sábado, 15 de novembro de 2014

Reiki e a Ciência


A evolução da tecnologia e o recente despertar da comunidade científica para um conceito mais abrangente de saúde — a meta é viver bem, e não somente debelar males — fizeram o reiki ganhar a atenção dos pesquisadores. Na americana Universidade de Virginia, por exemplo, uma revisão sobre sua influência na contenção da dor em pacientes com câncer ressaltou os resultados positivos. "São necessários levantamentos adicionais para confirmar os achados, mas a princípio o reiki foi bastante eficiente na redução do incômodo", concluíram os autores.

Mas será que ele ajudaria a combater o tumor em si? Segundo um trabalho do psicobiólogo Ricardo Monezi, da Universidade Federal de São Paulo, provavelmente sim. Ele aplicou o reiki em ratos e, na sequência, analisou suas células de defesa. "Em comparação com o grupo de controle, esses animais apresentaram um sistema imune mais agressivo contra a enfermidade. E nem precisamos falar que bichos não acreditam em reiki", ironiza. Verdade que o nosso organismo não é idêntico ao de roedores, contudo está aí um indicativo do poder da imposição de mãos.

O simples fato de crer que determinado procedimento acarretará uma melhora na saúde já leva o corpo a ter reações positivas. Por isso mesmo, em estudos sobre reiki com seres humanos, o desafio é justamente diferenciar o chamado efeito placebo de resultados eais. Em outras palavras, verificar se a prática incrementa a saúde por si só ou se um achado favorável é fruto apenas da força da imaginação.

Com isso na cabeça, Ricardo Monezi decidiu testar o verdadeiro potencial da técnica no alívio da tensão. Ele separou vinte e cinco idosos estressados para serem cuidados por terapeutas especializados em reiki. Outros vinte e cinco senhores na mesma situação receberiam, digamos, uma terapia falsa — os aplicadores simulavam os gestos e as posições das mãos, mas não haviam sido treinados e nem conheciam direito o reiki. Detalhe: nenhum dos participantes sabia da diferença entre os grupos. "Essa precaução evita que o placebo interfira nos dados encontrados, já que ambas as turmas imaginam estar recebendo reiki, quando somente uma está recebendo para valer", arremata Monezi.

Depois de oito sessões, Monezi analisou as estatísticas. Parece incrível, mas, embora todos os voluntários tenham relaxado, aqueles tratados por mestres de reiki relataram uma tranquilidade maior e duradoura. Além disso, os músculos da testa desse pessoal ficaram menos rígidos, outro sinal de que o nervosismo foi aplacado. Aliás, apesar de a avaliação ter sido realizada em indivíduos na terceira idade, é provável que jovens apresentem resultados similares.

Apoiados em uma metodologia parecida com essa, investigadores da Universidade de Granada, na Espanha, notaram que sujeitos hipertensos atenuaram o quadro com sessões regulares de reiki. "Também há trabalhos com diabete, epilepsia, depressão...", conta Monezi. "É óbvio que precisamos de mais informações, porém, ao que tudo indica, a técnica provoca bem-estar em vários níveis", defende. A médica Sandra Caires Serrano, diretora do Serviço de Cuidados Paliativos do Hospital A.C. Camargo, na capital paulista, completa: "O que ainda não se conhece é a forma como isso ocorre".
Certas teorias mencionam uma energia eletromagnética que seria canalizada pelos terapeutas. Outras sugerem que a física quântica estaria envolvida nesse fenômeno. Independentemente disso, o fato é que alguns pontos-chave do corpo, onde os cuidadores devem colocar as mãos durante uma sessão de reiki — os chacras —, coincidem com importantes glândulas. E talvez, só talvez, a energia atue nesses órgãos, ocasionando um equilíbrio geral.
Alternativa ou integrativa? 
O sucesso do reiki não justifica, sob nenhuma hipótese, seu uso no lugar da medicina tradicional. "O ideal é integrá-lo com abordagens convencionais", reforça Plínio Cutait, coordenador do Núcleo de Cuidados Integrativos do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Caso contrário, você corre o risco de não receber o tratamento adequado para um problema e, então, complicar-se sem necessidade. E isso, parece claro para todos, também está comprovado pela ciência.
Energia e religião 
Usar as mãos para emitir energia positiva não é um conceito exclusivo do reiki, que é uma terapia. A bênção cristã, o passe espírita e o johrei, entre outros rituais religiosos, também se valem desse preceito, apesar de terem filosofias bem diferentes. Há até quem especule que os milagres de Jesus seriam resultado de uma habilidade única de controlar a energia do Universo. Mas, entre tantas práticas com esse princípio, o reiki é uma das mais estudadas pela ciência.

sábado, 1 de novembro de 2014

Comportamento em sites de paquera



       
  
Onde encontrar o amor? "Numa fila de cinema, numa esquina ou numa mesa de bar", cantaria Frejat. Mas além dos points típicos de paquera, uma busca vem aumentando gradativamente, principalmente no Brasil: a internet. A possibilidade de encontrar a alma gêmea, a cara-metade, a outra metade da laranja ou simplesmente um caso passageiro se ampliou na rede mundial de computadores. Para citar um exemplo, de acordo com o site SocialBakers, especializado em estatísticas sobre o Facebook, maior rede social do mundo com quase 700 milhões de usuários, o país que teve o maior número de adesões ao Facebook em maio foi o Brasil, com mais de 1,94 milhões de novos usuários, representando, neste curto espaço de tempo, um crescimento de 11,37%, chegando a um total de 19,09 milhões de usuários nesta rede de relacionamento. O Brasil ainda representa menos de 3% do total de usuários do Facebook, mas a rede ganha cada vez internautas brasileiros e fica mais próximo do seu principal concorrente, De acordo com o site de estatísticas Alexa.com, que mede e estabelece um ranking de páginas na web por região e números de acesso, o Facebook está em terceiro lugar na lista dos sites mais acessados no país.
Com foco no universo dessas redes sociais que não param de crescer, a professora e coordenadora de Jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Cristiane Henriques Costa, desenvolveu o projeto "P@r Perfeito – Exploração do universo virtual e das novas estratégias narrativas em mídias digitais". O estudo faz uso do método denominado netnografia, como tem sido chamado o ramo da etnografia que analisa o comportamento de indivíduos na internet e que consiste na inserção do pesquisador no ambiente do grupo investigado e exige uma combinação imersiva entre participação e observação cultural com relação às comunidades pesquisadas. O pesquisador deve ser reconhecido como um membro da cultura estudada.
Para realizar um levantamento abrangente deste universo, a pesquisadora infiltrou 25 alunos da Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ com perfis falsos entre os mais diversos sites de paquera. O objetivo é fazer uma grande reportagem sobre a busca do amor no universo virtual. "Por ser um campo relativamente novo, é possível perceber o desenvolvimento de uma linguagem própria, o tipo de discurso, quase sempre autoenaltecedor por parte do locutor, a grande importância da imagem. Tudo isso se torna objeto de estudo. Pensar netnograficamente é entender como o discurso humano se comporta na cibercultura e nas comunidades virtuais, e as diversas possibilidades proporcionadas pela rede", explica a pesquisadora. O projeto tem apoio da FAPERJ por meio do programa de Auxílio Básico à Pesquisa (APQ 1).
Além de se passar por pessoas interessadas em relacionamentos nos mais diversos sites de paquera, a equipe também analisa os perfis e as fotos dos usuários. "Nem tudo pode ser levado ao pé da letra", adverte Cristiane. "Notamos que praticamente 100% das pessoas não fumam. Entre os homens, 80% dizem gostar de música clássica e artes plásticas e mais de 60% praticam esportes náuticos. Claro que isso não corresponde à verdade", assinala a pesquisadora. “São estratégias de sedução, para fugir aos filtros que os sites criam. Muitos usuários nem querem ter contato com quem fuma ou não gosta de artes, por exemplo.”




Existem sites de paquera para todos os gostos e preferências. Há os especializados em pessoas acima do peso, os só para amantes e até para aqueles com uma certa queda para o egoísmo têm um lugar na internet para encontrar sua cara-metade, como conta Cristiane. O site em questão é o Attlasphere, criado por fãs da escritora e dramaturga Ayn Rand, cujas obras pregam o individualismo, o egoísmo racional e o capitalismo (o nome é baseado na obra da autora, Atlas Shrugged). E quem está disposto a "pular a cerca", também pode se utilizar das facilidades da rede. O site Second Love é especializado em pessoas que já estejam em um relacionamento, mas querem conhecer outras também comprometidas, para dar um novo rumo à relação que vivenciam ou apenas para uma aventura virtual: ali, a infidelidade é declarada.
Amor e religião:
"O primeiro passo é orar; o segundo, procurar". Com este slogan, o site Amor em Cristo é voltado somente para os evangélicos. Nesse caso, parece que, além da ajuda das probabilidades, os adeptos parecem contar com uma força extra: a fé. O esquema parece estar funcionando muito bem: logo na entrada, é possível a qualquer visitante verificar os depoimentos de casais felizes que se formaram ali. "Uma das grandes particularidades deste site é que os evangélicos não entram nestes sites apenas para arrumar namorados: o objetivo é casar", conta a pesquisadora.



Outro site curioso é o eHarmony. Nele, o interessado precisa primeiro responder a um extenso e detalhado questionário, elaborado por psicólogos, que pode levar horas. Depois, só terá acesso aos integrantes que têm compatibilidade de perfil. "É muito interessante deixar que um algoritmo decida o seu futuro amoroso", comenta Cristiane. “É uma lógica diferente da maioria dos sites, que exibe fotos e mais fotos de pessoas desconhecidas, como numa vitrine virtual.” A ênfase no aspecto visual é a principal característica do site Beautiful People – do qual só participa gente bonita, selecionada de acordo com votação dos próprios participantes da comunidade virtual. O elitismo estético chegou ao extremo quando seus criadores decidiram fundar um banco virtual de esperma, denominado Beautiful Baby. "Isso foi denunciado pela imprensa americana e eles tiveram que voltar atrás, ao serem acusados de eugenia", conta a pesquisadora.
De acordo com Cristiane, os resultados têm sido muito ricos e satisfatórios. "As aulas têm sido bastante divertidas e toda a equipe está muito envolvida. Temos descoberto muitas informações novas e até quebrado alguns paradigmas", declara. Um deles, de acordo com a pesquisadora, é que na internet, o amor não tem idade. Como conta Cristiane, um aluno de 20 anos que está se passando por uma senhora de 60 já tem mais de dois pretendentes no site Broto Bacana. Voltado para pessoas com mais de 40 anos se relacionarem na rede, está sendo um grande sucesso. De acordo com Cristiane, os resultados da pesquisa até agora têm sido surpreendentes. “Toda a equipe está envolvida e se diverte muito. Temos descoberto sites que nunca imaginamos e até desfeito alguns preconceitos”, declara. “Os sites de paquera virtual ainda são vistos como um lugar de gente feia, esquisita e solitária. Temos constatado que isso não é verdade. Lógico que é preciso tomar cuidado para não cair em cilada, mas a rede é um lugar tão ou mais produtivo para se relacionar quanto uma festa ou uma boate”. Em geral, os próprios sites aconselham os usuários sobre como postar as melhores fotos, como se comportar e até como se precaver de perigos antes de se encontrar com estranhos.
As experiências dos estudantes nos sites de paquera estão sendo registradas em um diário de campo e em reportagens tradicionais, que serão publicadas no Jornal Laboratório da ECO. Boa parte já está pronta e pode ser acompanhada no blog do projeto. O resultado da pesquisa não será um livro tradicional, em papel. O trabalho será publicado um site e um aplicativo para tablets, como o iPad, para que o leitor não familiarizado com este universo possa visualizar as páginas da internet e acompanhar o trajeto dos infiltrados e suas conversas com usuários (que terão suas identidades protegidas). “É uma reportagem de imersão. Queremos dar a visão mais realista possível deste universo virtual, baseada não na ideia da representação, mas da simulação, como se o próprio leitor mergulhasse neste mundo paralelo”, explica a pesquisadora.

Fonte: FAPERJ