São reflexos da globalização,"ficar" denuncia uma nova ordem das coisas e o inevitável entrelaçamento entre indivíduo e mundo. Uma espécie de voyeurismo, que ao mesmo tempo exibe e excita, restringe o potencial criativo dos verdadeiros encontros à mera satisfação carnal. "Ficar" torna-se o absolutismo literal, comprometendo a fusão com os outros sentidos. Impede a elaboração das fantasias indispensáveis à compreensão do que está por trás da banal conexão entre os pares e do que poderia ser apreciado, sentido e vivido como metáfora para novos e mais criativos estilos de relacionamento.
Não fosse pela aproximação anestesiada entre os pares, devido ao consumo abusivo de álcool e drogas (ou a combinação de ambos), também eu não teria ressalvas a essa fonte de aprendizado para a vida adulta. Mas não são muitos os efeitos positivos do "ficar". Ao contrário: gravidez indesejada, disseminação de DSTs e ausência de auto-reconhecimento por meio do "outro" são consequências frequentes - e às vezes desastrosas.
Sem medo da rejeição, os jovens perdem o sabor da frustração, já que bocas, curvas, seios, músculos e genitais estão sempre disponíveis. Rejeitar, do latim rejectare, significa fazer eco, repercutir, lançar para fora, rebater. E a falta dessa experiência inibe a capacidade de perceber que o "outro" também tem liberdade para escolher.
No cenário distorcido e nas imagens erotizadas da mídia vendem-se falsas necessidades e pseudo-desejos inspirados por corpos exuberantes e figuras estereotipadas de homens e mulheres esvaziados de sua interioridade, privados de individualidade e raízes.
Nessa exibição indiscriminada - que comercializa amor da mesma forma que produtos para higiene íntima - a alteridade não conta: só importa o que é manifesto e visto.
O afeto é desvalorizado porque o que vale mesmo é o desempenho. Essa constatação nos desafia em outdoors, na televisão, nas revistas e pode ser testemunhada nos consultórios.Que homens e mulheres se constroem a partir desse espetáculo? Tentar uma compreensão na mais pura tradição junguiana me leva a recorrer aos arquétipos do inconsciente coletivo (prefigurações de toda experiência humana que se manifesta em imagens), contrapondo- os às configurações modeladas pela cultura de massa (os estereótipos, ou seja, características que se referem a um determinado padrão generalizado e pouco original).
Se um está diretamente relacionado à multiplicidade de cada ser e, portanto, acessível a partir do cultivo de alma, o outro configura personagens fictícios e pasteurizados - modelos contemporâneos calcados em comportamentos coletivos que determinam personalidade, atitudes e modos de falar de muitos.
Estrutura-se assim um ego contaminado pela projeção dos diversos modelos da cultura de massa: o vazio interior, preenchido por imagens estereotipadas, permeia a aproximação mágica entre os pares. Significa dizer que, por trás dessa magia, escondem-se pessoas quase sempre inconscientes do modo como se comportam em relação aos próprios movimentos psíquicos, e essa inconsciência, além de distanciá-las de seus processos internos, é amplamente permeável às influências dos apelos coletivos vindos de fora.
O "ficar", então, se legitima. Homens e mulheres experimentam, por meio da projeção, aquilo que não são e desenvolvem a fobia da entrega, do compromisso e da rejeição, autorizando a ética do provisório - uma lógica que interpreta um conjunto de valores passageiros e tenta estabelecer entre eles alguma ordem que os justifique.
O não-envolvimento, efeito dessa projeção, funciona como vacina que os imuniza contra prováveis desencontros, que invariavelmente ocorrem quando as exigências de suas verdadeiras imagens anímicas projetadas não são mais atendidas. Inconscientes da própria essência, muitos optam por relacionamentos compulsivos e superficiais, que alternam a necessidade de amar e abandonar.
Em sua não-existência vazia, na qual um pode ser todas as coisas para o outro, vivem como verdadeiros camaleões, que se defendem dos predadores assumindo as características que o meio lhes impõe. E passam a reproduzir infinitamente tal comportamento até que uma pálida e sutil inquietação interna os desarme para um primeiro contato com suas demandas da alma. Buscar na mitologia o pano de fundo que dá sentido às várias formas de estar no mundo é premissa básica da psicologia arquetípica.
Associar histórias pessoais a mitos revela muito de nós, em várias etapas da vida.
O mito de Ísis-Osíris, por exemplo, nos oferece informações e possibilidades de reflexão a respeito do "ficar". Quando Osíris foi assassinado e desmembrado pelo irmão Seth, Ísis saiu à procura dos pedaços desse corpo amado, esquartejado e disperso pelo Egito, juntando todas as partes, exceto o órgão sexual, que foi substituído por um falo de ouro.
Osíris renasceu reconstituído em Amenti - o mundo subterrâneo análogo ao Hades grego, o lugar onde está a psique, a morada da alma.
E com o falo artesanalmente construído gerou Hórus - a possibilidade de germinar o novo não-efêmero, que facilita a cada ser viver de forma inteira uma relação harmoniosa de amor e cumplicidade.
Universo Inconsciente: Ísis é atribuído o "poder" do renascimento, que psicologicamente significa o reconhecimento de que a possibilidade de discriminação no mundo visível está intimamente relacionada ao contato com os mistérios do universo inconsciente.
Esse mito fala de mulheres que buscam nos encontros provisórios partes do Osíris despedaçado em cada homem com quem se relacionam; e de homens acreditando que o grande mistério de sua vida se restringe à potência do falo de ouro, por meio do qual são estabelecidas relações de poder e submissão.
Quanto maior a anestesia provocada por imagens coletivas estereotipadas e superficiais, menor a possibilidade do contato com o mundo interior e com a realidade multifacetada do "outro". Nos dois últimos versos do "Soneto da fidelidade", Vinicius de Moraes propõe uma saída criativa para o misterioso prazer dos verdadeiros encontros: "que não seja imortal, posto que é chama, mas seja infinito enquanto dure".

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

As Implicações geradas da expectativa de um casamento feliz

O casamento, apesar das várias transformações culturais e psicológicas da sociedade contemporânea, é um momento desejado por muitos. As mulheres em especial, costumam nutrir a fantasia de um encontro com um “príncipe encantado” que as desposará para viverem uma vida de contos de fada, em que serão “felizes para sempre”.
Essa ideia de que os casamentos constituem-se principalmente de felicidade é bastante complexa e gera expectativas que têm um forte peso no relacionamento do casal e no desenvolvimento psicológico dos cônjuges após as núpcias.
O que pode estar na base social e psicológica desse desejo e entusiasmo feminino por casar? Por que há uma idealização do casamento como um tempo de alegria e satisfação total de anseios? Objetivamos fazer algumas considerações acerca dessas questões, abordando possíveis implicações para a mulher que vivencia essa expectativa em seu caminho de individuação.
A sociedade patriarcal e as mulheres.Observamos em nossa sociedade patriarcal um movimento que prima pelo desenvolvimento exagerado de aspectos masculinos em detrimento dos femininos.
Assim,a objetividade a percepção,o pensamento, a iniciativa e a luta heroica são extremamente valorizados.
Já a intuição,o sentimento, a sensibilidade, a criatividade, a receptividade e o esforço paciente são aspectos geralmente relegados a um segundo plano, sendo mal compreendidos e utilizados de modo inadequado ou tendencioso.
Com a negação de algumas facetas do feminino,elas assumiram o papel que lhes foi dado, ou seja, adaptaram-se ao mundo dos homens, assimilando e desenvolvendo valores tipicamente masculinos.

A mulher cristã deve possuir as virtudes de Maria, a mãe de Jesus. E quais são esses atributos? Maria é obediente, pura e virginal, ou seja, é tão casta que concebeu sem o intercurso sexual, de modo imaculado. A mulher cristã, seguindo como pode o exemplo de Maria, só é autorizada à relação sexual com fins de reprodução da espécie, isto é, o sexo é santificado se estiver a serviço da procriação, livre de desejos da carne e dentro de um clima de castidade.
A maternidade, nessas condições, também é valorizada pelo patriarcado. A “mulher-Maria” é incapaz de lidar com aspectos do mundo prático e lógico, mostrando-se inábil para a competição do mundo masculino. 

No entanto,há o perigo das mulheres incorporarem totalmente essas características cultuadas por essa sociedade patriarcal,assumindo a identidade de um ser puro, frágil, desprotegido, incapaz de auto-suficiência, que precisa que o homem a ampare, a mulher cria para si mesma uma castração psíquica, que a alienará do mundo e a tornará realmente frágil e dependente, escondendo o seu real potencial.
O valor da mulher é dado por sua submissão, ou não, a essa imagem fabricada de acordo com os desejos de controle patriarcal do feminino.
O casamento na sociedade patriarcal ,associado ao modelo cristão de mulher, está o modelo cristão da família feliz, composto por Maria, José e Jesus, sempre retratados sob uma áurea de harmonia, paz e amor mútuo.

Constituir, através do casamento, essa família cristã feliz, é uma das missões que a mulher herdou do patriarcado. É seu dever sustentar seu casamento a qualquer preço, negando, se for necessário, o que lhe é importante.
 Muitas mulheres querem corresponder a essas expectativas da sociedade patriarcal em nome de uma ilusória e passageira sensação de bem-estar, segurança e aprovação. Por conta disso, vários casais aparentam ter um bom casamento, mas de fato, vivem uma paralisação do crescimento de um dos parceiros (ou de ambos).
Quando um cônjuge só se expressa em função do outro, se explica como reação ao outro, é sinal que o vínculo se distorceu para o lado da definição em função do outro e se tornou sufocante e paralisante e o casamento uma não-vida.

Todo ser humano caminha naturalmente em direção a uma individuação, processo de manifestação, na vida, do potencial inato e congênito da pessoa.
Esse movimento se dá através da busca de um indivíduo para achar seu próprio sentido e seu destino de vida.

 Essa busca é variada, mas sempre cheia de confrontos com sofrimentos e mortes simbólicas.A idéia reproduzida culturalmente de que o casamento é uma instituição feliz entra em choque com esses caminhos, pois não levam em consideração as necessidades de amadurecimento psíquico dos cônjuges.
O casamento tradicional, estruturado pelo patriarcado, que atribui papéis aos cônjuges sem considerar suas individualidades, deve ser criativamente renovado ou haverá um risco de regressão caótica nos relacionamentos conjugais. 

Um casamento não é confortável e harmonioso; antes é um lugar de individuação onde uma pessoa entre em atrito consigo mesma e com um parceiro, choca-se com ele no amor e na rejeição e desta forma aprende a conhecer a si próprio, o mundo, bem e mal, as alturas e as profundezas.
No casamento, a confrontação, regada de sofrimento, ódio, frustração, etc., é natural e saudável. A falta de oposições paralisa o desenvolvimento psicológico de cada um dos cônjuges e pode reduzir a relação conjugal ao seu componente de amizade e solidariedade. Muitos casamentos não dão certo porque os casais, apegando-se à idéia de “bem-estar” conjugal como última ordem, reprimem e excluem suas características mais importantes e essenciais sem perceber que quanto mais conflitos existirem.

Se quiser individuar através do casamento, precisa desfazer-se de suas fantasias de que depois da lua-de-mel, sua vida será maravilhosa e confrontar-se com a realidade de que ela é responsável pelo seu próprio caminhar e que encontrará muitos confrontos nesse percurso. Um aprofundamento da questão.
Ao tratar da questão do casamento, Jung (1981, p.195) lembra que, “Sempre que tratamos do relacionamento psíquico, pressupomos a consciência. Não existe nenhum relacionamento psíquico entre dois seres humanos se ambos se encontrarem em estado inconsciente”. Ele admite, no entanto, que há uma certa inconsciência parcial que não pode ser desconsiderada, pois é impossível se conhecer todo o inconsciente.

Quando uma mulher projeta em um homem seu animus, ocorre a paixão pelo parceiro ideal. Esse homem tem aparência de um Deus e a mulher, encantada, vai sendo seduzida por suas próprias fantasias românticas de que encontrou uma pessoa que vai realizar seus desejos, preencher seus anseios, proporcionar-lhe a verdadeira e infinita felicidade.
No momento da paixão, tudo é felicidade e se espera que ela seja eterna.Até quando uma pessoa puder corresponder a uma imagem projetada, não haverá propriamente um conflito. No entanto, esse estado idealizado e “lindo” precisa ser confrontado com a realidade e há que se realizar “a diferenciação entre a imagem interna e a pessoa externa” (Jung, 2003, p.25).

É por isso que as primeiras tentativas de resolver a questão são, geralmente, através de um esforço por enganar a si mesmo e fingir não ver o que está acontecendo (Jung, 2003), porém, para um casamento como caminho de individuação, é preciso maturidade para realizar o sacrifício da ilusão projetiva e, assim, tentar integrar seu animus à consciência. 
O desenvolvimento do vínculo conjugal dependerá da capacidade dos indivíduos de lidar com a frustração com que se deparam quando a imagem idealizada não corresponde mais ao comportamento do outro; e também dependerá da condição psicológica dos parceiros para reestruturarem o vínculo em bases mais reais.

Experimenta-se a sensação de liberdade ao se explorar a profundidade do próprio e verdadeiro ser quando se está ligado a alguém a quem se ama, o que estimula o desenvolvimento e a criatividade”. A mulher que deseja viver um bom casamento deve desvencilhar-se da expectativa do casamento de contos de fada e vivê-lo como um meio de individuação. Para tanto, precisa se libertar externa e internamente.
Ela deve procurar outras possibilidades de vida que não a previamente dada pela sociedade patriarcal. Deve também, reconhecer e integrar aspectos de seu inconsciente, o que só será possível através de dolorosas renúncias das suas fantasias infantis. Esse movimento não acontecerá de uma única vez, mas permeará todo o período do matrimônio, pois o caminho de auto-conhecimento é infinito; é uma constante busca.

Persona, Perda de Identidade e as Sociedades de Consumo

Como pode ser facilmente observado, cada sociedade é regida por normas, convenções, códigos éticos, legais ou morais, que tornam possível a convivência entre seus membros.
Em cada grupo ao qual pertencemos, seja a família, o trabalho, a escola, a igreja ou qualquer outro, somos chamados a assumir determinados papéis que são moldados segundo as regras que constituem cada um destes.
A esse fato psicológico que marca a interação e a influência do social na formação da personalidade, a Psicologia Analítica dará o nome de Persona.
A Persona é, portanto, uma máscara, uma possibilidade de nos relacionarmos socialmente, um compromisso com o restante do grupo, pelo qual, ao assumir-mos, nos reconhecemos como membros de um grupo, nos submetemos à valores que passam a perpassar nossas relações, tornando-as possíveis.
Contudo, como cada um de nós representa em si uma individualidade impossível de ser completamente reduzida ao coletivo, não é difícil perceber que o indivíduo consciente de si mesmo e que, portanto, advoga para si o domínio e a autoria de suas idéias, valores, sentimentos, em suma, de sua forma de ser, sentirá, mais cedo ou mais tarde, essa exigência social como algo arbitrário.
Daí que ao fazermos parte de um grupo e envergarmos essa máscara, damos origem também a uma tensão que surgirá do embate desses dois pólos opostos que devem conviver em nós daí por diante: o individual e o coletivo.
Nossa maior ou menor capacidade de interagirmos socialmente dependerá de quão bem desempenhamos nossa Persona, nossos papéis sociais.
A Persona trará gravada em si a marca dessa anuência do Eu, do Indivíduo que torna-se Sujeito, subjugado pelo Outro enquanto social, que ao mesmo tempo que o acolhe, o molda e o forma.
O social é, portanto, uma das faces daquilo que podemos chamar de Outro e que no contato com a personalidade individual podará suas arestas para que ela possa, mais tarde, frutificar em todas as suas potencialidades.
Normalmente, a Persona deveria reduzir-se a justamente isso, um compromisso com o social; contudo, algumas vezes, ela se torna tão forte que oprime e toma o lugar que deveria estar reservado ao Eu individual, reduzindo-o a coadjuvante. Podemos ver isso de maneira muito clara na forma como muitas vezes o papel social extrapola seu devido lugar e passa a ser exercido como um traço da própria personalidade individual.
Fato muito comum que acontece quando se utiliza, por exemplo, de vantagens ou poderes de um cargo, que deveriam restringir-se ao seu próprio exercício, como forma de obter vantagens pessoais.
Principalmente ao envolver a questão do poder, que confere maior status social a quem o possui, algumas pessoas tendem a como que incorporar características e direitos de uma função social a qual venham a exercer como algo que lhes seja próprio, como se essa máscara tivesse se grudado ao rosto, tornando-se não mais o que é, mas a própria face.
Esse traço da realidade social pode ver-se consolidado numa frase que passou a fazer parte do nosso imaginário: “ Você sabe com quem está falando ? ”Situações como esta, mostram um processo de identificação com a Persona através do qual incorporamos, em detrimento do Eu, características pertencentes a um papel social.
No conto “O espelho” , de Machado de Assis, temos um belo exemplo de como a identificação com a persona pode conduzir a uma perda da própria individualidade.Nele, um jovem e pobre rapaz, para júbilo da família e de alguns amigos, mas não de todos, já que o sucesso de uns nunca agrada a todos, é conduzido ao posto de Alferes.
Seguem-se à sua nomeação agrados e bajulações sem fim, de sorte que antes alguém comum, o jovem alcança tal notoriedade que deixa-se seduzir pelas vantagens de sua nova posição social.

Tanto foi o efeito da lisonja sobre sua alma que por fim sua identidade pessoal deu lugar unicamente ao alferes.
Onde antes havia um homem que, entre outras coisas, exercia uma patente, agora existia unicamente o exercício desta. A outra parte de sua própria natureza “ dispersou-se no ar e no passado ” .
No início, ainda receoso, desejava ser tratado sem cerimônias; contudo, os mimos e adulações dos quais era objeto terminaram por tocar-lhe a alma, fazendo com que o jovem deixasse de lado suas hesitações e usufruísse plenamente de sua nova e vantajosa condição.
De tal forma foi sua mudança que um velho espelho de sua tia não mais refletia sua figura. Tornara-se “sombra de sombra” .
Somente vestido com seu uniforme conseguia-se ver-se plenamente. Sua individualidade fora aniquilada por sua patente e tal verdade saltava-lhe aos olhos cada vez que mirava-se no espelho, e este, com sua límpida e sincera honestidade, de quem não possui nenhum traquejo para as suavizações que marcam os contatos sociais, recusava-se a mostra-lhe sua própria fisionomia quando despida de seus trajes oficiais.
Como se tragicamente dissesse: “ Sem eles, tu não és nada !”Vê-se como, por esse processo de identificação, a Persona deixa seu lugar característico de propiciadora de um bom relacionamento social, tornando-se a própria razão de uma existência social, enquanto o Eu torna-se sombra.
Seus trajes de Alferes tornaram-se mais do que o emblema de uma função social, não mais um mediador, mas sua possibilidade de existência dentro desse social. Ressalto aqui esse ponto por que deve-se entender que a exacerbação da Persona nem sempre é sentida como algo patológico pelo indivíduo.
Tornado mais importante, mais reconhecido, o sujeito ganha mais visibilidade social, novas formas de contato e de relações com o restante do grupo onde antes poderiam ser inexistentes.

No caso do alferes, sua patente atribuiu-lhe uma importância e influência onde antes lhe seria impossível.
A importância dessa mediação social, desses papéis que desempenhamos socialmente e que permitem nossa convivência e integração a um todo social, que Jung denominará de Persona, fica clara à medida que percebemos a cultura e os valores sociais como estruturadores da personalidade do indivíduo.
A cultura de uma sociedade, que se expressa em seus valores éticos, morais, nos seus códigos, leis, etc., molda desde cedo a personalidade de cada um de nós. Como viemos ao mundo em meio a um grupo social que nos antecedeu, somos criados segundo o molde desse grupo, passando a viver desde cedo segundo suas leis e costumes.
Mesmo que no futuro venhamos a assumir outros valores mediante o contato com grupos diferentes, nunca deixamos de levar conosco a marca de nossa cultura inicial, seja para segui-la, transforma-la ou renegá-la.Assim, é que construímos a nós mesmos mediante algo que nos antecede, que nos referencia como sujeitos.
É a partir do Outro e não de nós mesmos que nos tornamos sujeitos. Seja o Outro na forma da família, da escola, do grupo de amigos, ou de qualquer outro grupo social, é ao nos confrontarmos com ele, ao vivermos experiências junto a outros indivíduos, que construímos nossa própria personalidade.
Desta forma poderíamos nos perguntar voltando um pouco ao conto aludido acima. Se nos olhássemos hoje no espelho, se nossa cultura, nossa sociedade se olhasse hoje no espelho, o que veria?
Nossa sociedade capitalista e de consumo nos leva em busca de um ideal ao qual não conseguimos nunca corresponder, mas que perseguimos a todo custo, buscando adequar-nos à ele. Nossa melhor existência social depende de quanto mais parecermos adequados a esse modelo criado pelo mercado. Buscamos corresponder a um ideal de poder, beleza, de corpos perfeitos, de liberdade, de ausência de limites.
Queremos sempre mais, mesmo que esse mais não tenha nenhum sentido e quando conseguido seja descartado em nome de algo que agora se encontra mais a frente.
Impulsionados por um desejo de consumo que afeta até mesmo nossa linguagem – vejam a expressão “ Sonho de Consumo ” usada para designar algo que se deseja muito – somos conduzidos a uma forma de relação com o mundo marcada pelo imediatismo, pelo anseio pelo novo e pela despersonalização do Eu.Aqui, reencontramos nossa questão principal: a Persona.

Nessa busca constante por corresponder a esse ideal social alimentado continuamente pela mídia publicitária somos conduzidos a uma despersonalização, passando a nos importar-mos mais como parecemos ser do que com o que realmente somos.
O mercado passa a nos dizer como devemos ser, que atitudes devemos tomar, que idéias e valores devemos ostentar. No jogo de tensão entre individual e coletivo, o ideal passa a ser dado pelo coletivo, desvalorizando os traços individuais.
Passamos, assim, a cultuar a superficialidade das aparências, daquilo que parece ser em detrimento do que é.Contudo, o culto à aparência leva a um outro culto, o da imagem, que irá transmitir aos nossos olhos as facetas de um mundo de sonho e fantasia.

Aqui, nos encontramos embalados pelo avanço da tecnologia que nos legou os grande meios publicitários como a televisão e o cinema, capazes de atingir um grande número de pessoas, e de transmitir a todos o poder das imagens, de tudo aquilo que se dá ao nosso olhar.
Somos uma sociedade que prima pelo olhar, seja este olhar o olhar desejante que se dirige aos objetos, doravante potencializados em si por toda uma série de fantasias que se agregam à sua posse, transformando-os em representações concretas de valores e atitudes, seja o olhar que se dirige a nós mesmos numa cobrança incessante pela correspondência àquilo que tornou-se desejável pelo social.
De todas as formas nosso olhar é marcado pelo excesso. Vivemos uma exacerbação do visual.

Façamos aqui uma breve digressão para lançarmos um breve olhar sobre uma questão que durante muito tempo fez parte do imaginário ocidental: os Sete Pecados Capitais. Ira, Gula, Inveja, Preguiça, Avareza, Luxúria e Vaidade. Todos marcados pelo signo do excesso. Cada qual ligado a um demônio e a um castigo em particular.
Contudo, um deles parece possuir uma característica singular frente aos demais: a Vaidade.
Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Soberba, Orgulho ou, simplesmente, Vaidade, o mais pernicioso, posto que público, dos grandes pecados.

Em si mesmo, os pecados capitais são total ou pelo menos parcialmente pessoais, ou seja, podem desenvolver-se no íntimo de cada um, muitas vezes sem manifestar-se externamente, até mesmo ignorados daqueles que cercam o pecador.
A Ira, mesmo que no calor do sangue clame pela ação não seria mais bem vivida no remoer dia após dia daquela raiva que nos consome internamente?
A Inveja, vivida secretamente, sem ser percebida, perto do objeto invejado.
A Luxúria, que toma tantas formas, mas que também pode bem ser saboreada nas fantasias antecipatórias de sua realização; do masturbador compulsivo ela é a força motriz das fantasias, bem como pode ser encontrada na solidão oculta de um voyeur.
O que dizer do prazer solitário do glutão que pede para que não haja mais ninguém para que sobre mais e mais comida para ele próprio.
O avarento e seu dinheiro, completos em sua solidão, cuja grande imagem não seria outro senão o velho e pão duro Tio Patinhas, nadando sozinho entre suas moedas, trancado em sua caixa forte. E quanto à Preguiça? Solitária em sua falta de ação, em sua passividade estéril, a decompor-se lentamente; a grande imagem da esterilidade.
Por fim, a Vaidade. Aqui não se admite a solidão, o meramente pessoal; ela existe e é vivida ao ser mostrada. É preciso que o outro veja, admire, até mesmo, quem sabe, que inveje.
Num dito de São João Crisóstomo: “ Dá muito trabalho guardar o que todos querem, mas não vale à pena guardar o que ninguém quer”. Hoje poderíamos até mesmo dizer: “ não vale à pena ter o que ninguém quer ver ”.
Da mesma forma, a Vaidade pode deixar seu próprio posto onde é soberana, para assumir um papel de coadjuvante entre seus asseclas. Ou será que não poderíamos dizer que o avarento se envaidece de suas posses, ou que o preguiçoso faz o mesmo ao ver muitos trabalharem enquanto ele descansa? A chave de tudo é o prazer.
Cada pecado, cada vício, mesmo tendo caminhando a seu lado a dor e a culpa, nos oferece sempre um prazer, um prazer íntimo, não comunicável totalmente, que nos faz sentir, mesmo que por breves momentos, até que sua tênue ilusão se desfaça, que somos únicos.
Não encontramos aqui também expresso um desejo amplamente cultuado: o desejo de ser único, especial ? Não é a posse de determinados objetos o grande diferenciador entre o valor social dos indivíduos? Aqui, mais do que nunca somos tocados pelas mãos da Vaidade. Doce Pecado.Eis, então, que a Vaidade é um pecado do olhar, que se dirige ao olhar, não meramente ao olhar do vaidoso, mas sim ao olhar do outro, daquele que contempla a beleza, a ostentação exibida por aquele que busca atrair-lhe o olhar.
Enquanto alguns pecados ferem nosso contato com o outro, nos isolam para que melhor possamos desfrutar de seus prazeres, a Vaidade exige o contato, o olhar de um outro que contempla. A Vaidade é, acima de tudo e dos demais pecados, um pecado social.
Talvez possamos retornar à pergunta feita anteriormente. Se nossa cultura, ou nós mesmos nos olhássemos no espelho hoje, o que ele nos mostraria?Será que nossa imagem refletida na limpidez do espelho se mostraria manchada, disforme? Será que desprovidos de todas as imagens e adereços ainda teríamos alguma individualidade a ser encarada no espelho?Nossos olhos tão ávidos pelo novo, percorrem todos os recantos.
Entregamo-nos a modismos que mudam a cada estação, como forma de corresponder melhor a um ideal social, ao olhar do Outro, num anseio incerto de ser notado, de nos destacarmos em meio à multidão.

Através da posse dos mais variados objetos, ganhamos uma visibilidade social, uma existência individual.
Estranhamente passamos a querer comprar aquilo que nos deveria ser mais natural: nossa própria existência individual.Paradoxalmente, quanto mais perseguimos esse ideal cambiável, mais nos despersonalizamos, nos entregamos a superficialidade, buscando preencher esse vazio que nos é legado pela cultura do consumo com a posse desses sedutores produtos que nos prometem uma completude que só fantasiosamente os acompanha.
A perda de nossa individualidade nos faz ansiar por essa realidade perdida que parece agora possível de ser encontrada em nossos “ sonhos de consumo ” para os quais nos dirigimos com renovada ansiedade, vivendo uma secreta frustração à cada posse, que irá tanto nos esvaziar quanto nos servir de combustível para o renascer da esperança de encontrar esse sentido de vida em algo que parece reluzir mais à frente.Em nome da vaidade das aparências, nos entregamos à superficialidade dos valores, abrindo mão da profundidade de nossa individualidade.
Renegado a um segundo plano, o Eu cede seu lugar à Persona, uma máscara, que por ser mais cambiável e flexível, melhor corresponde à nova ética social marcada pela inconstância, passando aos domínios da sombra.Nessa moderna forma de ser nos construímos como indivíduos desprovidos de uma real capacidade de consciência crítica. Se a inserção social se dá mediante a capacidade de consumo do indivíduo, poderíamos dizer que é ela que torna possível o ser tratado como cidadão. Podemos então imaginar toda a massa de excluídos sociais, que por razões econômicas se encontram afastados dessa possibilidade de existir socialmente.
O problema é que dessa forma criamos não somente a inexistência social, mas também a humana. Não somos capazes de enxergar o Outro primeiro por que sua existência estará ligada a sua capacidade de consumir, depois por que mesmo imerso nessa sociedade de consumo ele estará desprovido de substancialidade, será meramente uma sombra, coberta com um sem número de adereços que podem lhe ser dados, ou melhor vendidos, nos grandes centros de aquisição de existência, os Shoppings Centers.
Quem poderá negar que estilos de vida e formas de ser, mesmo aqueles pretensamente contrários a isso tudo, como a rebeldia, podem ser oferecidos como produtos, ou associados a estes, e divulgados com o uso da tecnologia, que os tornará amplamente desejáveis, senão necessários a cada um de nós?Contudo, desprovidos de nossa interioridade, como encarar a nós mesmos em nossa individualidade, e, acima de tudo, como realmente encarar o outro como indivíduo e não como uma imagem?

Aqui se insere também a própria possibilidade de construção de uma sociedade mais justa, já que tal anseio tão discutido atualmente não pode ser atingido sem que os indivíduos que compõem esse social possam enxergar a si mesmos e aos outros como iguais entre si.
Com discutir a idéia de direitos e deveres, que regula o funcionamento do social, se em nossa sociedade o poder financeiro é que determina até onde vai nosso direito e se realmente temos algum dever.
O conceito de individuação, presente na Psicologia Analítica, refere-se a um processo psíquico mediante o qual cada um de nós dar-se conta da própria interioridade, tornado a nós mesmos aquilo que realmente somos. No confronto com nossas projeções inconscientes, com nossa sombra, com o aspecto criativo do Inconsciente nos tornamos conscientes daquilo que realmente somos, o que nos torna também capazes de uma relação mais real com o outro, que agora não surgirá aos nossos olhos coberto de nossos próprios conteúdos projetados.
Capazes de encarar nossos desejos, sentimentos, intenções, passamos a poder encarar aqueles que nos cercam nesse todo social como indivíduos também portadores de desejos, sentimentos e intenções, em suma, portadores de uma existência, que deve ser respeitada em sua realidade.

A inconsciência desses fatos, de nossas disposições inconscientes é o que torna tão difícil o relacionamento entre as pessoas, e por que não dizer, entre as culturas.Esse confronto ético e moral é necessário para nossa construção como indivíduos e para a construção de uma sociedade também mais ética e justa.
Talvez conhecendo um pouco mais sobre nós mesmos possamos fugir a essa realidade despersonalizante e finalmente nos olharmos no espelho para contemplar algo mais que uma imagem distorcida.

Histéria segundo Charcot

Ela está de volta. E agora, também neles.Apesar das inúmeras tentativas e estratégias dos discursos psiquiátricos e das neurociências em banir a histeria do cenário contemporâneo, obrigando-a a renomear-se como “transtornos somatoformes”, a histeria está de volta.
Aliás, ela nunca nos deixou, como bem disse Charcot, mestre da histeria: “O histérico sempre existiu. Em todos os lugares e em todos os tempos.”


A relação entre Charcot e a histeria é estreita e profunda: Foi ele que propôs considerar a histeria como um tipo clínico específico e dedicou-se a buscar e precisar toda a descrição de suas inúmeras modalidades.
A hipnose, para ele, é considerada uma neurose de essência histérica.Em seu pavilhão, onde fazia as suas famosas apresentações de casos, tinha à sua disposição um setor de fotografias, um serviço de otorrinolaringologia e de oftalmologia, e mesmo um museu de patologia com moldes em gesso de paralisias, contraturas apresentadas pelos pacientes histéricos.
Seu serviço na Salpetriére adquiriu fama internacional , atraindo médicos de diversas nacionalidades, dentre os quais, o próprio Freud.Sua clientela particular, numerosa e abastada, se espalhava pelos salões à espera de uma consulta. ( O Imperador Pedro II foi um de seus pacientes).
Foi Charcot que possibilitou a generalização da histeria para os dois sexos, permitindo assim a possibilidade de subjetivá-la como o fizeram Freud e Janet.

Há uma causalidade que é uma lesão dentro do modelo neurológico, só que não é uma lesão orgânica, e sim dinâmica.
Para Charcot,a teoria que vem atrás da clínica e não o contrário.
Ao considerar a hipótese da histeria se presentificar também entre os homens, faz oposição ao modelo predominante na época, a virada do século XIX /XX.
Um homem histérico é o avesso das leis constitutivas da sociedade” Briquet ( 1859).
Em 1881 Charcot começa a fazer apresentações de casos com pacientes homens histéricos, em 1885 publica seis casos de histeria masculina.
Nesta mesma época, surge tanto nos Estados Unidos como na Alemanha, uma doença chamada “Railway Spine" , isto é, depois de acidentes de trem, vários homens apresentavam paralisias e incapacidade para o trabalho e não se encontravam motivações orgânicas que justificassem este comportamento. Na Alemanha, esta doença recebeu o diagnóstico de neurose traumática, mas para Charcot, isto era histeria.

Afinal, quais são os sintomas da histeria nos homens?

1- Impotência para o trabalho: Aponta para algo que é característico da histeria, “uma queixa permanente” que se revela na clínica como “eu não consigo fazer, eu não consigo mudar”, “eu não tenho forças para trabalhar”. Uma queixa histérica porque não tem nada que impeça o sujeito de fazer algo, porém, ele não consegue. São os homens paralisados nos seus corpos.É importante saber diferenciar neste momento o que é sintoma histérico de uma simulação onde ele poderia se beneficiar do fato de não trabalhar. Charcot dizia que o médico que não sabe diferenciar uma simulação de uma verdadeira histeria é porquê é um péssimo médico.É preciso separar simulação e histeria. Ir contra o preconceito comum ( vigente na psiquiatria) de que o histérico/a histérica é um grande simulador. Não! Não é o sujeito que simula, é a histeria que simula, não é o sujeito histérico que simula estar doente, é a histeria que pode simular todo e qualquer tipo de doença.A questão da simulação estará muito presente no preconceito contra a histeria masculina, que se revela nas frases ordinárias do senso comum do tipo: “vai trabalhar, vagabundo”. Não é vagabundice, não é malandragem; é neurose, é histeria, histeria masculina.
2 -Outro sintoma da histeria masculina é a Errância: O que Charcot encontra é a mobilidade dos sintomas na histeria feminina ( exemplo clínico da paciente em buscas do gastro, cardiologista, ortopedista), um sintoma errante pelo corpo.

Na histeria feminina o sintoma se desloca por todo o corpo, as famosas mudanças de humor feminino, da alegria esfuziante à irritação instantanêa, da serenidade tranquila à melancólica tristeza. La Donna é mobile .
Isto se contrapõe a fixidez característica dos homens.A mobilidade da histeria masculina está em outro lugar: Se a mulher é móvel no sentido das suas emoções e dos seus sintomas, o homem é móvel no sentido geográfico, isto é, é aquele que vai errar pela vida afora, de cidade em cidade, de casa em casa, de país em país, de mulher em mulher.
Essa é a característica da errância masculina. Um homem sem pátria, se, lar, sem lugar fixo. É aquele que não fica quieto em nenhum lugar, não sossega, não repousa, está sempre em movimento. Aqui, a partir destas descrições da estrutura histérica nos homens, vamos encontrar semelhanças e analogias muito precisas com as que a analista junguiana Marie Louise Von-Franz faz a respeito das características do Arquétipo do Puer nos homens de idade adulta.
Von-Franz aponta no seu famoso livro “ Puer Aeternus – A Luta do Adulto contra o paraíso da infância”, dois traços fundamentais do homem dominado pela constelação arquetípica do Puer: a impossibilidade do trabalho e a errância do comportamento. Seguindo a direção apontada anteriormente por Jung, Von-Franz declara neste livro a famosa terapêutica recomendada aos Homens-Puer, ou seja, a cura para o Puer vêm pelo trabalho, pela possibilidade de estabelecer uma relação aceitável e criativa com a dimensão Senex do psiquismo.
Porém, quero me detêr na segundo traço fundamental que Von-Franz destaca na psicologia do Puer: a errância.
Para Jung, as figuras míticas dos heróis em geral são andarilhos e o caminhar errante é um símbolo do anseio, da busca incessante que nunca encontra seu objeto, da nostalgia da mãe que se perdeu.
Em “Símbolos de Transformação” , Jung considera que o objetivo secreto da caminhada errante é a mãe que se perdeu ( puer/complexo materno). Há uma parte da libido que se retira das tarefas heróicas e retorna incestuosamente no inconsciente em busca da mãe. Como esta libido é bloqueada pelo tabu do incesto, a libido não consegue atingir seu objetivo e fica , condenada, para sempre a caminhar errantemente em busca de um lugar nostálgico.
O puer é um errante por excelência, um sem lar, um sem morada fixa, anda de casa em casa, paísse, cidades, lugares, nenhum lugar o detém.Será a errância um sintoma do Puer? Penso na clínica onde esta errância assume a forma de errância do pensamento, um pensamento que não se fixa, que se desdobra em várias direções, nenhum ponto fixo, a errância no discurso.
Quero pensar na distração com uma das imagens deste puer errante. O sujeito distraído, o que não percebe, não se dá conta, não reparou, nem percebeu, sujeito preso aos seus devaneios, suas lembranças, suas reminiscências. , o famoso “ tô nem aí”.
Nas crianças, o famoso DDA ( distúrbio de déficit de atenção). Crianças distraídas ou histéricas? Como poder bem acolher a errãncia do pensamento na criança ao invés da indicação precipitada de ritalina por parte da psiquiatria? Seria a errância uma das imagens da histeria? A sensação de não-pertencimento? A distração histérica?A distração como uma das formas de presentificação da sombra? De ação do recalque? Me distraío para não saber de mim? Para não saber o que quero? Me distraío Para não saber da individuação?A distração como recusa não é um dos nomes da histeria. Um complexo dissociado condenado a a atuar sombriamente?Quero me detêr nestas duas imagens: Errância e Busca de um lugar nunca atingível.
Será D.Juan um exemplo de histeria masculina ou uma imagem arquetípica do Puer?D. Juan surge no imaginário ocidental tanto como mito como personagem literário.
O principal romance em torno deste personagem é atribuído ao dramaturgo espanhol Tirso de Molina num livro chamado “El Burlador de Sevilha” 1630 ( O Enganador de Sevilha) .
O personagem irá aparecer também em peças teatrais, poemas, romances libertinos, folhetins , e se destaca nesta produção ao redor do seu nome a obra “D.Juan” de Moliére, um clássico da literatura francesa como também a ópera de Mozart “Don Giovanni” de 1787.
A ópera narra que durante o apogeu da sua carreira sedutora e libertina, D.Juan seduz uma mulher de nobre família e mata seu pai.
Posteriormente, vendo uma estátua de pedra no túmulo do Comendador, pai de sua ex-amante, convida-a para jantar com ele, de modo irônico e arrogante.
A estátua de pedra surge de forma aterradora ao jantar do conquistador, que nunca se arrependeu de seus atos anteriores e é levado à danação eterna em meio a grandes chamas e grande estrondo.
Queria retomar o conceito de errância que Charcot localiza na histeria masculina e que assume a forma de mobilidade geográfica no homem histérico. Esta errância seria o correspondente masculino da errância do sintoma na mulher, a versatilidade e plasticidade do sintoma na mulher.
Proponho pensar a imagem do personagem D.Juan como um errante, um histérico errante ou um Puer e sua infinita errância. Mas que errância? Um errante da carne. D.Juan é um errante da carne, aquele que vai desfilando sua errância de mulher em mulher, errante nos corpos femininos, buscando sempre um novo lugar, um novo território, um novo corpo feminino a ser conquistado.
A errância do Puer em busca de aventuras.Porém a pergunta fundamental é: O que faz D.Juan com as mulheres?O mito nos revela que D.Juan é aquele que se relaciona com as mulheres de forma muito específica, ou seja, ela lida com as mulheres uma a uma, e este traço é de fundamental importância no mito; não são todas as mulheres ao mesmo tempo, D.Juan não é o homem que tem várias mulheres ao mesmo tempo, ele é aquele que as trata de modo único e particular, é uma a uma, quando está com uma mulher ele está com ela, quando está com outra é outra e assim sucessivamente, sem ponto de chegada.
Aqui outra característica marcante do mito, pois D.Juan é o homem que conta as mulheres, as conta individualmente e uma a uma. D.Juan possui uma lista onde anota o número de mulheres conquistadas.
Na peça “Don Giovanni” é seu criado e companheiro fiel Leporello que tem a função de anotar na lista, as novas mulheres arrebatadas por seu patrão. Isto é de vital importância para entender o mito e a subjetividade do Homem Puer D.Juan. Na lista de mulheres conquistadas por D.Juan constam: na Espanha 1003, 640 na Itália, 230 na Alemanha, 91 na Turquia, 100 na França. Entre estas mulheres nenhuma discriminação: temos camponesas, camareiras, burguesas, condessas, princesas, mulheres de todas as classes sociais, idades, não importando se são ricas ou pobres, belas ou feias, contanto que use saias, D.Juan sabe muito bem o que fazer com elas.
Volto a lembrar: não são todas de uma única vez ou todas ao mesmo tempo, para ele, é sempre as contando particularmente, uma a uma, uma mulher de cada vez.
Desta forma, D.Juan, o homem Puer/histérico, se diferencia de outros estilos arquetípicos masculinos de relação com as mulheres como por exemplo o da imagem do Sultão.
Quem é o Sultão?O Sultão representa um tipo de homem que guarda para si todas as mulheres do Reino impedindo o acesso de todos os outros homens a essas mulheres. Ele é aquele que goza e se satisfaz de todas as mulheres, não deixando que nenhum outro homem as possa a vir tocá-las.
Aqui uma característica fundamental do Sultão: Um homem que tem todas as mulheres, que guarda todas ela para si, a fantasia arquetípica do homem possuidor de todas as mulheres e todas ao mesmo tempo. O Sultão e seu Harém, o Harém como o lugar onde se guarda confinadas todas as mulheres possuídas pelo Sultão. Aqui, poderíamos estabelecer uma analogia: O homem Puer, histérico representado por D.Juan e o homem Senex, obsessivo, representado pelo Sultão.
Neste sentido, D.Juan é o oposto do Sultão. Como dissemos anteriormente, para D.Juan a contagem é essencial, ele enumera as suas conquistas e as anota na sua lista.
Porém, uma vez conquistada a prêsa, ela não mais lhe interessa como mulher, torna-se apenas mais um número na lista, e aqui assume seu real valor – um número na lista - , então, ele pode
Ter quantas mulheres ele quiser, pois o que importa é fazer a mulher entrar na sua lista, logo em cada mulher ele deixa uma marca e é essa marca que vai ser contada a posteriori, o famoso 100 3 na Espanha, 640 na Itália,e assim por diante.
Aqui a dimensão Puer do D.Juan: Sua dificuldade em estabelecer uma relação erótica com as mulheres, me refiro, ao arquétipo de Eros e sua função de relação.
O Puer sexualiza as mulheres mas não as erotiza. Eros pressupõe relacionamento com o Outro, função de relação com a alteridade, inauguração de um vínculo dialético com o Outro, porém, é neste momento que o Puer fracassa pois frente ao desafio erótico da relação, ele lança sua libido sempre para outras direções, outros lugares, outros corpos, novamente, a errância típica do Puer.
O Homem identificado com o arquétipo do Puer, na impossibilidade de estabelecer uma relação de função com a Anima, ele atua a Anima, ou seja, a literaliza através da projeção sobre todas as mulheres. Ao invés da inauguração de uma relação com a Anima, há uma literalização da Anima. Este é o fenômeno que Marie Louis-Von Franz irá chamar de “Don Juanismo”, como algo tipicamente constelado no psiquismo do homem Puer.
Assim, D.Juan toma as mulheres, conquista-as, para depois largá-las, não há interesse em permanecer junto a elas ou tê-las inteiramente para si. Neste sentido, D.Juan é um libertário que usa a máscara do libertino, pois ele conquista as mulheres e as libera para o mundo e para os outros homens.
No mito de D.Juan, não há espaço para o cíumes ou a rivalidade com outros homens. Ele não compete ou disputa a sua viralidade com os outros homens, fundamentalmente, ele é um adorador das mulheres.
Extremamente oposto ao estilo proposto por D.Juan, temos o Sultão, como imagem do Senex obsessivo, pois este conquista as mulheres para guardar, para trancar no Harém, para confinar numa torre de marfin onde ninguém pode alcançar, tocar, sequer olhar.
O obsessivo coloca a mulher no lugar de morto, a mortificação do feminino, a anulação do desejo sexual feminino.
Na tradição muçulmana, a Burca é o exemplo máximo disso, a mulher anda como se fosse numa torre de pano. O que o obsessivo-Senex conquista para reter e guardar para si, o Histérico Puer conquista para libertar e lançar ao mundo.
Dois estilos arquetípicos de relação com as mulheres.Para o Puer, a questão é pegar e largar, não há desejo em permanecer junto, apenas o tempo necessário a conquista, para ele “a fila tem que andar”, de uma para outra, de uma para outra, sem fim e sem descanso, diferente do homem Senex – sultão- pois este gosta do batalhão de mulheres a seu dispôr, ( pensar em família Harém? Mulher, filhas, netas, noras...).
Outra diferença: para o Puer a busca sempre incessante da novidades. O Puer é escravo da novidade, do inédito, do que ainda está por vir. Para o Senex, o vício da repetição, a necessidade da segurança, da certeza, o imperativo da garantia. Nenhuma aposta no desconhecido. Todas as mulheres estão no Harém.
Assim no mito de D.Juan, a busca incessante é sempre pela novidade de um corpo feminino. O objeto desejado do Puer D.Juan está sempre em outro lugar, sempre num outro espaço que não aquele que já foi conquistado.
D.Juan não busca o amor eterno, mas fazer a mulher se apaixonar por ele para que possa vir a transar com ela. Paixão como condição para a relação sexual para ser transformada depois em um outro número na lista. Incluída na lista, é hora de partir em busca de novas conquistas. Errância do Puer.
Queria destacar um outro ponto do mito: A relação de D.Juan com a máscara.
Na peça de Tirso de Molina, quando a mulher nobre prometida a uma Duque lhe pergunta: Quem pois sois vós? D.Juan responde: Quem sou eu? Um homem sem nome. No segundo ato volta a mesma pergunta só que desta vez feita pelo Rei, e o Rei agora pergunta ao casal, D.Juan e Isabela. Quem sois vós? D.Juan se aproveita do equívoco e responde: Quem quereis que seja? Um homem e uma mulher, ele respondeD.Juan é um homem sem nome.
E é por causa desta falta de nome, que ele se apega e faz uso de tantas máscaras. D.Juan não está agarrado a um nome que possa vir a lhe dar algum identidade ou identificação. Um nome como aquilo que localiza o sujeito para o outro e para o mundo. Quero propôr pensar o nome como Persona, como o que se revela e que apresenta o sujeito para os outros.
Não Ter um nome diz respeito a questão do pertencimento, a sensação de não pertencer a um lugar, já que o nome pode ser considerado como algo que localiza e oferece território para o sujeito.
Como O Puer é um errante , consequentemente, ele é sempre um estrangeiro, um homem sem lugar e sem destino, um homem sem nome.No mito, o fato de não ter um nome, é o que possibilita a D.Juan o uso de várias máscaras, ou seja, a permissão para ele poder ser vários outros que quiser, de poder se fazer passar por alguém que as mulheres desejem que fôsse.
A cada conquista, ele é um diferente, se ela gosta de D.Otávio ( marido de D.Anna), será D.Otávio, se ela gosta de camponês, se faz passar por um camponês, se desejas um nobre, agirás como um nobre, ... é esta mobilidade que caracteriza uma plasticidade e muito dos efeitos da sedução do homem D.Juan. Diga-me o que queres que te darei.
A irresistível maleabilidade e pluralidade criativa do arquétipo do Puer. Ser muitos e não ser nenhum ao mesmo tempo.D.Juan cria a máscara necessária para cada ocasião, se oferece para ser o que as mulheres querem que ele seja, a conquista se faz não por aquilo que ele é mas pelo que ele não é, ou seja, o que se apresenta sob a forma de máscara para o sujeito. D.Juan tem mil faces e não tem face alguma, a máscara é sempre a da conquista, é usada sempre para fazer a mulher se convencer de que ela é , pelo menos naquele momento, a que não entrará na lista.
Aqui, um ponto crucial do mito de D.Juan e seu fascínio sobre as mulheres. Por que as mulheres se deixam seduzir pelo homem D.Juan? Será sua retórica? Seu fascínio verbal? Atração sustentada no corpo? O que seduz as mulheres no D.Juan?A grande sedução consiste em querer ser aquela que irá colocar um ponto final na lista, isto é, a fantasia de ser a mulher que não entrará na lista ou que irá fazer com que ele desista de prosseguir com ela.
A sedução consiste em querer corrigir ou acabar com a carreira de amante das mulheres que caracteriza o D.Juan. Toda mulher quer ser a menos uma da lista e não uma a mais na lista. A grande pergunta é: O que irá fazer com que este homem desista de aumentar a as lista?Uma paciente minha falou algo recente sobre isto. Ela está saindo com um ator famoso, que segundo ela é lindíssimo e extremamente gentil e sedutor, e diz ela “é um tipo D.Juan” , porque não deixa de transar com nenhuma fã que aparece.
Ela está muito “a fim” dele , quer fica com ele, mas diz que “não vai para cama de jeito nenhum com ele”, porque sabe que se isto acontecer ela entrará na lista dele, então faz de tudo, para ser , pelo menos, esta menos uma que poderia terminar a lista do sedutor incorrigível, ou seja, ela prefere ficar fora da lista, não transar com ele, e ocupar um lugar de exceção ( este é o desejo feminino por excelência) do que ter um prazer rapidinho e ser colocada na lista e virar mais um número na contagem dele.
No mês de julho, na coluna de Ancelmo Goís no Jornal “O Globo”foi publicada a seguinte nota: “ O jogador Ronaldo, em tom de brincadeira, apresentava a modelo Raica, seu novo objeto de desejo, aos amigos Ricardo Mansur e Álvaro Garneiro. “ É a minha namorada”, dizia. Foi domingo à noite, na festa da revista Photo no café La Musique em São Paulo. A modelo tentava escapulir pela lateral: “Eu não quero ser mais uma na sua lista”. Raica embarca amanhã para Londres”.
De novo, a fantasia feminina em cena: preferir ser a menos uma do que ser a uma a mais na lista, ou seja, fundamentalmente ocupar um lugar de exceção no desejo de um homem.
Um homem na véspera da sua despedida de solteiro, diz: “Pois é, amanhã vou Ter que jogar a minha lista de mulheres fora. Acabou. Agora, é só com uma”.A despedida de solteiro é você se despedir da lista, é o mito de que acabou a lista.
Entramos num outro mito, o mito do casamento, o mito da totalidade, do encontro possível, da relação inequívoca com o parceiro, o sonho de completude.
Porém, este mito sempre será ameaçado pela presença do mito de D.Juan, da procura infinita, do corpo que nunca satisfaz completamente, da busca errante por um lugar de plenitude, da procura incessante por aquela que irá pôr um ponto final na lista, aquela que falta para completar o catálogo.
Novamente, temos que contar uma a uma: 91 na Turquia, 640 na Itália, 1003 na Espanha.
Finalizando, diríamos que D.Juan é um mito que diz respeito a uma forma dos homens se relacionarem com as mulheres, especificamente, no caso dos homens tomados pelo arquétipo do Puer, mas D.Juan tb é um mito feminino, pois são a elas que ele se dirige.
As mulheres identificadas com este mito tanto são aquelas que aceitam fazer parte da lista como também, por outro lado, são aquelas que querem estar fora da lista, querem ser a menos uma da lista, que não quer ser trancada no Harém, e sim poder ser desejada e escolhida por um homem. Ser aquela que pode vir a ser um lugar de escolha e de relação junto a um homem.
Não mais um número da contagem da lista, mas um lugar de desejo e de Eros frente a um homem.E para D.Juan? O que o aguarda?O mito aponta a resposta: A morte.
Somente ela é que irá pôr um ponto final na lista, D.Juan aperta a mão do Comendador, ele convida a morte para cear com ele. Nesta cena, o encontro com a morte e a aceitação do fim, o encontro do Puer com o caráter vital e definidor do Senex.
Ao aceitar morrer, D.Juan se livra do peso de ser escravo das mulheres, refém da presença feminina , aceita reconhecer que toda lista, algum dia, chega ao seu fim.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

O Poder do Afeto

A falta de tato para resolver conflitos e tratar de assuntos com pessoas que têm ideias opostas, tem sido responsável por muitos desentendimentos e dissabores nos relacionamentos. Por vezes, um problema que poderia ser facilmente resolvido, cria sérios rompimentos por causa da falta de jeito dos antagonistas.
O afeto, usado com sabedoria é uma ferramenta poderosa, mas pouco usada pela maioria dos indivíduos. O mais comum tem sido a violência, a agressividade, a intolerância.
Existem pessoas que não gostam de mostrar sua intimidade e se escondem sob um véu de sisudez, com ares de poucos amigos, na tentativa de evitar aproximações que deixem expostas suas fragilidades.
São como os caramujos, os tatus, as tartarugas e outros semelhantes. Ao se sentirem ameaçados, escondem-se em suas carapaças naturais, e não deixam à mostra nenhuma de suas partes vulneráveis.
A propósito, você já tentou alguma vez retirar, à força, de seu esconderijo, um desses animaizinhos? Seria uma tentativa fracassada, a menos que você não se importe em dilacerar o corpo do seu oponente. No caso da tartaruga, por exemplo, quanto mais você tentar, com violência, retirá-la do casco, mais ela irá se encolher para sobreviver. Mas, se você a colocar num lugar aconchegante, caloroso, que inspire confiança, ela sairá naturalmente.
Assim também acontece com os seres humanos. Se em vez da força se usar o afeto, o aconchego, a ternura, a pessoa naturalmente de desarma e se deixa envolver. Às vezes a pessoa chega prevenida contra tudo e contra todos e se desarma ao simples contato com um sorriso franco ou um abraço afetuoso. Mas, se ao invés disso encontra pessoas também predispostas à agressão, ao conflito, as coisas ficam ainda piores.
Como a convivência com outros indivíduos é uma realidade da qual não podemos fugir, precisamos aprender a lidar uns com os outros com sabedoria e sem desgastes.
A força nunca foi e nunca será a melhor alternativa, além de causar sérios prejuízos à vida de relação. Portanto, criar relacionamentos harmônicos é uma arte que precisa ser cultivada e levada a sério.
Mas para isso é preciso que pelo menos uma das partes o queira e o faça. E se uma das partes quiser, por mais que a outra esteja revestida de uma proteção semelhante à de um porco-espinho, ninguém sairá ferido e o relacionamento terá êxito.
Basta lembrar dessa regra bem simples, mas eficaz: em vez da força, o afeto. E tudo se resolve sem desgastes.
De tudo o que fazemos na vida ficam apenas algumas lições:
A certeza de que estamos todos em processo de aprendizagem...
A convicção de que precisamos uns dos outros...
A certeza de que não podemos deter o passo...
A confiança no poder de renovação do ser humano.
Portanto, devemos aproveitar as adversidades para cultivar virtudes.
Fazer dos tropeços um passo de dança.
Do medo um desafio.
Dos opositores, amigos.
E retirar, de todas as circunstâncias, lições para ser feliz.

Use-se

"Coitada, foi usada por aquele cafajeste". Ouvi essa frase na beira da praia, num papo que rolava no guarda-sol ao lado. Pelo visto a coitada em questão financiou algum malandro, ou serviu de degrau para um alpinista social, sei lá, só sei que ela havia sido usada no pior sentido, deu pra perceber pelo tom do comentário. Mas não fiquei com pena da coitada, seja ela quem for.
Não costumo ir atrás desta história de "foi usada". No que se refere a adultos, todo mundo sabe mais ou menos onde está se metendo, ninguém é totalmente inocente. Se nos usam, algum consentimento a gente deu, mesmo sem ter assinado procuração. E se estamos assim tão desfrutáveis para o uso alheio, seguramente é porque estamos nos usando pouco.
Se for este o caso, seguem sugestões para usar a si mesmo: comer, beber, dormir e transar, nossas quatro necessidades básicas, sempre com segurança,mas também sem esquecer que estamos aqui para nos divertir. Usar-se nada mais é do que reconhecer a si próprio como uma fonte de prazer.
Dançar sem medo de pagar mico, dizer o que pensa mesmo que isso contrarie as verdades estabelecidas, rir sem inibição - dane-se se aparecer a gengiva. Mas cuide da sua gengiva, cuide dos dentes, não se negligencie. Use seu médico, seu dentista, sua saúde.
Use-se para progredir na vida. Alguma coisa você já deve ter aprendido até aqui. Encoste-se na sua própria experiência e intuição, honre sua história de vida, seu currículo, e se ele não for tão atraente, incremente-o.
Use sua voz: marque entrevistas. Use sua simpatia: convença os outros. Use seus neurônios: pra todo o resto.
E este coração acomodado aí no peito? Use-o, ora bolas. Não fique protegendo-se de frustrações só porque seu grande amor da adolescência não deu certo. Ou porque seu casamento "até que a morte os separe" durou "apenas" 13 anos. Não enviuve de si mesmo, ninguém morreu.
Use-se para conseguir uma passagem para a Patagônia, use-se para fazer amigos, use-se para evoluir. Use seus olhos para ler, chorar, reter cenas vistas e vividas - a memória e a emoção vêm muito do olho. Use os ouvidos para escutar boa música, estímulos e o silêncio mais completo.Use as pernas para pedalar, escalar, levantar da cama, ir aonde quiser. Seus dedos para pedir carona, escrever poemas, apontar distâncias. Sua boca pra sorrir, sua barriga para gerar filhos, seus seios para amamentar, seus braços para trabalhar, sua alma para preencher-se, seu cérebro para não morrer em vida.
Use-se. Se você não fizer, algum engraçadinho o fará. E você virará assunto de beira de praia.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Aceitação (O Início da Transformação)

A primeira impressão que temos quando ouvimos ou pensamos em aceitar,
seja uma pessoa, um fato ou uma circunstância é de que estaremos nos
submetendo ou nos subjugando, desistindo de lutar, desistindo de mudar, sendo fracos.
De verdade se quisermos modificar qualquer aspecto da nossa vida,
das nossas relações ou de nós mesmos devemos começar aceitando.
Na verdade a aceitação é detentora de um poder transformador
que só quem já experimentou é que pode avaliar.
É realmente difícil aceitar perda material ou afetiva; uma situação de dificuldade
financeira; uma doença; uma "humilhação"; uma "traição", etc.
Mas a aceitação é um ato de força interior, sabedoria, e humildade,
já que existem inúmeras situações que não podemos mudar no momento em que acontecem.
E de maneira geral as pessoas são como são, dificilmente mudam,
na verdade não podemos contar com isso, quem muda somos nós por escolha e
vontade própria, portanto, se não houver aceitação,
o que estaremos fazendo é insensato, é insano.
Ser resistente a isso, brigar, revoltar-se, negar, deprimir,
desesperar, indignar-se, culpar ,culpar-se, etc,
são reações emocionais carregadas
de raiva; raiva do outro, raiva de si mesmo,
raiva da vida e a raiva destrói,desagrega.
A aceitação é uma força que desconhecemos porque somos condicionados á lutar,
a esbravejar, a brigar.
Aceitar não é desistir, nem tão pouco se resignar. Aceitar é estar
lúcido do momento presente como é, e se assim a vida se apresenta, assim deve ser, já que tudo está coordenado pela Lei da ação e reação.
No instante em que aceitamos, desmaterializamos situações que foram criadas por nós
("karma"), soluções surgem naturalmente através da intuição ou
fatos trazendo as respostas e as saídas para a situação,
tudo isso porque paramos de resistir a VIDA como ela se apresenta no momento.
A consciência de que tudo é movimento, nada é permanente,
faz com que a aceitação aconteça mais facilmente. A nossa tendência "natural"
é resistir, não aceitar, combater tudo o que nos contraria e o que nos gera sofrimento.
Dessa forma prolongamos a situação. Resistir só nos mantém presos
dentro da situação desconfortável, muitas vezes perpetuando
e tornando tudo mais complicado e pesado.
Quando não aceitamos nos tornamos amargos, revoltados,
frustrados, insatisfeitos, cheios de rancor e tristeza,
e esses padrões mentais/emocionais criam mais e mais dificuldades,
nunca trazem solução.
Aceitar é expandir a consciência e encontrar respostas, soluções, alívio.
Aceitar é o que nos leva à Fé.
É fundamental entender que aceitar não significa desistir....
Seguir adiante com otimismo, e ter muitos propósitos a serem
atingidos é nossa atitude saudável diante da vida.
Aceitar se refere ao momento presente, ao agora, no instante que você aceita,
ou em outras palavras, você entrega, novas idéias surgem para
prosseguir na direção desejada, saindo do sofrimento.