sábado, 10 de dezembro de 2016

Deusas Gregas e o Feminino

Ainda somos fortemente influenciados pela cultura grega. Na Mitologia os gregos mostravam, por meio do mito de Pandora, a misoginia. Pandora trouxe o mal ao mundo, assim como Eva na cultura judaico cristã.
Mas isso não é totalmente negativo. O feminino estar próximo ao mal, significa que está mais próximo ao humano e com possibilidade de desenvolvimento maior, pois tem mais familiaridade com a sombra.
Os gregos também possuíam muito medo da deusa Afrodite. Deusa da sexualidade feminina, da fertilidade, do amor e sedução, vivia seu desejo da forma que lhe convinha. Era a deusa mais bela, mais desejada e invejada do panteão.
Esse medo é retratado no mito do encontro da deusa com o mortal Anquises.
A deusa, ao ver o mortal se apaixona e decide entrar na tenda do rapaz e quando ele a vê a saúda como uma imortal, prometendo-lhe um altar e sacrifícios, e suplicando-lhe a bênção para ele e sua posteridade. Diante do medo, a deusa mente, dizendo ser uma donzela mortal, uma princesa frígia que também sabia falar a língua dos troianos. O mortal deita-se com a deusa imortal, sem saber o que estava fazendo. Afrodite desperta o amante adormecido e mostra-se a ele em sua verdadeira forma e beleza. Anquises fica assustado quando viu os lindos olhos dela. Virou-se para o outro lado, cobriu o rosto e implorou-lhe que o salvasse. Pois nenhum homem mortal continua gozando de boa saúde pelo resto da vida depois de haver dormido com uma deusa. Com ele então, concebe Enéias. Mas de sua parte, a deusa lamentou haver-se entregue a um mortal.

O medo da sexualidade afrodisíaca da mulher ainda persiste em nossa sociedade Ocidental. O medo de ser subjugado pelo desejo feminino ainda vive no homem moderno.
Além disso, em civilizações anteriores as deusas do amor e fertilidade também eram deusas da magia, da guerra e da morte, como a nórdica Freya, por exemplo. Amor e guerra sempre foram faces da mesma moeda.
Os gregos retiraram a qualidade guerreira de Afrodite e projetaram em seu amante Ares, que, por sua vez, também era rejeitado pelos gregos, por sua impulsividade e caráter agressivo. Os dois amantes eram uma ameaça ao patriarcado nascente à época.
A deusa da guerra para os gregos era Atena. Deusa da estratégia de guerra, da civilização, da cultura, diplomacia e da sabedoria. Era tida em alta conta pelos romanos e era a favorita de seu pai Zeus, o grande senhor do Olimpo.

Era casta, virgem e moderada. Ela inspirava os heróis com sua sabedoria e podia ser tão implacável quanto Ares, mas mantinha distância das paixões. Bem diferente da impetuosa Freya, suas ações eram movidas pela estratégia e frieza.

É possível que em tempos remotos Atena tenha sido uma deusa da fertilidade e tido o caráter maternal de todas as Grandes Mães da pré-história, no entanto, foi “domesticada”, formando um duplo sombrio com Afrodite.
Além disso, Atena e seu irmão Hefesto aparecem frequentemente juntos na arte grega, ambos são considerados co-instrutores da humanidade nas artes, e em vários lugares dividiam um culto em tempos remotos, o que sugere que em uma fase primitiva, não documentada, Hefesto pode ter sido um esposo de Atena.
Atena sendo levada em tão alta conta e sendo separada de seus atributos originais, mostra a nós que as qualidades femininas levadas em consideração atualmente, são a moderação dos instintos e a castidade.
No entanto, as Deusas da fertilidade clamam sua volta. Essa sombra reprimida precisa ser olhada novamente. O amor e a guerra, a fertilidade e a exuberância da sexualidade e sensualidade femininas precisam ser novamente compreendidas para assim deixarem de ser temidos.
Afrodite ainda sobreviveu na cultura grega e possuía seu culto, mas infelizmente hoje, na cultura cristã ela foi suprimida. Ainda enxergamos aspectos femininos como Pandora e Eva. Precisamos de um novo olhar para o feminino, que una novamente esses aspectos separados.
Referências:
BRANDÃO, J. – Mitologia Grega Vol. 1, Petrópolis: Vozes, 1986
BOLEN, J. S. – As Deusas e a Mulher. São Paulo: Paulus, 1990

CAMPBELL, J. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 1990.

Nenhum comentário: