sábado, 22 de maio de 2010

Aborto, soberania e mudez das mulheres

Um dos aspectos mais interessantes quando se discute o aborto hoje é o fato de que os principais participantes da discussão são homens. Os mesmos que nunca irão parir, jamais serão mães, não abortarão...
Eles falam, enquanto as mulheres fazem. Não devemos com isso supor que os homens não deveriam participar de tais discussões, mas perguntar por que a palavra dos homens se mostra prevalente nesta questão.
Devemos perguntar por que eles parecem mais interessados do que as imediatamente interessadas que continuam fazendo ou não seus abortos, tendo ou não seus filhos. A contradição entre o discurso dos homens e a ação praticada mulheres é o que precisa ser levada a sério. Ela pode ajudar a explicar porque o aborto não foi legalizado no Brasil e nem será em países onde as mulheres são, em sua maioria, pobres e desprovidas de poder. Por que as mulheres esperam caladas por todas as decisões políticas, inclusive às que as tocam diretamente?
A legalização do aborto não virá dos donos do poder e dos discursos que comandam e decidem sobre o corpo das mulheres. Elas, em silêncio, agem como se não fossem donas e senhoras de seus corpos.
E, de fato, não o são enquanto continuam na velha economia da sedução, da prostituição, da maternidade, da vida doméstica. Que as decisões sobre seus próprios corpos não pertença às mulheres é uma contradição que poucas podem avaliar. Não ter voz significa não pertencer à política. À medida que não participam e nem percebem o quanto estão alienadas da conversa, as mulheres perpetuam a injustiça que as trouxe até aqui. Em última instância, estão distantes da ética que envolve a decisão sobre seus direitos e sua própria vida.
Além disso, a questão do aborto sinaliza que a liberdade das mulheres - prisioneiras ancestrais de uma estrutura social que tem sua lógica - está sempre vigiada. Que nossa sociedade seja patriarcal significa bem mais do que dominação dos homens sobre as mulheres. Que estas sejam vítimas e aqueles algozes.
Mas que o patriarcado depende da ausência de democracia na qual os direitos das mulheres venham à luz.
O que realmente assusta quando se fala em aborto é o que virá com a fala das mulheres e que dia após dia é praticado em silêncio nas clínicas deste país. É o fato e a prática cotidiana que se realiza de modo soberano ainda que clandestino. A soberania daquele que emite uma opinião fundamentada em seu próprio nome e por sua própria voz é análoga à soberania que uma mulher pode ter sobre seu corpo.
Aquele que pode falar pode fazer porque cria, por meio de sua fala, valores, relações e consensos. Aquela que fala em seu próprio nome manifesta a possibilidade universal de que muitas a sigam ou simplesmente saiam da clandestinidade, única forma pela qual mulheres podem ser soberanas sobre seus próprios corpos sem correrem riscos na ordem moral e legal. É esta soberania das mulheres que assusta.
Por isso, ela permanece na clandestinidade.
A ausência histórica de autorização para a fala e, assim para o poder, é elemento fundador do lugar ocupado pelas mulheres na sociedade. A fala das mulheres causa angústia e temor na ordem. Que mulheres possam tomar suas decisões e sejam amparadas pela justiça é algo que uma sociedade que se construiu pela submissão das mulheres e pela superioridade dos homens não pode suportar sem uma ampla renovação dos costumes.
Hoje, as mulheres que possuem algum poder proveniente do dinheiro ou da liberdade sobre a própria vida, praticam o aborto soberanamente.
As que não tem poder algum – nem aquisitivo, nem intelectual, nem qualquer outro poder que garanta a autoconsciência quanto à pertença de seus corpos – são vítimas de uma sociedade que não prevê espaço para uma prática que deveria ser medida a partir da soberania da mulher sobre seu corpo e sua vida.
Homens desde sempre souberam disso e imperaram sobre seus próprios corpos e sobre todos os corpos que lhes prestaram serviços, também os corpos de seus empregados, de seus filhos e filhas.
Perder o exercício do poder sobre o corpo das mulheres é o que assusta homens de mentalidade arcaica hoje em dia. Assusta as instituições autoritárias.
Ter soberania sobre o próprio corpo talvez também não interesse a todas as mulheres, pois isso exige uma responsabilidade para a qual talvez não estejam individualmente preparadas.

sábado, 15 de maio de 2010

Dez Pecados do Psicólogo

1 Comer na frente do paciente:
Esporadicamente, no caso de uma sessão extra pedida pelo paciente e marcada no horário de uma refeição, por exemplo, a atitude é aceitável,é melhor oferecer apoio ao cliente comendo do que negar esse apoio por falta de horário. Mas necessidades pessoais como essa deveriam acontecer em outro contexto.

2. Atender ao telefone:
Emergências acontecem. O terapeuta pode ter de atender um paciente internado ou com risco de suicídio, por exemplo.
Nesse caso, o mais aconselhável é avisar antecipadamente ao paciente que isso pode acontecer e ser breve. Se existir essa possibilidade, o terapeuta deveria dizer que, em caráter excepcional, pode ser necessário atender a uma ligação urgente. Mas isso deve ser raro, não pode se tornar um hábito.
Atender a ligações de outro tipo é desaconselhável.Imagine quando se interrompe um comunicado do paciente de intenso conteúdo emocional bem no meio. A compreensão, ao ser fragmentada, perde todo o sentido. O paciente se sente deixado em segundo plano. Como é que se conserta isso depois?

3. Tomar notas em excesso:
 Quem interrompe para tomar notas perde o fio da meada. O pensamento é muito mais rápido do que a palavra escrita. E o paciente se sente perseguido.Anotações, quando ocorrem, podem ser feitas rapidamente por meio de palavras-chave, como lembretes para serem "recheados" com conteúdos nos intervalos entre sessões.
Quem trabalha frente a frente com alguém deve preservar o olhar e a atenção.

4.Atrasar-se para a sessão:
O terapeuta pode ter que ficar mais tempo com um paciente, o que acarretará atrasos nas sessões seguintes. Mas, de novo, isso não deve ser hábito. Quando o profissional estender a sessão desse cliente, ele saberá que os atrasos devem-se ao acolhimento para quem precisa, em contraposição à regra fria de que a sessão dura "X" minutos. Ele acredita que, quando a demora é grande, o terapeuta deve dar satisfação a quem aguarda.
O atraso é muito comprometedor. O analista deve sempre aguardar o paciente, para que ele tenha uma sensação de constância dentro da instabilidade afetiva que o traz ao tratamento. Como interpretar atrasos constantes de um paciente, que podem ter mil acepções, se o analista também se atrasa?

5.Ser pouco acessível:
Segundo os especialistas, deve haver um meio-termo em relação a esse item. Por um lado, não é recomendável que o cliente desenvolva uma extrema dependência do terapeuta. Um paciente carente pode querer estar ligado 24 horas ao analista, como se fosse um bebê em simbiose com a mãe.
Por outro lado, estar inteiramente fora do alcance, especialmente em situações graves, não é aconselhável. O terapeuta não pode ser impossível nem dar a impressão de disponibilidade total, como se fosse só do paciente -o que é um desejo frequente e compreensível.
 Psicólogos devem colocar esses limites assim que começam a atender uma pessoa.

6.Olhar demais para o relógio:
O terapeuta precisa controlar o tempo. Mas olhar demais para o relógio pode dar a impressão de que ele tem pressa para terminar a consulta.
O terapeuta ganha uma noção de tempo automática. Mas ele não é máquina. Um recurso é ter um relógio num lugar discreto e consultá-lo sem caráter ostensivo. Já se isso ocorrer com um paciente específico, o terapeuta deve se perguntar o que está acontecendo na relação com ele.

7.Bocejar demais:
Bocejar não é o problema: como qualquer pessoa, o terapeuta pode estar cansado em um determinado dia. A questão é quando a atitude se torna um hábito, que costuma ser interpretado pelo paciente como falta de interesse.
Mas, se o terapeuta não encontrar explicação para o sono e ele ocorrer sempre com um paciente específico, esse fato pode se tornar uma informação importante na terapia.O cliente pode ter um padrão de comportamento que gera tédio também fora do consultório.Mas essa atitude de bocejar deve ser contida, pois a terapia requer foco e concentração.
Já dormir é tido como inadmissível.

8.Contato físico excessivo:

No Brasil, costuma ser aceito um maior contato físico ao cumprimentar alguém. Na nossa cultura, é normal dar um beijinho ou um ligeiro abraço. O terapeuta pode fazer isso com leveza e rapidez, sem tom erótico.
Mas deve haver limites. Por ser uma relação facilmente confundida com uma relação afetiva, um contato físico exacerbado pode atingir fragilidades dos clientes. Trata-se de um abuso da relação desigual que se instala no contrato terapêutico: o cliente tem problemas e o terapeuta tem soluções.
Muitas terapias psicológicas usam o contato físico no tratamento, mas não a psicanálise. Para essa corrente, o excessivo contato físico favorece a dependência emocional do paciente, dificultando seu crescimento.Vale lembrar que o contato sexual entre terapeuta e cliente não é adequado em nenhum caso.

9. Falar demais sobre si mesmo:
A sessão é do cliente, e não do terapeuta. No entanto, temos bagagem, história de vida e, em situações específicas, ela pode ser usada em benefício da terapia.
Mas, se o terapeuta sente falta de amigos, não deve buscá-los nos clientes. "O analista pode estar carente, pois é de carne e osso. Nesse caso, deve redobrar a atenção para não misturar sua vida à do paciente. Muitos gostariam de ser amigos do analista, mas isso desvirtua o foco da terapia.
A chave é ver se há propósito terapêutico.Qualquer fala sobre si mesmo que não tenha um propósito terapêutico é uma fala em demasia.
Se o paciente tem o terapeuta como modelo e segue seus conselhos cegamente ou o imita, expor a vida pessoal é ainda mais danoso.

10.Vestir-se inadequadamente:
Como qualquer pessoa, o terapeuta tem seu estilo e não precisa abrir mão dele no ambiente profissional.
De fato, há limites. Deixar à vista longas extensões de pele não é desejável: bermudas, camisas abertas, decotes pronunciados ou saias tão curtas que mostrem a roupa de baixo são absolutamente inapropriados.
O foco não deve ser o terapeuta, inclusive no quesito vestimenta.Não é necessário vir de batina, mas o oposto faz com que o foco de atenção se desvie do paciente para o analista. E é o paciente que veio mostrar seus conteúdos.

sábado, 8 de maio de 2010

Propaganda de alimentos dirigida a crianças

O Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da Universidade de Brasília publicou o estudo Monitoramento de propaganda de alimentos visando à prática d alimentação saudável.
Depois de analisarem os comerciais veiculados em mais de 4 mil horas de propaganda, concluíram que as propagandas de produtos ricos em gordura, açúcar e sal são mais comuns, assim como de alimentos claramente relacionados ao aumento de sobrepeso e obesidade.
Os pesquisadores gravaram 4.160 horas de programação de quatro canais de TV, sendo dois abertos (Globo e SBT) e dois por assinatura voltados especificamente para o público infantil (Cartoon Network e Discovery Kids).
Foram escolhidos quatro dias úteis e um final de semana, sempre entre as 6h30 e as 22h30.
O estudo constatou que dois terços das propagandas de alimentos veiculadas pelas TVs tinham como público-alvo crianças e adolescentes. E 54% dos comerciais foram ao ar entre 10h30 e 18h30, período em que, comprovadamente, há um grande público infantil diante das TVs.
As análises mostraram que, entre todas as propagandas de alimentos, 18,4% são de fastfood.
Para os pesquisadores, essa massificação da publicidade de alimentos que atraem o público infantil pretende fidelizar precocemente pequenos consumidores.
Do total, na média das quatro emissoras, 19% do tempo foram destinados à publicidade e, destes, 17,6%, à propaganda de alimentos ou de eventos patrocinados por alimentos.
Entre os canais, porém, houve uma variação enorme de comerciais de alimentos.
O Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) determina que as peças publicitárias dirigidas ao público jovem não devem:

* Associar crianças e adolescentes a situações ilegais, perigosas ou socialmente condenáveis;
* Provocar situações de constrangimento ou de medo com o propósito de impingir o consumo;
* Empregar crianças e adolescentes como modelos recomendando ou sugerindo o consumo(Ex: "Faça como eu use...");
*Provocar discriminação, em particular dos que, por algum motivo, não sejam consumidores do produto;
*Utilizar formato jornalístico;
*Apregoar como se fossem só suas características comuns a produtos equivalentes.

Devem sempre:
*Respeitar a dignidade, ingenuidade, credulidade, inexperiência e sentimento de lealdade do público-alvo;
*Dar atenção às características psicológicas do público-alvo e seu discernimento limitado;
*Evitar eventuais distorções psicológicas nos modelos publicitários e no público-alvo.

Anúncios de alimentos, refrigerantes, sucos e outros não devem:
*encorajar consumo excessivo;
*Menosprezar a importância da alimentação saudável;
*Apresentar os produtos como substitutos das refeições;
*Empregar apelos de consumo ligados a status, êxito social e sexual, etc;
*Desmerecer o papel dos pais e educadores como orientadores de hábitos alimentares saudáveis.

sábado, 1 de maio de 2010

Violência escolar explode nas cidades

Alunos agredidos, livros roubados, meninas assediadas,funcionários humilhados, ofensas e agressões entre professores e alunos são recorrentes nas escolas do Brasil, esse fenômeno não atinge só o nosso país estima-se que um em cada doze alunos no mundo sofra com esse tipo de problema.
No Brasil, 84% dos 12 mil alunos ouvidos em seis estados classificaram seus colégios como "violentos", enquanto cerca de 70% deles disseram ter sido vítimas de violência dentro das instituições de ensino.
Em Portugal, o clima é menos preocupante que no Brasil, Estados Unidos, França e Alemanha.
Mas ao contrário do que se pensa, é um erro pensar que a violência afeta apenas alunos das periferias e das áreas mais carentes das grandes cidades.
Levantamento realizado em São Paulo revelou que quatro em cada dez escolas com melhor desempenho na rede pública estadual de ensino já registraram casos de violência.
Não muito diferente do que ocorre com aquelas escolas onde as notas são piores.
Um das medidas adotadas pelo Sistema de Proteção Escolar foi criar um sistema de registro de ocorrências, para subsidiar com estatísticas confiáveis os estudos e as ações não governamentais.
Em Belo Horizonte, um levantamento do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da Universidade Federal de Minas Gerais constatou que a escola vem perdendo seu caráter transformador e seu poder de antídoto da violência, e passando a sofrer vandalismo e depredações. Dos alunos entrevistados, 67,5% já viram ou ouviram falar de pessoas quebrando janelas, fazendo arruaças ou tendo comportamento de desordem; 27,8% testemunharam ou ficaram sabendo da presença de pessoas armadas dentro da escola; 51,9% observaram o consumo de drogas; e 71% afirmaram ter sido vítimas de violência em suas escolas, sendo 15,8% de roubos, 36,9% de furtos e 18,3% de agressões físicas.

Quando ocorre violência na escola, e preciso tomar atitudes imediatas, tais como:
- Aluno armado na escola: Só converse com o aluno se sentir que o diálogo ainda é possível.Peça à direção que chame a polícia, cujo dever é abrir processo no juizado da infância e da juventude.
- Ameaça ao professor: A vítima deve registrar a ocorrência na delegacia de polícia, pedir a intervenção do conselho tutelar, conversar com os pais e a comunidade.Em último caso, pode ser inevitável solicitar a transferência do aluno.
- Agressão: Informe a direção da escola e a diretoria regional de ensino, registre a ocorrência na polícia, de preferência acompanhado pelo diretor da escola. Se o agressor for menor de 12 anos, é obrigatória a convocação de representante do conselho tutelar.
- Arrombamento e furtos: Dar queixa na polícia é obrigatório.Suspeita de abuso em casa: é obrigação da escola comunicar o conselho tutelar.O mesmo vale para ausência prolongada do estudante.