
Por identificação, podemos dizer introjeção do agressor, este desaparece como realidade externa e se torna intrapsíquico” .
A identificação ao agressor dá à vítima a sensação desesperada e aterrorizante de retomar nas próprias mãos as rédeas do acontecimento. Cessa parcialmente de ser uma vítima impotente.
Ao retomar nas mãos, abre para o curto circuito da culpa. A vítima fica “culpada” no lugar do agressor. Pode parecer às vezes estranho que as vítimas manifestem intensos sentimentos de culpa em relação aos fatos que sofreram, que as faz esconder estes fatos ou minimiza-los se tornando responsáveis por eles.
Não ouvi “é nestes momentos que lamentava ser forte, foi de minha culpa estar assim mal, porque estava gordo na época”. Bem evidentemente se estivesse menos pesado…
Identificadas ao agressor, as vítimas voltam geralmente a violência contra si mesmas com a desmoralização e desqualificaçã o constantes, condutas autodestrutivas, de automutilação, as toxicomanias, as tentativas de suicídio.
Podem também, por falta de ter podido contra-atacar um agressor onipotente, deslocar uma cólera legítima sobre outros inocentes, uma vez que as suas características lembram o agressor ou a agressão. Os menores reproduzem, muitas vezes, os atos de violência ou de desvio sexual que sofreram contra outras crianças, ou educadores, ou policiais, etc.
Que dizer do trajeto migratório de menores isolados no estrangeiro, e em especial crianças soldados! Quando se fala de menores isolados no estrangeiro (MIE), fala-se de vítimas!
Não se pode ser menor ou mesmo jovem maior, estar sozinho e sem dificuldade psíquica! Sem falar nos outros problemas sociais e administrativos que vêm incessantemente poluir a sua vida.
Uma das características das novas leis na França é ver esta passagem do dia dos 18 anos vivida como um terror pelo jovem acolhido em nosso país.
O que deveria ser um dia de alegria, um dia de entrada oficial na idade adulta, é vivido como o dia em que vai, mais uma vez “ser descartado”, como a repetição do drama do trajeto migratório.
Como compreender que um dia você é menor, no dia seguinte dos seus 18 anos você é maior, “muito maior na sua cabeça!”?
Parece-me absurdo crer, ou mesmo fingir crer que em termos psicológicos, haveria parâmetros tão distintos. A maturação traumática não toca todos das mesmas maneiras.
Mesmo retomando a imagem do fruto bicado por um pássaro, de Sandor Ferenczi, é necessário constatar que todos os frutos bicados não alteram (não amadurecem) na mesma velocidade.
Ser menor isolado é ser menor sem a sua família (independentemente dos matizes a trazer ao termo “família”) e no estrangeiro em relação ao seu país de origem.
Todas as noções reunidas são características de um trajeto migratório singular, talvez não sistematicamente traumático, mas sempre doloroso e particularmente trágico e insustentável para os doentes que encontro.
Objetam-me, às vezes, que todos não estão isolados, que têm família na França, que têm alguém a quem telefonam, que se pergunta se tudo aquilo não é manipulação para serem acolhidos pelo nosso maravilhoso sistema de proteção, etc.
Sim, mas uma família que, por qualquer razão que seja, da melhor (menos má) à pior, deixa a criança se virar sozinha com o sistema “de proteção à Infância”, não é uma família “que traumatiza”? É, no mínimo, uma família negligente no momento presente.
Às vezes “a negligência” pode estar vinculada à diferentes causas de todas as espécies de natureza: a guerra, na qual os pais morreram ou desapareceram; a falha no funcionamento da família que fez não ver, num dado momento, inconvenientes em que uma criança deixe o país sozinha, ou com alguém mais ou menos de confiança; o desaparecimento de membros da família, ou, como para este jovem Cingalês, recebido há alguns meses, os dois! Este jovem viu uma parte da sua numerosa família ser morta pela guerrilha e todo o resto (com exceção de duas crianças, dentre as quais, ele) pelo tsunami!
Ouço muitas vezes falar dessas “situações” como uma espécie de fatalidade ligada a um estado socioeconômico, mas se todos os pais dos países onde não se come suficiente, onde o trabalho não é bastante remunerador, enviassem seus filhos ao estrangeiro, seria uma calamidade!
Por definição para mim, são situações que empurram a se questionar sobre a natureza dessa família e sobre a vivência da criança nessa família, a globalização não justifica.
E seguidamente, o fato de que sejam estrangeiros não implica qualquer afastamento da família.
Certas crianças deixam a família dentro do território ou permanecem em família, mas as crianças ou adolescentes que recebo estão longe de sua família e de seu meio a distâncias que vão de 500 à 5000 Km, ou mesmo mais, e sabem que não há regresso possível sem colocar sua vida em risco!
Logo é possível, para mim indispensável, considerar que é sistematicamente traumático o trajeto migratório que conduz um jovem a um país distante do seu, países cuja existência, muitas vezes, não conhece antes de pôr o pé, e em que condições!
O fato de ser menor ou jovem põe estas pessoas em posição de vulnerabilidade que as expõe à inúmeros riscos e a instala numa situação onde não podem em nenhum caso ficar “tranquilos”, devendo incessantemente se proteger, desconfiar de tudo, assumir responsabilidades, nunca poder “relaxar”.
Além de todas as situações de maus tratos que se traduzem pela fuga da criança ou pelo projeto de se servir da criança porque se pensa que poderá enviar rendimentos do estrangeiro, há também as sevícias e torturas sofridas pelo pai, mãe, ou ambos e pelos menores, resumindo, todos os horrores que assombram o menor isolado na França.
O lugar da criança é constantemente ignorado no mundo moderno, sobre fundo de discursos solenes sobre o fim da escravidão, de respeito aos direitos da criança, de igualdade de possibilidades, de educação para todos, de democratização pela Internet e passo.
Cruzei muitas crianças que sofreram muito além por terem sido postas num lugar inconcebível, perfeitamente inimaginável: a de soldados.
Este drama impôs-se há uma dezena de anos quando chegaram as crianças de Serra Leoa. Certamente, tinham vivido o drama de terem sido recrutadas, utilizadas, mas, todos os que atendemos, tinham vivido a experiência “iniciadora” de terem se confrontado com a violência no que ela deve ter de mais absoluto.
Forçados que foram, sob ameaça de morte ou de assistir ao viole de sua mãe, irmãs, à amputação selvagem de braços, pernas de irmãos, de irmãs ou de vizinhos, o massacre de toda a família e passo, sabendo quanto as palavras podem fazer mal. Um dos jovens dentre os mais afetados tinha sido forçado a jogar futebol com a cabeça cortada de seu pai.
Semelhantes “espetáculos” transformam estes adolescentes em testemunhos impotentes. Qualquer reação, tão irrisória que seja, coloca-o imediatamente em perigo de morte, a inimaginável cólera que armazena embasa a violência e a identificação ao agressor.
Como imaginar que existem, hoje ainda, adultos capazes de dar este “exemplo”, capazes de pôr kalachnikovs em mãos de crianças fazendo-lhes crer que um gri-gri, uma picadura ou cigarro mágico irá torna-lo invencível?
Como estas crianças podem ainda admitir que o papel do adulto é proteger e dar as regras? Alguns tinham estado em combate aos 8 anos e tinham sido nomeados “sargentos-chefe” aos 11 anos porque os outros tinham 9 anos.
Os meios de comunicação social difundiram várias imagens de crianças em combate; não mostraram mais que olhares duros, mãos demasiado pequenas para os AK 47 ou os facões, vinhetas do pitoresco atroz, do que a época é ávida, mas é impressionante que se mostre apenas crianças negras.
Como não pensar nas crianças colombianas recrutadas pelas FARC? Não somente recordando estas imagens terríveis de um Hitler, que, saindo um momento de seu bunker e que não tem quase mais exércitos, belisca “paternalmente” a face de uma criança de Berlim em fogo para lhe fazer crer que poderia pelo seu combate salvar o III Reich do abismo.
Mas também pensando nas crianças usadas na Irlanda do Norte, há pouco, ou indignando-se face ao envio ao Iraque, desde 2003, de quinze menores britânicos, dos quais quatro meninas, que deviam combater apesar da ratificação pela Grã-Bretanha de um protocolo da O.N.U sobre crianças soldados.
Seja a criança inglesa, irlandesa, árabe, chechena ou africana, é antes uma criança. O seu mundo foi destruído e seu psiquismo contundido ao mesmo tempo.
Para mim, o psiquismo da criança é como a massa de modelar: quando é “jovem” um golpe esmaga-a, mas a plasticidade lhe permite TAMBÉM todas as reconstruções, o que não é mais possível com uma massa mais “idosa”.
Como contar?
Por que o trajeto migratório, no sentido próprio do termo de fuga, é da ordem do indizível?
Porque é, em grande medida, fonte de revitimização. Pode, com efeito, ter lugar, na maior parte das vezes, após comprometimentos e concessões. Como pagar o aduaneiro para passar na zona de embarque?
Como pagar o Marinheiro para que aceite deixar entrar num canto da embarcação, que é muito pouco confortável e tem muito a ver com a célula de onde se acaba de sair? Como pagar o motorista que fará os milhares de quilômetros que o separam da fronteira? Como ser aquele que terá, para pagar a sua fuga, dilapidado “o tesouro dos antepassados” acumulado durante anos? Como aceitar a ideia de deixar os seus companheiros de infortúnio menos fortes no deserto morrer sozinhos, ou deixar os mortos sem sepultura, corpos martirizados entregues aos animais selvagens?
Ficam à parte os casos, completamente excepcionais na prática, daqueles que chegam legalmente em solo francês e pedem em seguida asilo político - Rudolf Noureev é o exemplo emblemático desta exceção, mas não há trajeto linear.
É preciso renovar incessantemente “as diligências” e, às vezes à cada mudança de meio de transporte, à cada passagem de fronteira.
É necessário também, quando se está à bordo destes barcos que se lançam ao oceano, suportar ver alguns morrer a caminho e outros jogados ao mar pelo passador, é necessário se despejar a água de modo que o caixão não se vire e ver-se em frente de uma morte quase inelutável muitas vezes.
E ainda… seria necessário poder contar aquilo!!!!
Onde desapareceram?
O desaparecimento merece, ao ver as suas conseqüências, um lugar completamente específico no estudo do trajeto migratório. É o fantasma onipresente. O insustentável companheiro construtor de esperança, às vezes, abate em outros momentos qualquer possibilidade de reconstrução.
Por que se faz desaparecer alguém? Por que não se limitar a para-lo, encarcera-lo, ou mesmo executa-lo?
A resposta é provavelmente mais simples do que parece. O desaparecimento mina a sociedade no que ela tem de mais fundamental, os ritos de luto que seguem a morte oficial.
O desaparecimento impede qualquer trabalho de memória. Bloqueia o pensamento. Torna louco. Não é sem razão que, desde a ditadura argentina, as mulheres, mães, esposas, irmãs, jovens giram em torno da Praça de Maio em Buenos Aires, “as Loucas de Maio”.
Não tinham o direito de se manifestar, então andavam em torno da praça em frente à Casa Rosada. Contornavam a proibição com bandeirolas, todas com um lenço branco na cabeça. Queriam saber onde estavam seus filhos sequestrados e desaparecidos, vítimas para muitos do sinistro Plano Condor.
Não podiam suportar não saber.
O drama específico do desaparecimento liga-se logo à cena que comporta a prisão. No momento da prisão começa a sua morte social. A pessoa se torna inexistente.
Os atores desta cena são em geral as polícias civis, banalizadas. O nome não aparece mais nos registros, a justiça ignora onde possa estar, as autoridades também. O silêncio cai, a dúvida se insinua.
Se, após vários anos, os sobreviventes decidem: “Agora é certo, ele (ou ela) não retornará mais”, isto equivale, para eles, a ter de decidir da morte do parente, de companheira, marido. Após um terrível trabalho de investigação infrutífero, de inquéritos, de riscos, a impiedosa decisão de não aceitar mais as eventualidades da prisão ou da fuga cabe à família, à vítima. Se é forçado a fazer a ideia que a pessoa morreu. À vítima retorna a ideia de mata-lo.
Decidir que morreu, é também se dizer que não terá sepultura, ora quando não há sepultura toda a cidade, todo o país se torna uma sepultura possível.
Porque para começar, o trabalho de luto tem necessidade de provas, de certezas. É necessário que a morte tenha uma realidade de modo que o simbólico possa se manifestar. No desaparecimento, não há nada disto.
A função de grupo que cobre qualquer enterro também é apagada. O papel federativo, que incomoda por essência o poder, até das condolências, dos pêsames, ou qualquer outra forma que possa tomar, não pode ter lugar.
A máquina médico-administrativa não pode funcionar, o certificado médico de falecimento não pode ser emitido. A morte é devotada à morte. O desaparecimento tem como objetivo matar a morte, privar a sociedade dos seus ritos de luto, no que é “sociocida”.
O desaparecimento aplica-se igualmente ao “eventual” assassino dado que sem cadáver, não há assassino, ninguém sobre quem focalizar a sua cólera; que também pode recair sobre todos. E enquanto que num luto clássico, o tempo pode atenuar a dor e a memória, afastando progressivamente o passado enquanto a ausência se estrutura na lembrança, aqui, como na tortura, o mutismo passa a ser a regra, os símbolos primordiais são calados, mortos.
Para muitos de nossos atendidos, o desaparecimento do seu cônjuge, parentes, crianças lhes inflige uma dor constante e lancinante.
Não sabem se os reverão, um dia, se morreram ou não, se puderam fugir e sobreviver, ao preço de quais tribulações? Aquilo aumenta a culpa de estar vivo e em relativa segurança. Esperar, uma espera que se soma a muitas outras.
O desaparecimento tem também “uma vantagem” que outras formas de tortura não tem: goza legalmente de um privilégio não negligenciável que torna possível o processo penal dos responsáveis quando podem ser identificados e mesmo fazer eventualmente arrastar os ditadores em justiça: o procedimento permanece ativo enquanto o corpo não for reencontrado.
É apenas, a partir desta data, que começa a correr o prazo legal de prescrição; é, designadamente, o que permitiu tornar a vida menos suave à Augusto Pinochet.
Magro consolo, mas…
Outro drama que pode conduzir alguns a voltar ao país agressor apesar dos riscos: o falecimento de um pai, uma mãe ou um membro da família no país e que teria tido “menos sorte”.
Aqui também, como fazer o luto sem os rituais, sem as cerimônias, as obrigações? Como não ver reforçar ainda mais a culpa, a ideia metida pelo torturador na cabeça da vítima de que é nula, boa pra nada?

