sábado, 30 de outubro de 2010
Comorbidade
- Implicações clínicas para as comorbidades:
+ Dificuldade para o diagnóstico
+ Piora da evolução e prognóstico
+ Especificidades no tratamento.
-Transtornos de comorbidade:
+ Depressão
+ Transtorno Bipolar
+ Transtorno de Conduta
+ TDAH
+ Esquizofrenia
+ Transtornos Alimentares
+ Transtornos de Personalidade
Comorbidade Epidemiológica: A comorbidade em dependência química irá variar conforme as diferenças no tipo de estudo realizado se epidemiológico ou clínico.Nesse caso podemos avaliar que segue:
- 26% Transtorno de Humor
- 28% Transtorno de Ansiedade
- 18% Transtorno de Personalidade
- 7% Esquizofrenia
- A prevalência de depressão maior entre dependentes químicos varia de 30% a 50%
Segundo Costello(2002),sessenta por conto dos jovens com dependência de álcool e outras substâncias tinham uma comorbidade: transtorno de conduta, transtorno desafiador opositivo e depressão.
Beitman(1990)que vinte à quarenta e cinco por cento dos jovens com transtorno de ansiedade revelaram histórias de depedência de álcool.
Doyle(1993)revela que aproximadamente trinta e três por cento dos adultos com TDAH apresentam antecedentes de abuso ou dependência de álcool e vinte por cento relatam abuso ou dependência de outras substâncias.
A comorbidade depressão com abuso de substâncias é mais comum em mulheres do que em homens.Entre as mulheres, dezenove por cento tiveram depressão em algum momento da vida, enquanto que na população geral a prevalência é de sete por cento.
Nos homens,setenta e oito por cento apresentaram primeiro o abuso e depois a depressão; entre as mulheres com abuso de substâncias sessenta e seis por cento apresentaram primeiro a depressão.
Homens bipolares apreentavam abuso/depedência de substâncias mais frequentemente do que mulheres bipolares.
Stefanis(1999),refere que o abuso de uma ou mais substâncias foram relatados por setenta e seis por cento dos pacientes com transtorno de personalidade Boderline e noventa e cinco por cento dos pacientes com transtorno da personalidade anti-social.
Há uma prevalência dos transtornos relacionados ao uso de álcool e outras substâncias de aproximadamente quarenta e sete por cento, incluindo trinta e quatro por cento com abuso de álcool e vinte e oito por cento com abuso de drogas.
Para se diagnosticar se existe comorbidade:
- História clínica
- História Familiar
- Anamnese
- Auxílio da Família e Amigos
- Detalhe cronológico dos sintomas e problemas
- Melhora nos períodos de abstinência
- Conhecimento detalhado do DSM-IV e CID -X
sábado, 23 de outubro de 2010
Interação Pais e Bebê
Futuras mamães apresentam modificações na imagem corporal, podendo surgir sentimentos de invasão, angústia, medo e impotência.Desejos de ter e de não ter o filho, temor da gravidez não chegue ao fim.
Medo que a relação com o marido mude, havendo para isso necessidade de adaptação recíproca.
Enquanto o bebê está em construção surgem os movimentos fetais que denotam a autonomia do bebê,onde podem ocorrer as primeiras fantasias em relação ao parto e a espera desse outro desconhecido.
Nesse momento podem surgir na futura mamãe, labilidade de humor, regressão narcísica, o bebê dos sonhos e devaneios maternos.
Ao nascer, o estranhamento é algo que pode ser recorrente,devido a separação corporal,o choque de realidade entreo o bebê real e o que se imaginava ( bebê imaginário).E o possível estado depressivo, a dicotomia aceitação- aversão.
A relação paterna que se manifesta no encontro desse filho sem a intermediação da mulher - mãe,surgindo possivelmente sentimentos contraditórios, como por exemplo, ciúme, alegria, medo, impotência, potência.O pai será instrumento importante no processo de separação psiquíca entre mãe e bebê.
O bebê antes considerado uma massa a ser modelada pelo meio ambiente, passou a ser concebido como um ser complexo, previsível e agente ativo na interação.
Alguns pesquisadores dispoem de teorias para essa interação,segundo Cramer o bebê é revelador de cenários inconscientes dos pais,Lebivici revela que as interações não só no plano do comportamento mas também na vida imaginária dos parceiros da interação.Brazelton sinaliza que a escala de avaliação do comportamento do recém- nascido evidencia o nível de funcionamento e o potencial de cada criança.
Uma adas caracteristicas do estudo do bebê é que as trocas entre mãe e filho são consideradas simultaneamente do ponto de vista da realidade, uma observação fenomenológica.
Desde cedoo recém nascido pode discriminar sinais do comportamento humano, reagindo aos estímulos sociais, comunicando suas necessidades e desejos utilizando o corpo.
* Fontes de abastecimento do recém nascido:
- Interna:
+ Liberação e aprovisionamento de energia para nova realização, quando cada passo do desenvolvimento é dominado eo bebê incorpora um senso de domínio.
- Externa:
+ Meio ambiente materno que estimula e aprova as aquisições do bebê.
A criança, ativa na relação,com suas caracteristicas congênitas e adquiridas influencia as atividades da mãe que por sua vez vai provocar respostas no filho.
- Sinais de que o bebê está se desenvolvendo bem:
+ Olhar presente e reativo ao ambiente,
+ Sorriso social responsivo,
+ Movimentos antecipatórios,
+ Reação a estranhos,
+ Vocalização e balbucio,
+ Brinca com mãos e pés.
-Situações de Risco:
+ Depressão materna,
+ Pais com graves comprometimentos psíquicos e/ou sociais,
+ Patologia somática ao nascimento,
+ Patologia no plano funcional,
+ Separação precoce mãe-bebê,
+ Pais vivendo situação de luto grave.
- Sinais de Alerta:
+ Desinteresse e inadequação das respostas do bebê frente ao meio ambiente podem ser indicativos de risco ao desenvolvimento e uma intervenção precoce especializada pode minorar ou prevenir futuros distúrbios.
+ Evitação do olhar
+ Retardo ou ausência do sorriso social
+ Ausência de reação a estranhos
+ Ausência de movimentos antecipatórios
+ Ausência de vocalização e balbucio
Finalizando,a evolução da criança, sua integração social e suas possibilidades de autonomia dependem das relações afetivas que se estabelecem no início da vida.
sábado, 16 de outubro de 2010
Quatro anos de existência do Mosaico da Psicologia
Aí vieram os grupos no Yahoo e Google, grupos que tratavam sobre blogs ou,como eles chamam,a blogosfera.
Levei tanto fora quando convidava os membros do grupo para visitarem meu blog, mas aprendi com os que faziam o favor de visitar, me explicavam que deveria escolher um assunto específico, retirar as inúmeras fotos pessoais,e selinhos infantilizados que recebia, e o nome do blog, não fazia muito sentido,os leitores mais antigos devem se lembrar,chamava-se "Era Zen".
Foi complicado para mim, que não sabia nada de informática, muito menos códigos HTML, que palavra complicada, eu só tinha uma vaga noção de word, windows e excel,que aprendi em mil novecentos e antigamente.
Saí dos grupos onde me trataram de forma grosseira, eles não sabiam tratar com ética seus membros que não eram webmasters, mas encontrei muita gente boa,Catarino do Blog do Catarino, Pablo do DIHITT, entre tantos outros, além de começar a ler muito outros blogs, de vários assuntos, então resolvi que deveria escrever sobre o que mais gosto de fazer na vida, psicologia.
E então comecei a ler mais, escrever experiências vividas em minha jornada enquanto psicóloga, coloquei meu e-mail, para que os leitores pudessem entrar em contato comigo, quis mudar o template, e Catarino foi maravilhoso fazendo isso para mim.
Catarino me ensinou também a colocar o tradutor, e a caixa de pesquisa do Google.
Outros recursos eu ia clicando nos blogs que achava interessante, como por exemplo, o contador de visitas.
Fiz muitas bobagens, teve um tempo que o blog tinha um relógio que tomava metade de seu espaço, selos de tudo quanto é tipo, era tanta coisa piscando que parecia uma discoteca (que termo antigo!!!),recentemente retirei duas listas que mantinha;"Filmes Favoritos" e "Livros Prediletos", quem se interessar pode encontrar estas listas no meu perfil do blogger, pois estava tomando muito espaço no template.
Aprendi a procurar os lugares certos para divulgar o blog, o que era spam que é quando voce convida membros de seus grupos a visitarem seu blog, quando não é permitido pelas regras daquele grupo(e tome levar fora), até aprender a netiqueta.
Naveguei em muitas redes sociais, fui em busca de aprimoramento, achei muitos conteúdos interessantes, e fui lapidando o Era Zen.
Comecei a receber e-mails de pessoas que se sentiam contempladas com a leitura dos posts, algumas através dessas leituras me pediam ajuda eu as respondia e tentava ajudá-las, acreditem é recompensador, o blog não era um diário fútil, estava servindo para minimzar dores e cooperar em pesquisas estudantis.E como diz um certo comercial de TV, "Isso não tem preço!".
Então veio a necessidade de mudar o nome do blog, Era Zen parecia esotérico, e a proposta havia mudado radicalmente,mas e os blogs parceiros que cresciam a cada semana, e as pessoas que tinham salvo em seus favoritos esse endereço, não eram muitas,mas teria que resolver esse problema.
Trabalho de formiguinha que durou uma semana, avisei a todos os blogs parceiros a mudança de endereço para "Mosaico da Psicologia", escrevi para um monte de gente, twitei, dihitei, orkutei, msnei, enfim, consegui.
Aí venho a surpresa, denunciaram meu blog por conteúdo impróprio e ele saiu do ar por um fim de semana, quase infartei, estava tão lindo, entrei em contato com algumas pessoas que estão mais atentas do que eu quanto a blogs, uns me acalmaram, outros me assustaram.Resolvi desapegar, relaxar e esquecer, foi um sonho na areia, e estava convicta que ia parar de escrever, nele e no outro blog que mantenho o Mosaico de Histórias(esse no wordpress).
Na segunda- feira,o acesso como uma despedida,e lá estava ele de volta, aprendi lendo o blog de Juliana,o Dicas Blogger,que isso acontece mais vezes do que se pensa.Ela também foi vítima e perdeu seu domínio próprio, digo isso aqui porque ela colocou a boca no mundo e falou da inveja na internet.Maravilhoso o post dela sobre esse assunto.
E vou aprendendo, como tenho trabalhado muito, relaxei com os blogs, mas como nesse momento estou de férias resolvi dar uma acelerada e cuidar dos meus filhos, os blogs.
Talvez próximo ano faça o tão sonhado curso de webdesigner, era para ter sido esse ano, mas foi ano muito cheio e não deu.
Hoje agradeço a todos que me ajudaram nessa jornada, os que sabem que ajudaram e os que não sabem, e deixo um recadinho a quem quer começar um blog, comece do jeito que voce quiser e depois vá se aperfeiçoando e mudando,vai dar tuido certo.
Agradeço também aos leitores, sem eles não teria sentido essa troca de experiências.
sábado, 9 de outubro de 2010
Autismo: Uma estrutura decidida (Maria Kupfer)
Neste texto desenvolve-se a questão do que pode haver de decidido na estrutura autista.
A distinção já localizável em Freud entre um eu-real e um eu-prazer poderia trazer um caminho possível de resposta. Articulando autores no interior da psicanálise que se dedicaram a pensar o autismo com autores que observaram a evolução dos esquemas corporais em crianças desde momentos bem precoces de seu desenvolvimento, procurou-se, na confrontação com uma prática clínica, trabalhar o que se passa neste momento de estruturação.
A noção de um esquema corporal independente e a de um devir viscoso parecem indicar o que estaria decidido na estruturação autista.
Vou retomar aqui uma questão com a qual venho trabalhando e que foi a base de minha apresentação no Congresso sobre bebês de Curitiba, em 2001. Essa questão, em torno do eu do autista, me ajudará a desembocar nessa provocação que fiz para essa mesa de debates: o que há de decidido no autismo, contrariamente a esse não-decidido da psicose infantil? Ou então, haveria um destino na infância que se estruturaria de forma mais definitiva, mais fechada? Se houver, do que depende? Depende do momento em que o diálogo do infans com o Outro Primordial sofre uma interrupção? É claro que esse tipo de pergunta tem conseqüências sérias para pensar a clínica e a escolarização de crianças autistas. É claro que tem também conseqüências para pensar os diagnósticos, particularmente o diagnóstico diferencial psicose/autismo. Mas mesmo que a resposta seja afirmativa – a estrutura está decidida muito cedo – isso não significará de modo algum desistir do tratamento; poderá servir para abordá-lo melhor.
Então, vou retomar meu percurso anterior, o estudo do eu do autista, para em seguida tomar um outro rumo, o dos estudos sobre imagem corporal nos autistas, já que o eu e a imagem corporal são duas noções solidárias. Para realizar essa investigação, consultei alguns autores psicanalistas, mas também outros autores que estudaram imagem corporal. Acredito ser por esse caminho que podemos entender um pouco mais a respeito daquilo que se passa com um bebê nos primeiros meses, para não dizer nos primeiros dias, e assim abordar o que eu estou chamando de decidido da estrutura.
Vejamos em primeiro lugar a questão do eu. Se uma criança dita autista não pode ser considerada, estritamente falando, como um sujeito da linguagem, como um sujeito-efeito do significante, há, de outro lado, um eu, que preside aos seus movimentos no mundo dos objetos e mesmo no mundo dos outros, ainda que seja para evitá-los. Como conceber a sua instalação, se sabemos que o estádio do espelho, base para essa instalação, não se construiu convenientemente, como afirma Laznik (1989)? Como é que uma criança anda, pensa, se há danos sérios na construção de sua imagem corporal, pelo menos na imagem corporal que entendemos ser construída por meio do olhar do outro, por meio das significações que lhe são imputadas pelo Outro?
Observamos, na clínica, que essas crianças apresentam um desenvolvimento psicomotor de modo independente, uma inteligência em funcionamento, uma coordenação motora que se pode ver. Quem é esse eu? Pode-se acompanhar uma resposta possível a essa questão nos textos de Laznik (1989), a partir da noção de eu-real e do sistema eu-real – eu-prazer.
Esta é uma noção que Lacan tomou de Freud e trabalhou de outro ângulo. No texto de Freud, A pulsão e seus destinos (1973), encontramos essa afirmação de que existe um eu que se encontra originariamente no princípio da vida anímica. O mundo exterior não oferece para ele interesse algum. Neste primeiro tempo, o sujeito coincide com o que é prazeroso, e o mundo exterior com o que é indiferente. Freud o chama de eu-real. É só num segundo tempo que se diferencia um eu-prazer, para o qual o sujeito coincide com o que é prazeroso e o mundo exterior com o que é desprazeroso.
Lacan (1959-60) lê a formulação de Freud a seu modo, em primeiro lugar dizendo que esse eu-real não está pulsionalizado nem é auto-erótico. Concebe-o de fato como o Sistema Nervoso Central, na medida em que funciona não como um sistema de relações, mas como um sistema destinado a assegurar uma certa homeostase das tensões internas.
Se o eu-real é Sistema Nervoso, pode-se então formular a seguinte hipótese: seria esse real correspondente a aquilo que alguns autores chamam de imagem corporal primitiva, ou de esquema corporal? Seria o eu real, ou esquema corporal, a estrutura que permite ao autista andar, desviar com habilidade dos objetos, etc..? É possível afirmar que o autista se vale bem desse esquema corporal, que é de fato um esquema real, ao qual não foi enodada essa imagem narcísica, imaginária, ofertada como dom pelo agente materno?
A partir dessa hipótese, minha pesquisa tomou duas direções: uma foi a de verificar o estatuto do Outro no autismo, e a outra foi a de por a lupa nesse corpo-organismo, nesse esquema corporal, com a ajuda de Dolto e outros pesquisadores, como Meltzoff e Trevarthen.
Beebe e col. (2004) realizaram um estudo no qual as perspectivas de Meltzoff, Trevarthen e Stern são comparadas. Segundo eles, Meltzoff observou formas rudimentares de imitação em bebês 42 minutos após o seu nascimento. "Aos 42 minutos a criança observa um modelo. O modelo faz um gesto, como abrir a boca o por a língua para fora. Durante os dois minutos e meio seguintes, a criança faz gestos cada vez mais parecidos com os do modelo". O mecanismo que explica essa possibilidade de imitação em idade tão precoce é o da coincidência transmodal: a criança associa o que vê com o que sente proprioceptivamente em seu rosto. Detectando coincidências, a criança pode, desde o começo de sua vida, traduzir os estímulos ambientais em estados internos. Segundo Beebe e col (2004), Meltzoff acredita que esta capacidade produz na criança o primeiro sentimento de que "tu és como eu".
Assim, é possível afirmar que para Meltzoff parece existir, desde o início, um mecanismo inato que já permite uma primeira "noção de si", uma primeira imagem corporal, ainda que extremamente inicial. Nesse autor a noção de imagem corporal corresponderia mais precisamente à de esquema corporal, tal como é utilizada em psicanálise.
Já Trevarthen formula a hipótese de uma imagem neuronal capaz de detectar os tipos de afeto que o outro lhe transmite. Segundo ele, a imagem do corpo da criança dentro do cérebro é capaz de refletir a ação do corpo da pessoa que está diante dela. Essa representação cerebral do outro está ancorada em uma imagem motora.
Em relação ao lugar do Outro na constituição da imagem corporal, esses pesquisadores fazem observações interessantes, utilizando naturalmente um referencial teórico diferente do da psicanálise. Em seus estudos, a relação pais-bebê assume importância capital, e nisso coincidem com os psicanalistas. Para eles, os bebês apreciam as correspondências entre suas próprias ações e a de seus companheiros. Por isso, o reconhecimento dessas correspondências, afirmam Beebe e col, (2004) proporciona para eles "uma linguagem comum e momentos especiais de conexão. As correspondências têm sua própria significação emocional: todos os participantes desfrutam destes momentos".
Trevarthen também descreve tais interações, mencionando "sutis e rápidos deslizamentos e saltos de tom ou de volume da voz, sílabas pré-acentuadas, morfemas de sufixos, detalhes e ornamentos rítmicos, gestos manuais rápidos, velozes movimentos de cabeça, mudanças de olhar… que aparecem de maneira abundante em toda comunicação conversacional espontânea". Em outras palavras, esses "momentos especiais de conexão" entre o agente materno e o bebê não são outra coisa senão momentos de mamanhês!
Dolto
Os trabalhos de Françoise Dolto contribuem significativamente para a discussão em torno da existência de uma imagem corporal inicial no bebê. A noção de imagem inconsciente fornece uma pista crucial para essa discussão, e pode ser aproximada dessa primeira imagem ou esquema corporal concebida por Meltzoff e também por Trevarthen.
Antes de mais nada, é preciso situar a distinção que Dolto estabelece entre a noção de imagem corporal e a de esquema corporal. Esse último é, para ela, "a ferramenta, o corpo, ou melhor, o mediador organizado entre o sujeito e o mundo. O esquema corporal será o intérprete ativo ou passivo da imagem do corpo, nesse sentido em que ele permite a objetivação de uma intersubjetividade, de uma relação libidinal linguageira com os outros, e que, sem ele, sem o suporte que ele representa, permaneceria para sempre como fantasma não comunicável" (Dolto, 1984, p. 22).
Já a imagem corporal existe, para Dolto, desde a concepção, e a todo momento, sendo "memória inconsciente de todo o vivido relacional" (p. 23). Graças à imagem do corpo, cujo suporte é o esquema corporal, podemos entrar em comunicação com os outros.
Até aqui, os pesquisadores consultados pronunciaram-se a respeito do modo como entendem que se devam esperar o surgimento e o desenvolvimento da imagem corporal em bebês. Mas é Dolto (1984) que virá trazer considerações sobre o que pode ser a psicopatologia ou os problemas que podem ocorrer nesse estabelecimento.
É possível, segundo ela, "assistir à aparente perda de reconhecimento das vozes familiares do entorno da criança; esta se torna não apenas muda, mas psicogênicamente não ouvinte. Ela não ouve mais as vozes humanas, as palavras, mas apenas os ruídos da vida. Ela anula o que dizemos, mas recebe as referências úteis para a sua sobrevivência riscando de sua atenção os humanos que a cercam" (p.216).
Dolto, nesses casos, pergunta pelo sujeito que deveria estar presente desde o início do nascimento. Mas seja qual for a razão, ele não assume, pela mediação de uma imagem corporal, um esquema corporal, que passa por isso a "viver sozinho, como um espécime anônimo da espécie". Há, segundo ela, uma separação entre sujeito e corpo, que ela chama de "desolidarização". O sujeito parece retirar o desejo de seu corpo e tende a descansar do trabalho de viver com esse corpo na realidade; "é como se ele se reduzisse a um ponto focal no qual os ritmos de sustentação vegetativos do corpo fossem bem mantidos, conservando a perenidade do sujeito momentaneamente em férias de libido" (p.216).
Férias de libido para Dolto, doença da libido para Soler (1990). "É a animação corporal que não vai adiante. Ou bem ele é um puro vivente, sem libido, no sentido do desejo, portanto inerte, ou ele se torna uma máquina significante, ele é maquinizado" (p. 21).
A hipótese que pode então ser avançada, a partir de Dolto, é que o autista é uma criança cujo esquema corporal funciona de certo modo de maneira autônoma, "des-solidária" do sujeito.
Quando, no entanto, o outro da pulsão, o outro que funciona com base no funcionamento libidinal do corpo, termina por se fazer presente para essa criança, acaba por impor-se, e a criança não pode mais ignorá-lo, deve-se perguntar o que ela pode fazer com isso, ou seja, como pode "entrar em relação" com ele, se sua libido está de férias? A clínica nos mostra que, nesse momento, a criança responde com aquilo que pode ser chamado de viscosidade. Por falta de enodamento libidinal entre o corpo e a linguagem, alguns autistas não sabem beijar seu semelhante; sabem apenas encostar seus lábios no rosto alheio. Colam-se em vez de beijar. O outro é fonte de sensações e não de percepções. Em minha experiência clínica, a tentativa de reconstrução da imagem corporal resultou, em alguns casos, no surgimento dessa viscosidade. Como se vê, aliás, no caso de Marcos, o italiano estudado por Laznik.
É a manutenção do esquema corporal independente, bem como o devir viscoso que surge quando o outro introduz a sua libido, que me dá a impressão do decidido da estrutura. Justamente por não estar marcado pelos desfiladeiros do Significante – e isso não significa que não tenha havido um dia um Outro da linguagem, só significa que ele, em sua inteireza, não está – o esquema corporal tem a fixidez do que não pode ser substituído, flexibilizado, colocado para deslocar-se. E quando o pulsional não se enlaça ao significante, degrada-se, não chega a tornar-se pulsão e encontra apenas o caminho da viscosidade, da aderência ao objeto, da doença da libido. Parece que quando o significante surge para o sujeito, é para ser puro código, para sempre descolado do corpo. É o menino de Oliver Sachs, são os meninos que nós tratamos, que crescem, vão à universidade, altos matemáticos, mas terão sempre dificuldades de relacionar-se com os outros. Aí está o que me parece o decidido da estrutura.
Algumas conseqüências dessas formulações
Em relação à intervenção precoce, observamos que os pediatras e neuropediatras já estão alertados para a necessidade de acompanhar a relação entre problemas orgânicos graves e atraso no desenvolvimento. Isso, vemos que já acontece; já sabem que têm que ver se a criança trabalha direitinho com os objetos, etc. Acontece que, justamente no caso dos autistas, o desenvolvimento pode estar muito bem e isso pode despistar os pediatras, porque será o esquema corporal e não a imagem corporal que estará se desenvolvendo. Sabe-se o quanto as crianças autistas são saudáveis. Então será necessário conversar com os pediatras, para que não se enganem, já que mesmo numa criança indo muito bem neste ponto do desenvolvimento, alguma coisa da ordem da não constituição do sujeito da linguagem pode estar ocorrendo.
Em relação à escolarização destas crianças, toda vez que lhes propomos escolarização, não estamos pensando em prover a ela condições de aprendizagem, no sentido de que possam se mover no mundo com esses conhecimentos. Estamos querendo que elas se beneficiem de outras coisas oferecidas pela escola: os laços sociais que ali se estabelecem, as possibilidades de oferta de outras posições. O terapêutico está nessa circulação e nessa relação com outros, está naquilo que vão obter nessa circulação por esses objetos de conhecimento.
A ênfase não está na produção de conhecimento, porque se a ênfase ficar na produção de conhecimentos, com crianças autistas, estaremos somente reforçando essa dimensão de inteligência pura, de trabalho com o puro código, onde não há mensagem, onde há algo que funciona de forma quase autônoma. Todos os métodos que vão nessa direção só estarão excluindo ainda mais o autista.
sábado, 2 de outubro de 2010
Hiperatividade em Crianças II
Algumas queixas que os pais nos trazem são: "Meu filho não pára", "Ele é impossível", "Ninguém segura essa bomba", "Ele tem duas almas, todas duas de gato", "Ele é cheio de problemas", "O sistema dele é nervoso", " Ele é maluvido", "Não aprende porque não presta atenção", "Faz tudo e não termina nada", "Vive no mundo da lua", "Tem a mão furada".
Claudius Galenus, 200 a.C, médico grego prescrevia ópio para as então chamadas "cólicas infantis", que eram, o que chamamos hoje de impaciência e inquietação.
Atualmente, existem, além da terapia, medicação para o controle da hiperatividade em crianças,a chamada Ritalina e Cloridrato de Metilfenidato, essas obtiveram crescimento de dez por cento de suas vendas, depois que os médicos passaram a prescrevê-las para o controle da hiperatividade em crianças e adolescentes.
Porém, esquecemos de avaliar o que está por trás dessa criança, ou seja, o histórico familiar e a implicação da família nesse contexto.
*Cabe ao profissional de saúde orientar a família a propiciar um ambiente de conversa onde:
- Tudo possa ser falado incluindo o porquê das restrições que a família faz a criança/adolescente hiperativo,
- Não subestimar a criança acreditando que elas não vão sentir as conseqüencias de agressões, - Criar um ambiente onde as crianças possam apreciar a si próprias,
- Respeitar as crianças e ensiná-las a respeitarem - se em seus limites,
- Falar além da proibição (o que é afinal permitido?),
- Não transformar tratamento em castigo.
* Para os educadores:
- Conhecer seus alunos, estar atento aos seus sinais,
- Lembrar que o professor não faz diagnósticos,
- Conheça seus limites, não tenha medo de pedir ajuda,
- Apresente alternativas, não existe um modelo único,
- A criança hiperativa é vítima de um problema e não a causa,
- Permita-se fracassar.
Fonte:
www.scribd.com